Em um modelo de negócios que nasce fundamentado em princípios como equidade, participação democrática e inclusão, uma pergunta começa a ganhar força. É possível sustentar desempenho nas cooperativas sem diversidade real nos espaços de decisão?
O estudo recente Desempenho Financeiro e a Participação das Mulheres no Conselho de Administração de Cooperativas Agropecuárias Brasileiras, apresentado e premiado na oitava edição do Encontro Brasileiro de Pesquisadores em Cooperativismo (8º EBPC), lança luz sobre essa provocação ao identificar uma relação consistente entre performance financeira e maior presença feminina nos conselhos. O dado, à primeira vista, pode sugerir uma leitura direta, mais mulheres, melhores resultados. Mas a análise é mais complexa e mais reveladora.
O que emerge não é apenas uma correlação, mas um retrato de transformação institucional, onde cooperativas com melhor desempenho tendem a estar mais alinhadas às demandas contemporâneas de governança, entre elas a inclusão. Ou seja, mais do que causa isolada, a diversidade aparece como sinal de maturidade organizacional.
Para o professor, pesquisador e autor do estudo Luis Felipe Orsatto, a chave está justamente nessa leitura. “Os resultados encontrados indicam que o melhor desempenho financeiro que tende a favorecer a maior participação feminina. Ou seja, cooperativas com melhores resultados passam a sofrer maior visibilidade e pressão institucional para adotar práticas mais inclusivas, como a inserção de mulheres nos espaços de decisão.”
No caso do agro, esse movimento ganha ainda mais relevância ao confrontar estruturas historicamente masculinas. Ainda assim, a inclusão não surge como ruptura, mas como consequência de um processo de adaptação. “Assim, o que a pesquisa sugere é que cooperativas mais bem-sucedidas tendem a se alinhar mais rapidamente às demandas institucionais contemporâneas (sociais e culturais) entre as quais se destaca a inclusão de mulheres nos conselhos. Trata-se, portanto, de um movimento de adaptação institucional, no qual o desempenho financeiro pode ser interpretado como um indicativo do grau de alinhamento da cooperativa às normas e expectativas vigentes.”
Diversidade não é presença, é estrutura
Se o estudo aponta o movimento, a prática ajuda a explicar o impacto. Para Gisele Gomes, CEO da Parônima e integrante do Global Women’s Leadership Network da Woccu, o erro mais comum é tratar diversidade como uma soma de indivíduos, e não como uma transformação coletiva. “O que a evidência mostra é que o impacto vem da qualidade do ambiente decisório quando ele deixa de ser homogêneo. Pesquisas mostram que boards com ao menos três diretoras de cada gênero são 79% mais ativos nas reuniões; não porque mulheres sejam mais participativas por natureza, mas porque a composição alterou a dinâmica de grupo, reduzindo o pensamento de grupo. O efeito é estrutural, não individual.”

“Onde há mais equidade, há mais qualidade de processo. E qualidade de processo produz melhores resultados” – GISELE GOMES, CEO DA PARÔNIMA
No cooperativismo, esse ponto ganha uma camada adicional de complexidade e a consequência direta não é apenas simbólica. Ela se traduz em decisões menos calibradas, menor engajamento e perda de conexão com o próprio quadro social.
A relação entre diversidade e desempenho, portanto, não se limita a indicadores financeiros. Mas atravessa dimensões como confiança e sustentabilidade do modelo. “O primeiro custo é de talento. Cooperativas que mantêm ambientes excludentes perdem cooperadas engajadas e defensoras do cooperativismo; e perdem as profissionais mais qualificadas para organizações que as tratem com equidade”, acrescenta Gisele.
“O segundo custo é de legitimidade. Organizações com maior representação de mulheres são consistentemente associadas a melhores práticas éticas, melhores ambientes de trabalho e maior confiança institucional”, completa. Essa leitura reforça uma mudança importante, a inclusão como centro das estratégias.
Governança como ponto de virada
Se a diversidade é reflexo de maturidade, a governança é o mecanismo que a viabiliza ou a bloqueia. Para a professora, pesquisadora e orientadora do estudo Clea Beatriz Macagnan, o debate precisa sair da superfície e avançar para critérios mais estruturais. “Para um bom desempenho, a cooperativa necessita de dirigentes competentes, portanto, o que importa são as competências exigidas pela função do gestor e não há sentido de seleção por classificações de gênero.”
“Mulheres em funções de alta gerência são um indicador de profissionalização da gestão e de qualidade no nível de governança cooperativa” – CLEA BEATRIZ MACAGNAN, PROFESSORA E PESQUISADORA

Ao mesmo tempo, ela chama atenção para o momento de transição vivido pelas organizações. “Eu entendo que estamos em processo de alteração institucional. As instituições são formadas por leis, normas, costumes e comportamentos que estruturam a sociedade, mas se alteram ao longo do tempo.”
Na prática, isso significa que a presença feminina não deve ser vista como concessão, mas como resultado de sistemas de governança mais alinhados com os avanços da sociedade. “Mulheres em funções de alta gerência são um indicador de profissionalização da gestão e de qualidade no nível de governança cooperativa.”
O custo de não incluir
Se a inclusão gera valor, a ausência também produz efeitos, e eles são mensuráveis. “Quando metade do quadro social não tem assento nas decisões, esses princípios deixam de ser praticados e passam a ser apenas declarados”, reforça Gisele Gomes.
A desconexão entre discurso e prática fragiliza não apenas a imagem, mas o potencial de desenvolvimento. “No longo prazo, essa limitação pode comprometer a capacidade de evolução da cooperativa e, consequentemente, sua sustentabilidade”, completa Luis Felipe.

“A presença feminina nos conselhos pode ser entendida um indicativo de que a cooperativa já está passando por um processo de evolução institucional.” – LUIS FELIPE ORSATTO, PESQUISADOR E PROFESSOR
Ao fim, a discussão sobre diversidade nas cooperativas revela algo maior do que indicadores de performance. Se, por um lado, ainda há limitações na comprovação direta da relação causal entre diversidade e desempenho, por outro, os sinais são claros, organizações mais diversas tendem a ser mais preparadas para lidar com complexidade, representar seus públicos e sustentar sua legitimidade. Trata-se de coerência entre propósito e ação.
Mas talvez o ponto mais provocativo esteja além dos números. “Os ganhos existem, são reais e estão documentados. Mas eles não são a razão pela qual mulheres deveriam estar nesses espaços. A razão é que esses são espaços de poder em organizações que pertencem a elas tanto quanto a qualquer outro”, ressalta Gisele.
No cooperativismo, a pergunta que fica não é mais se a diversidade impacta o desempenho, mas quanto custa, para o próprio modelo, continuar adiando essa transformação. “Quando observamos que não há mulheres na alta administração de uma cooperativa, devemos nos perguntar: será que não há nenhuma mulher com competência para a função? Mulheres em funções de alta gerência são um indicador de profissionalização da gestão e de qualidade no nível de governança”, finaliza Clea Beatriz.
Por Fernanda Ricardi, Redação MundoCoop

Matéria exclusiva publicada na edição 130 da Revista MundoCoop












