Cooperativas avançam na casa do bilhão e ampliam ganhos aos cooperados

A geração e a distribuição de sobras nas cooperativas brasileiras têm registrado crescimento consistente nos últimos anos e consolidado uma transformação na capacidade de retorno econômico direto ao cooperado. Esse avanço na escala pode ser entendido pela ampliação da base de cooperados, pelo maior uso de produtos e serviços e pelo fortalecimento das operações ao longo do ciclo econômico

Na prática, esse movimento vem se materializando por diferentes frentes, que incluem a distribuição de resultados, a remuneração do capital social e a oferta de condições mais competitivas em produtos e serviços financeiros.

No entanto, esse ciclo não se esgota nos números apresentados ao fim de cada exercício. Ele depende de um elemento central da governança cooperativista: a participação ativa dos associados, especialmente no período de assembleia, quando são analisadas as contas, validadas as decisões estratégicas e definido o destino das sobras.

Sobras: o que são e como funcionam

A destinação das sobras segue um processo estruturado, que começa com a apuração do resultado do exercício e avança para a definição da alocação conforme critérios estatutários. Parte desses recursos é direcionada a fundos obrigatórios, voltados à sustentabilidade e à expansão das operações, enquanto o restante retorna ao quadro social de forma proporcional à movimentação de cada cooperado ao longo do período.

Esse retorno se materializa em algumas diferentes frentes, que incluem crédito direto em conta, remuneração do capital social e o reinvestimento em estruturas e serviços. A definição sobre o destino desses recursos ocorre após a apresentação e aprovação das demonstrações financeiras em assembleia, etapa que formaliza a deliberação dos cooperados sobre a distribuição ou reinvestimento do resultado. Esse processo estabelece o ponto de conexão entre desempenho econômico e governança, ao transferir para o quadro social a decisão sobre a alocação das sobras.

Geração de valor

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Ênio Meinen, diretor de Coordenação Sistêmica, Sustentabilidade e Relações Institucionais do Sicoob

A decisão sobre o destino das sobras marca a etapa final do processo que começa na geração de valor dentro das cooperativas. Ao longo de 2025, os indicadores de benefício econômico registrados pelas cooperativas de crédito evidenciam a capacidade do modelo de transformar as operações financeiras em retorno direto ao cooperado, com impacto concreto sobre renda, atividade produtiva e circulação de recursos nas economias locais.

No Sicoob, esse movimento se traduziu em R$ 49,8 bilhões em benefícios econômicos gerados aos cooperados, considerando a diferença entre as condições praticadas pela instituição e a média do mercado financeiro, além da participação nos resultados. Ênio Meinen, diretor de Coordenação Sistêmica, Sustentabilidade e Relações Institucionais, afirma que a geração de valor no cooperativismo financeiro está diretamente associada à eficiência operacional combinada à redistribuição dos resultados. “Quando reduzimos o custo do crédito e dos serviços, ampliamos a rentabilidade dos investimentos e compartilhamos os resultados, estamos gerando valor de forma concreta, mensurável e permanente aos usuários-membros e às suas comunidades.”

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Adriano Michelon, conselheiro da Cresol Confederação

Na Cresol, o benefício econômico total alcançou R$ 4,8 bilhões em 2025, com média de R$ 4,3 mil por cooperado, considerando operações de crédito, remuneração de depósitos, distribuição de resultados e investimentos sociais. Adriano Michelon, conselheiro da Cresol Confederação, avalia que o indicador sintetiza o impacto direto da atuação da cooperativa na vida financeira dos associados e reforça o vínculo com o quadro social. Para ele, o indicador evidencia como a atuação da cooperativa se traduz em ganho financeiro concreto para o associado, a partir da combinação entre condições operacionais e distribuição de resultados.  “Esse resultado simboliza a valorização da relação do cooperado com a cooperativa e a concretização do que o cooperativismo se propõe a fazer, que é oferecer condições mais justas e distribuir os resultados de forma proporcional”, afirma.

O Sistema Ailos também registrou impacto relevante, com R$ 3,88 bilhões em economia direta para os cooperados ao longo do ano, a partir da diferença entre taxas de crédito, rentabilidade de aplicações e distribuição de resultados em relação ao mercado tradicional. Adelino Sasse, diretor de negócios e produtos da Central Ailos, destaca que o indicador traduz, de forma objetiva, a presença do cooperativismo no cotidiano dos cooperados e nas economias locais.

Adelino Sasse

“A Economia da Cooperação mostra, de maneira objetiva, como o modelo cooperativista se converte em benefício financeiro direto para as comunidades onde estamos presentes” – Adelino Sasse, diretor de negócios e produtos da Central Ailos

No Sicredi, o benefício econômico gerado aos associados alcançou R$ 31,1 bilhões em 2025, acompanhado pela distribuição de R$ 3,4 bilhões diretamente ao quadro social. Alexandre Barbosa, diretor executivo de Administração e Finanças, afirma que os números refletem a essência do modelo cooperativo ao conectar desempenho financeiro e desenvolvimento regional. “Mais do que os números, esse desempenho evidencia a força do modelo cooperativo, que transforma resultado financeiro em retorno direto aos associados e em desenvolvimento para as regiões onde estamos presentes”, diz.

Na Sisprime, o avanço da geração de resultados também se refletiu em crescimento consistente ao longo do último exercício. A cooperativa encerrou 2025 com R$ 355 milhões em sobras brutas, alta de 42% em relação ao ano anterior, em um movimento acompanhado pela expansão da base de cooperados, que ultrapassou 57 mil associados, e pelo aumento dos recursos administrados, que chegaram a R$ 11 bilhões.

Alvaro Jabur, presidente da Sisprime do Brasil, afirma que o desempenho reflete a capacidade da cooperativa de sustentar crescimento com foco no cooperado e na solidez financeira. “Encerramos 2025 com um resultado histórico, sustentado por crescimento responsável, solidez patrimonial e foco no cooperado. Esses números confirmam que a Sisprime segue no caminho certo, gerando valor de forma contínua e sustentável para seus cooperados e as comunidades onde atua”, destaca.

Distribuição na prática

Os valores gerados ao longo do exercício ganham forma concreta no momento da distribuição das sobras, quando o resultado aprovado em assembleia retorna diretamente ao cooperado.

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Marcelo Cestari, diretor executivo da Viacredi

Na Viacredi, cooperativa do Sistema Ailos, esse processo resultou na destinação de R$ 470,1 milhões aos cooperados, a partir de um resultado total de R$ 627,7 milhões em 2025. Desse montante, R$ 254,7 milhões foram pagos na forma de juros ao capital, enquanto R$ 215,3 milhões correspondem à distribuição das sobras, creditadas diretamente na conta corrente dos cooperados.

Marcelo Cestari, diretor executivo da Viacredi, destaca que a participação do cooperado é determinante para a legitimidade desse processo e influencia diretamente os próximos passos da cooperativa. “Quando o cooperado participa, vota e acompanha os resultados, ele contribui com os próximos passos da cooperativa e torna esse processo ainda mais legítimo e representativo”, afirma.

Sobras no agronegócio

A lógica de distribuição de resultados observada nas cooperativas de crédito também se reproduz no cooperativismo agropecuário, com impacto direto sobre a renda dos produtores e a dinâmica econômica das regiões onde atuam. Nesse caso, o retorno ao cooperado está diretamente associado ao desempenho das atividades produtivas e à participação nas operações ao longo do ciclo agrícola.

Na Cooxupé, cooperativa de cafeicultores com atuação em diferentes regiões produtoras, a distribuição de sobras alcançou R$ 185,6 milhões em 2025, a partir de um resultado total de R$ 470,3 milhões.

Na Aurora Coop, o resultado do exercício chegou a R$ 1,2 bilhão em sobras, com crescimento de 43,5% em relação ao ano anterior. O desempenho reflete a integração entre produção agropecuária, processamento industrial e atuação comercial, consolidando um modelo que conecta eficiência operacional e distribuição de resultados em larga escala.

Neivor Canton, presidente da Aurora, afirma que os resultados alcançados estão diretamente relacionados à organização produtiva e à participação dos cooperados no sistema. Ele acrescenta que a consistência dos resultados está diretamente ligada à integração das operações e à participação ativa dos cooperados ao longo de toda a cadeia produtiva.

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“Os resultados conquistados são possíveis pela união e confiança entre a cooperativa e seus cooperados, além do comprometimento de todos os envolvidos nas atividades” – Neivor Canton, presidente da Aurora

Assembleias e decisão dos cooperados

Os resultados distribuídos ao fim de cada exercício materializam o retorno ao cooperado, mas dependem de um processo decisório que passa, necessariamente, pela participação do quadro social.

A destinação das sobras envolve a avaliação do desempenho e a definição de prioridades para o ciclo seguinte. Nesse contexto, o período assemblear concentra o momento em que o cooperado exerce sua capacidade de influência sobre os rumos da cooperativa.

No artigo “Assembleias em cooperativas”, Márcio Port, Presidente da Central Sicredi Sul/Sudeste, defende que o período assemblear representa o momento mais relevante da vida institucional das cooperativas, ao concentrar as decisões que definem seus rumos estratégicos e a destinação dos resultados. Para ele, é nesse espaço que o cooperado exerce, de forma efetiva, seu papel de dono, participando da avaliação das contas, da validação das diretrizes e da definição sobre a alocação das sobras.

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Márcio Port é Presidente da Central Sicredi Sul/Sudeste

Essa dinâmica posiciona a assembleia como o principal ponto de convergência entre desempenho econômico e governança. A participação não implica envolvimento direto na gestão cotidiana, mas se organiza por meio de um modelo de delegação, no qual os cooperados elegem conselheiros responsáveis por definir a estratégia e acompanhar os resultados, enquanto a execução fica a cargo da diretoria.

Ao abordar esse ponto, Márcio Port reforça que a ausência de participação não elimina os efeitos das deliberações, mas reduz a capacidade de influência sobre os rumos da cooperativa. “Toda deliberação afeta a todos, inclusive aqueles que optaram por não participar”, afirma.

Impacto no cooperativismo

Os resultados distribuídos ao fim de cada exercício se sustentam na participação ativa do quadro social. Na Viacredi, por exemplo, esse movimento se refletiu em mais de 260 mil participações e 174 mil votos registrados durante o período assemblear, com crescimento de 22% no engajamento em relação ao ano anterior.

Esse envolvimento amplia a consistência das deliberações e reforça a conexão entre desempenho e direcionamento estratégico. A participação do cooperado valida a destinação das sobras e também influencia as prioridades da cooperativa, contribuindo para decisões mais alinhadas às demandas do próprio quadro social.

Marcelo Cestari, diretor executivo da Viacredi, afirma que o engajamento dos cooperados impacta diretamente a qualidade das decisões e o futuro da instituição. “Quando o cooperado participa, vota e acompanha os resultados, ele contribui com os próximos passos da cooperativa e torna esse processo ainda mais legítimo e representativo”, destaca.

Esse ciclo de distribuição e decisão tende a circular nas economias locais, estimular atividades produtivas e ampliar o impacto do cooperativismo nos territórios presentes.


Por João Victor, Redação MundoCoop

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