Insurtech 2026: cooperativas reforçam movimento de expansão do seguro no Brasil

A transformação digital do mercado segurador brasileiro tem atravessado uma nova fase com a combinação da inteligência artificial com novos modelos de distribuição e mudanças regulatórias no setor que vem acelerando a modernização do setor. Nesse contexto, o Insurtech Brasil 2026 reuniu, na última quinta-feira (28), executivos, reguladores, seguradoras e empresas de tecnologia para discutir os desafios da inovação, da distribuição digital e da evolução regulatória no mercado securitário brasileiro. 

A MundoCoop acompanhou os debates da 9ª edição do evento, que reuniu mais de 1,5 mil participantes e abordou temas como Open Insurance, agentes de inteligência artificial, prevenção à fraude, e novos modelos de distribuição.

Alessandro Octaviani, Superintendente da Susep, destacou que a inovação deixou de se concentrar apenas na adoção de novas tecnologias e passou a envolver capacidade de execução, integração e adaptação das organizações. A avaliação foi reforçada durante a palestra “Overview Regulatório 2026: Perspectivas para o Mercado de Seguros” ao analisar os desafios do setor diante do aumento das catástrofes climáticas e da baixa penetração do seguro no país. De acordo com o executivo, o mercado apresenta avanços importantes, mas ainda enfrenta limitações estruturais. “Podemos dizer que o mercado responde rápido, é eficiente e tecnicamente competente, mas socialmente ainda insuficiente diante da magnitude das recentes tragédias. Não existe solução exclusivamente privada para a crise climática”, afirmou.

IA entra na operação

Como resposta ao avanço da digitalização e à pressão por novos ganhos de produtividade, a inteligência artificial esteve entre os temas mais recorrentes da programação. O assunto apareceu em painéis como “Beyond the Hype: Separating Opportunity from Noise in Insurance AI & Tech Trends”, apresentado por Juan Mazzini, Global Head of Insurance da Celent, e “Agentes de IA em Seguros: do Piloto à Produção”, conduzido por Gabriel Purkyt, General Manager Brasil da Taktile.

Durante sua apresentação, Mazzini defendeu que o mercado segurador começa a superar a fase de experimentação para buscar aplicações capazes de gerar resultados concretos. Segundo ele, muitas seguradoras ainda permanecem presas ao chamado “innovation theater”, caracterizado pela realização de projetos-piloto e iniciativas que geram visibilidade, mas não produzem transformações efetivas dentro das operações.

Na avaliação do executivo, a discussão sobre inteligência artificial já não se limita à automatização de atividades operacionais e passa a envolver a redefinição do papel dos profissionais dentro das organizações.”Precisamos parar de perguntar apenas como automatizamos processos e começar a perguntar quais decisões realmente precisam de um humano. O setor começa a migrar de uma fase focada em chatbots e automações simples para um ambiente baseado em agentes de inteligência artificial mais autônomos, capazes de interpretar linguagem natural, executar tarefas e interagir entre diferentes sistemas sem intervenção constante”, afirmou.

O especialista também destacou que a evolução da inteligência artificial tende a alterar a dinâmica de trabalho dentro das seguradoras. Na avaliação Juan, sistemas automatizados assumirão uma parcela crescente dos fluxos operacionais, enquanto profissionais passarão a atuar em atividades ligadas à supervisão, validação de cenários complexos e tomada de decisão.

A discussão ganhou complemento na palestra “Agentes de IA em Seguros: do Piloto à Produção”, apresentada por Gabriel Purkyt, General Manager Brasil da Taktile. Entre os exemplos apresentados, destacou-se o caso de uma seguradora global que utilizou inteligência artificial para automatizar processos de sinistros, reduzir fraudes e gerar economias superiores a US$ 50 milhões por ano. Os debates também reforçaram que o principal obstáculo para ampliar o uso da IA já não está na tecnologia em si, mas nos modelos operacionais, na integração de sistemas legados e na construção de estruturas de governança capazes de garantir rastreabilidade e supervisão humana das decisões.

Transformação regulamentada

A evolução tecnológica também tem provocado mudanças na agenda regulatória. O tema ganhou destaque no painel “Inovação Regulatória”, que reuniu Júlia Normande Lins, integrante da Diretoria de Infraestrutura de Mercado e Supervisão de Conduta da Susep, Anália Brum, Insurance & Legal Director da Justos, Jailson Meireles, CEO da Confitec, e Bethânia Cecília, diretora jurídica da Split Risk Seguradora.

Durante o debate, os participantes discutiram os impactos da Lei do Contrato de Seguro (Lei 15.040/2024), a evolução do Sistema de Registro de Operações (SRO), a ampliação do Sandbox Regulatório e o crescimento de novos modelos de negócio dentro do mercado segurador.

Júlia Normande Lins destacou que a própria autarquia atravessa um processo de adaptação diante da chegada de novos participantes ao setor. Ao comentar os aprendizados gerados pelo Sandbox Regulatório, a executiva afirmou que a experiência serviu tanto para as empresas quanto para o regulador.

A representante da Susep também ressaltou que o fortalecimento da supervisão passou a ocupar papel central diante do avanço das plataformas digitais, representantes de seguros e MGAs. Segundo ela, a preocupação da autarquia está relacionada à transparência das operações e à proteção do consumidor. “O consumidor precisa saber claramente quem responde por aquela operação”, afirmou ao comentar a necessidade de maior clareza sobre responsabilidades, remuneração e potenciais conflitos de interesse.

Cooperativas protagonizam ampliação do acesso ao seguro

A entrada de novos participantes no ambiente supervisionado pela Susep apareceu entre os temas mais relevantes do Insurtech Brasil 2026. Durante o painel “Inovação Regulatória”, Júlia Normande Lins, integrante da Diretoria de Infraestrutura de Mercado e Supervisão de Conduta da Susep, classificou a chegada de associações, administradoras e cooperativas como uma das maiores transformações recentes do mercado segurador brasileiro. Segundo a executiva, o movimento deve ampliar a concorrência e expandir o acesso da população a mecanismos de proteção em diferentes regiões e segmentos de consumidores.

O avanço das cooperativas seguradoras ocorre em um contexto de consolidação internacional desse modelo de negócio. Dados do Anuário do Cooperativismo mostram que cooperativas e mútuas de seguros estão presentes em 79 países, atendem cerca de 333 milhões de membros e administram aproximadamente R$11 trilhões em ativos. O segmento reúne cerca de 5 mil organizações e responde pela geração de mais de 230 mil empregos diretos em todo o mundo, com forte presença em mercados como Estados Unidos, Canadá, França e Argentina.

No Brasil, a regulamentação das cooperativas seguradoras ganhou novo impulso com a Lei Complementar nº 213/2025. Até então, essas organizações podiam atuar apenas em segmentos específicos, como seguros agrícolas, de saúde e acidentes de trabalho. Com a regulamentação conduzida pela Susep, as cooperativas passam a poder operar em praticamente todos os ramos de seguros privados, com exceção dos segmentos de capitalização aberta e repartição de capitais de cobertura, ampliando significativamente seu potencial de atuação.

Nesse contexto, Júlia Normande destacou o papel das cooperativas na ampliação do acesso ao seguro. “Não podemos deixar de enfatizar o papel importante que as cooperativas têm em determinados nichos e grupos de consumidores. Isso vai ser transformador em termos de acesso ao seguro, porque estamos falando da entrada de muitos participantes em um novo mercado. É uma inovação regulatória que vai impactar todo mundo que faz parte desse ecossistema”, afirmou.

A expectativa apresentada no painel é que o segmento registre crescimento considerável nos próximos anos. Os participantes também apontaram que as cooperativas podem reproduzir no mercado segurador uma estratégia semelhante à observada no cooperativismo de crédito, ampliando a presença em regiões historicamente pouco atendidas por seguradoras tradicionais.

Integração como novo desafio competitivo

Além da inovação tecnológica e das mudanças regulatórias, os debates dispostos nessa edição apontaram um desafio comum a praticamente todos os segmentos do setor: a integração de sistemas, dados e processos.

O tema apareceu tanto nas discussões sobre inteligência artificial quanto nos debates regulatórios. Para Jailson Meireles, a modernização do mercado dependerá da capacidade das organizações de conectar estruturas que historicamente operaram de forma isolada. “A palavra-chave hoje é integração. Fazer sistema é fácil. Fazer integração é que continua sendo o maior desafio”, afirmou.

A percepção também apareceu no painel “Tendências e Inovações na Voz das Lideranças do Mercado”. Alfredo Lalia Neto, CEO da Sompo, avaliou que o setor já superou a fase de discutir inteligência artificial apenas em nível conceitual. “Hoje já passou o tempo de apenas mencionar IA. O cliente quer ver aplicação prática”, afirmou.

Na mesma discussão, Marcos Couto, CEO da Alper Seguros, defendeu que o diferencial competitivo das empresas dependerá menos do acesso à tecnologia e mais da capacidade de transformar inovação em resultados concretos. “Não existe transformação digital sem assumir algum nível de risco”, afirmou.

Ao final do evento, os debates convergiram para uma mesma conclusão: a tecnologia continuará desempenhando papel central na evolução do mercado segurador, mas os ganhos mais relevantes dependerão da capacidade das organizações de integrar sistemas, adaptar modelos operacionais, fortalecer a governança e ampliar o acesso à proteção.


Por João Victor – Redação MundoCoop

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