O que o Brasil pode aprender para ganhar competitividade global na corrida da IA

A corrida global pela inteligência artificial está redefinindo mercados, modelos de negócio e a forma como empresas se relacionam com seus clientes. Enquanto polos tecnológicos como Silicon Valley, nos Estados Unidos, e Bangalore, na Índia, consolidam-se como referências na construção do futuro digital, o Brasil busca seu espaço em um cenário cada vez mais competitivo.

A partir de experiências recentes nos dois principais ecossistemas de inovação do mundo, executivos e especialistas identificaram movimentos que ajudam a compreender para onde caminha a IA e quais oportunidades podem ser aproveitadas pelo mercado brasileiro e por suas cooperativas.

Da experimentação à aplicação prática

Se antes a inteligência artificial era vista como uma promessa, hoje o foco está em aplicações práticas. Para Rafael Souza, CEO da Ubots, essa mudança ficou evidente durante sua participação no Brazil at Silicon Valley, evento que conecta líderes brasileiros ao principal ecossistema global de inovação.

“Nos últimos três anos em que o evento teve a Inteligência Artificial como tema central, ao traçarmos uma linha do tempo, fica nítida a rápida evolução. Deixamos de debater apenas o ‘hype’ ou os potenciais efeitos futuros, para focar em problemas reais”, afirma Souza.

TENDENCIAS Rafael Souza cofundador e CEO da Ubots copiar

“Na corrida dos grandes modelos de linguagem, estamos atrasados. Mas a maior oportunidade está nas aplicações, usando a IA para resolver problemas na ponta, para quem realmente precisa” – RAFAEL SOUZA, COFUNDADOR E CEO DA UBOTS

De acordo com o executivo, três tendências se destacam nas discussões internacionais: a especialização das soluções, o uso estratégico dos dados e a chegada da chamada IA Física, que amplia a presença da inteligência artificial para além dos ambientes digitais. Para ele, a diferenciação está cada vez menos relacionada ao acesso à tecnologia e mais à capacidade de gerar conhecimento a partir das interações.

“O que separa uma operação eficiente de uma que só gera ruído é exatamente a capacidade de usar o histórico de conversas para construir algo. Um entendimento do cliente que melhora com o tempo, que permite antecipar necessidades, que transforma cada interação em um dado útil para a próxima”, complementa.

Essa transformação acompanha uma mudança no comportamento dos consumidores. A personalização deixou de ser um diferencial para se tornar uma expectativa básica, exigindo que organizações utilizem inteligência de dados para oferecer experiências mais relevantes e consistentes.

Oportunidades para o Brasil no mercado de aplicações

Embora a disputa pelo desenvolvimento dos grandes modelos de linguagem esteja concentrada entre Estados Unidos e China, especialistas avaliam que a maior parcela de valor econômico ainda será criada na camada de aplicações.

“Na corrida dos grandes modelos de linguagem, nós [o Brasil] estamos bem atrasados, e vai demorar muito para fechar esse gap. Entretanto, a maior parte do valor real a ser gerado está no mercado de aplicações, ou seja, em usar essa IA para resolver problemas na ponta, para quem realmente precisa”, afirma Rafael Souza.

O executivo compara o atual momento da inteligência artificial ao surgimento da eletricidade. Segundo ele, os maiores impactos econômicos não vieram da construção da infraestrutura, mas das soluções desenvolvidas a partir dela.

“É por isso que o Brasil tem plenas condições de competir muito bem. A nossa capacidade de entender contextos locais, de adaptar tecnologia a realidades específicas e a maturidade atual das nossas empresas de tecnologia nos credenciam a ser um grande player global de aplicações”, ressalta.

A avaliação ganha relevância com o avanço da IA no Brasil, um dos maiores mercados globais de uso dessas tecnologias. Para as cooperativas, o cenário representa uma oportunidade estratégica, impulsionada por sua forte presença territorial e proximidade com as comunidades.

As lições da Índia para escalar inovação

Se Silicon Valley concentra as discussões sobre as fronteiras tecnológicas da inteligência artificial, Bangalore oferece uma visão prática de como escalar soluções para grandes populações. Durante uma imersão realizada a convite do Google Cloud, o CTO da Ubots, Matheus Alagia, observou aspectos que podem inspirar empresas brasileiras.

“O que mais me chamou atenção foi como as empresas de lá pensam produto sob essa escala. Tudo precisa nascer considerando escala e línguas muito distintas, sem exceção. Aqui no Brasil, escala ou expansão para outros mercados costuma ser tratada como um problema para depois”, afirma.

O caso indiano chama a atenção por combinar um mercado consumidor gigantesco com uma estratégia nacional voltada ao desenvolvimento tecnológico. Com mais de 1,4 bilhão de habitantes e 22 idiomas oficiais, o país transformou desafios de escala e diversidade em motores de inovação.

“Tudo precisa nascer considerando escala e línguas muito distintas, sem exceção. No Brasil, escala ou expansão para outros mercados costuma ser tratada como um problema para depois.” — MATHEUS ALAGIA, CTO DA UBOTS

TENDENCIAS Matheus Alagia CTO da Ubots

Essa realidade impulsionou empresas a desenvolverem soluções capazes de operar em diferentes contextos culturais e linguísticos desde a sua concepção, criando produtos mais robustos e preparados para atender grandes volumes de usuários.

Outro aspecto relevante é a coordenação entre setor público, empresas e centros de pesquisa. Iniciativas como a IndiaAI Mission têm direcionado investimentos para infraestrutura computacional, desenvolvimento de modelos de linguagem adaptados aos idiomas locais e fortalecimento de startups especializadas em inteligência artificial.

O resultado é a formação de um ecossistema que estimula a inovação de forma estruturada, acelerando a transformação digital e ampliando a competitividade das empresas indianas no cenário global.

Para Alagia, uma das transformações mais relevantes observadas no mercado internacional está na evolução dos sistemas de atendimento. “Acho que a mudança mais profunda é a passagem de bots que respondem para agentes que resolvem. Durante anos construímos atendimento em cima de fluxos e árvores de decisão rígidas; o que está virando padrão são arquiteturas agênticas, modelos que raciocinam, consultam sistemas e executam ações, em vez de seguir um roteiro pré-definido”, aponta.

Competitividade baseada em execução e conhecimento

As experiências internacionais reforçam uma percepção crescente no setor: o diferencial competitivo não estará apenas na tecnologia disponível, mas na capacidade de utilizá-la de forma estratégica. Com ferramentas cada vez mais acessíveis, a vantagem passa a ser construída por meio de conhecimento de mercado, domínio dos dados e velocidade de execução.

“Os dois importam, mas o equilíbrio mudou. Hoje, as ferramentas estão cada vez mais acessíveis e a distância técnica entre as empresas diminuiu. Nesse cenário, execução e estratégia ganharam peso”, avalia Rafael Souza.

O movimento observado em ecossistemas líderes mostra que o futuro da inteligência artificial dependerá menos de quem possui os algoritmos mais sofisticados e mais de quem consegue aplicá-los para resolver problemas concretos. Para o Brasil, a oportunidade está justamente em transformar conhecimento local, criatividade e capacidade de adaptação em soluções capazes de competir globalmente.


Por Leonardo César – Redação MundoCoop

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Matéria exclusiva publicada na edição 132 da Revista MundoCoop

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