Coopercitrus Expo 2026 encerra edição conectando legado, inovação e continuidade no campo

A Coopercitrus Expo 2026 encerra nesta sexta-feira (31), em Bebedouro (SP), uma edição marcada pela celebração dos 50 anos da cooperativa e por debates sobre sucessão rural, tecnologia, crédito, gestão de riscos e continuidade das propriedades.

Ao longo da programação, a MundoCoop acompanhou o evento e os principais debates apresentados, que abordaram temas diretamente ligados ao futuro das propriedades rurais e do cooperativismo.

As apresentações presentes durante a feira mostraram que o futuro do campo dependerá da combinação entre formação das novas gerações, acesso à tecnologia, planejamento financeiro e capacidade das cooperativas de acompanhar demandas cada vez mais complexas.

Desafios da continuidade familiar

A sucessão rural esteve entre os principais temas da edição. No encontro “A Voz do Jovem”, Jorge Nishimura, presidente do Conselho de Administração do Grupo Jacto, apresentou a continuidade das empresas familiares como um processo que precisa começar antes da transferência efetiva do comando.

A partir da trajetória do próprio grupo, Nishimura destacou que a preparação de novos gestores não é suficiente por si só. A continuidade depende de propósito, visão de longo prazo, acordos familiares e estruturas de governança capazes de organizar as relações entre família, propriedade e gestão.

A experiência da Jacto também incluiu períodos de conflito e afastamento entre integrantes da família. Para atravessar esses momentos, foram criados acordos e conselhos destinados a acompanhar as decisões estratégicas e preservar a unidade do grupo. O apoio de profissionais externos, segundo Nishimura, pode facilitar conversas difíceis e contribuir para o alinhamento das expectativas entre as gerações. “Em uma organização que vive em conflito, a chance de a empresa estar entre as que desaparecem é maior do que a possibilidade de realizar uma transição bem-sucedida”, afirmou durante a apresentação.

O dirigente também apresentou o modelo PEACE, que reúne propósito e visão de longo prazo, estrutura de governo, acordos, valores fundamentais e equilíbrio emocional. Para ele, preservar caráter, competência e comprometimento é tão importante quanto manter o patrimônio construído pela família.

Larissa Zambiasi, coordenadora do Comitê Nacional de Jovens Cooperativistas do Sistema OCB, ampliou a discussão para o cooperativismo. Segundo ela, a continuidade das organizações depende da criação de espaços em que os jovens possam aprender com as lideranças atuais, apresentar suas demandas e participar das decisões. “A palavra sucessão assusta. Temos trabalhado com o termo continuidade porque ele soa mais agradável, tanto nas organizações cooperativas quanto nas organizações familiares”, disse.

A Liga Coopercitrus Jovem aparece como uma resposta prática ao desafio de preparar novas lideranças e ampliar a participação dos jovens na cooperativa e nos negócios familiares. Lançada nesta edição, a iniciativa aproxima filhos e netos de cooperados da gestão das propriedades, das atividades da cooperativa e das novas possibilidades profissionais ligadas ao agronegócio.

Em entrevista exclusiva à MundoCoop, Matheus Marino destacou que o programa permite mostrar aos jovens um setor que vai além do trabalho tradicional na lavoura e envolve algoritmos, imagens de satélite, drones, pilotos automáticos e diferentes áreas de atuação. “A cooperativa ajuda a desenvolver a juventude, inseri-la no mercado de trabalho e aproximá-la dos negócios familiares. Com isso, perenizamos o agro e a própria cooperativa”, afirmou.

Marino avaliou ainda que a aproximação entre jovens, pais e avós permite combinar o conhecimento adquirido nas universidades com a experiência acumulada nas propriedades. Para o dirigente, o desafio é criar um ambiente em que as novas ideias possam ser incorporadas sem desconsiderar a trajetória construída pelas gerações anteriores.

José Geraldo da Silveira Mello também relacionou sucessão e formação. À MundoCoop, o vice-presidente do Conselho de Administração da Coopercitrus destacou que a preparação dos jovens precisa envolver educação técnica, participação gradual nos negócios e conhecimento das novas atividades do agro.

Ele citou os cursos desenvolvidos em parceria com Fatec e Etec, as capacitações em agricultura de precisão e processamento de dados e o apoio oferecido às famílias no planejamento sucessório. Na avaliação do dirigente, essas iniciativas ajudam a formar profissionais para funções que se tornam mais relevantes à medida que as propriedades incorporam novas tecnologias.

Crédito, dívida rural e seguro

A gestão de riscos também ganhou espaço específico na programação. Uma das mesas-redondas reuniu Tania Zanella, presidente executiva do Sistema OCB; João Prieto, gerente técnico e econômico do Sistema OCB; o deputado federal Arnaldo Jardim; e Matheus Marino para discutir endividamento rural, renegociação de dívidas e seguro agrícola.

O debate abordou os efeitos das perdas climáticas e de renda sobre os produtores, os critérios das medidas de renegociação e a necessidade de ampliar a previsibilidade dos instrumentos de proteção da atividade.

Tania destacou que as dificuldades enfrentadas pelo setor não decorrem apenas de eventos climáticos. Custos de produção, preços e o cenário geopolítico também reduziram a renda das propriedades e aumentaram a pressão sobre a capacidade de pagamento. “Fizemos questão de trabalhar de maneira contundente para incluir a questão da renda. Os custos de produção, os preços e todo o contexto geopolítico provocaram muitos problemas de renda aos produtores”, afirmou.

A dirigente também defendeu o fortalecimento do seguro rural como forma de dar mais segurança e previsibilidade ao produtor diante de perdas climáticas e de renda. Segundo ela, o contingenciamento dos recursos destinados ao programa reduz o alcance da política e deixa parte dos produtores sem proteção diante de perdas mais severas.

Por sua vez, Matheus ressaltou que a renegociação e o seguro são fundamentais para a continuidade das atividades. Ele defendeu que o produtor precisa compreender as regras e os critérios disponíveis para conseguir reorganizar suas obrigações sem comprometer o acesso a financiamentos futuros.

Novos modelos de relacionamento

As transformações do agronegócio também alteraram o tipo de apoio procurado pelos produtores. Em entrevista exclusiva à MundoCoop, José Geraldo afirmou que a Coopercitrus tem ampliado sua estrutura ao longo dos anos para acompanhar as novas demandas dos produtores. “Não temos que vender apenas um produto. Temos que oferecer uma solução completa. É assim que se constrói uma relação de confiança com o cooperado”, afirmou.

Para José Geraldo, segurança e credibilidade passaram a ter peso tão importante quanto preço e condições comerciais. A proximidade permite que agrônomos, técnicos e consultores acompanhem diferentes etapas da atividade, desde a análise do solo até a colheita e a armazenagem.

Essa transformação também aparece na relação financeira. Em entrevista exclusiva à MundoCoop, Henrique Soares, superintendente regional de Negócios SP Leste do Sicoob Credicitrus, destacou que a instituição participa da Expo há 25 anos e mantém uma atuação complementar à Coopercitrus.

Henrique também ressaltou que o relacionamento contínuo permite conhecer a realidade de cada associado e oferecer soluções adequadas às diferentes etapas da atividade. Na avaliação do executivo, esse acompanhamento diferencia a cooperativa de crédito das instituições financeiras tradicionais. “A Coopercitrus leva ao campo soluções em produtos, máquinas, implementos e tecnologia. A Credicitrus oferece os serviços financeiros e um atendimento próximo, em que o cooperado se sente acolhido e encontra respostas para suas necessidades”, afirmou.

Em entrevista exclusiva à MundoCoop, Fernando Degobbi, presidente executivo da Coopercitrus, destacou o papel da Expo na democratização do acesso às tecnologias. Segundo ele, a estrutura montada pela cooperativa permite que pequenos e médios produtores conheçam equipamentos, serviços e práticas que poderiam permanecer distantes de sua realidade. “Mais de 80% dos nossos cooperados são produtores de pequena escala. Se a Coopercitrus não organizasse este espaço e não reunisse toda essa tecnologia e tudo o que pode melhorar a produtividade, muitos deles não teriam acesso a essas soluções”, afirmou.

Gestão e sustentabilidade

Além dos debates sobre sucessão, crédito e relacionamento, a programação da Coopercitrus Expo avançou sobre outros temas ligados à administração das propriedades.

As atividades abordaram o cacau como alternativa produtiva, governança no agronegócio, protagonismo feminino nas decisões das fazendas, impactos da reforma tributária e perspectivas para o mercado de café.

A diversificação apareceu como uma estratégia para ampliar as possibilidades de renda e reduzir a exposição a riscos. Entre as iniciativas apresentadas estiveram os estudos com cacau e café canéfora no interior paulista, desenvolvidos por meio de áreas-piloto, vitrines tecnológicas e orientação aos produtores.

Os debates sobre governança e participação feminina também reforçaram que a gestão das propriedades passa por mudanças que envolvem não apenas ferramentas e processos, mas a composição das lideranças e a organização das decisões familiares.

Já as discussões sobre reforma tributária e mercado completaram uma programação voltada à tomada de decisão, em um momento no qual custos, crédito, riscos climáticos e oscilações de preços exigem maior capacidade de planejamento.


Por João Victor Rezende – Redação MundoCoop

*O jornalista foi à Coopercitrus Expo 2026 à convite da cooperativa

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