O mapa de 1507 e a miopia da intercooperação moderna – Silvio Giusti é consultor em cooperativismo

Foi a primeira vez que a palavra “América” apareceu. O mapa do cartógrafo alemão Martin Waldseemüller, de 1507, considerado a ‘certidão da América’, transformou a concepção medieval que havia do mundo e marcou para sempre a história do novo continente. Mais de 500 anos depois, é fácil perceber que as dimensões do “Novo Mundo” foram equivocadamente retratadas como uma faixa estreita, quase tímida, espremida no canto esquerdo do mapa, que não condiz com a realidade.

Mas isso é fácil de compreender, considerando que em 1507, os cartógrafos desenharam a América com base em relatos fragmentados. Sabiam que algo existia ali, mas não tinham ideia de que se tratava de uma massa de terra que ia do Ártico à Antártida.

E aqui eu entro com minha analogia (talvez um pouco cítrica, admito). Arrisco a dizer que no cooperativismo, muitas lideranças ainda enxergam a intercooperação, como Waldseemüller retratara o “Novo Mundo”, uma “faixinha de terra” no mapa de 1507. Quando na verdade, a intercooperação é um gigantesco continente capaz de competir com monopólios, reduzir custos de forma drástica e criar ecossistemas econômicos e produtivos quase imbatíveis.

A intercooperação tem um potencial represado capaz de alavancar inúmeros negócios, impulsionar cadeias produtivas e se converter em um espiral ascendente para o setor, produzindo um efeito volante sem precedentes no ambiente cooperativo, de tal forma a projetar o cooperativismo para um novo estágio de atuação, competitividade, eficiência e impacto, jamais registrados.

Provavelmente Waldseemüller fez o melhor que pôde dentro das limitações de informações da época, ausência de dados detalhados, tecnologia melhor, dentre outros. Mas no nosso caso, o mapa da intercooperação já foi “descoberto”. Nós temos capacidade, sabemos o porquê deveríamos fazer, temos o respaldo jurídico e até modelos de sucesso. O que nos impede de desenhar esse mapa em escala maior não é o desconhecimento, é atitude.

Muitas vezes, o ego institucional, o medo do desconhecido e a rigidez do pensamento são obstáculos que impedem que as cooperativas naveguem juntas para águas mais promissoras. Assim como o “Velho Mundo” estava no centro do mapa de 1507, enaltecendo a visão do pensamento conservador, a intercooperação sofre do mesmo mal. Enquanto cooperativas se virem como ilhas isoladas, elas continuarão desenhando a intercooperação como uma terra pequena e irrelevante, subestimando o continente que ali se encontra.

Da mesma forma que a América se apresentou vastamente maior e mais rica do que provavelmente qualquer cidadão do “Velho Mundo” jamais ousou sonhar, o potencial da intercooperação é infinitamente superior à percepção atual do setor. O mapa da intercooperação já está quase ficando amarelo em cima da mesa. O que falta não é mais informação, é a coragem de agir, reconhecendo que juntos não somos apenas maiores; somos um mundo novo inteiro a ser descoberto.

Ao final deste texto talvez você tenha achado interessante, provocador, útil ou inútil, alguma frase de efeito ou a própria analogia possa ter chamado a sua atenção, o fato é que precisamos de ação. Meu convite para você é esse!

Que tal definir alguém ou compor um comitê responsável pelo tema de intercooperação na sua cooperativa? Eu tenho minhas convicções e dentre elas, que a sustentabilidade do cooperativismo passa inevitavelmente pela jornada de intercooperação. E você? Na sua opinião qual o primeiro passo prático para mudarmos essa “atitude” e finalmente enxergarmos o real tamanho desse continente?


Por Silvio Giusti é consultor, palestrante e articulista em cooperativismo

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