O futuro do cooperativismo começa antes da sucessão

A sucessão rural já não envolve apenas a transferência de uma propriedade entre gerações. Cada vez mais, cooperativas do agro tentam entender como manter os jovens conectados ao campo, à gestão das propriedades e ao próprio cooperativismo em um cenário de mudanças no perfil das novas gerações.

Em muitas regiões, o distanciamento dos jovens acontece por falta de pertencimento, espaço para participação e perspectivas de desenvolvimento dentro do setor. Mais do que permanecer no campo, a nova geração busca oportunidades de aprendizado, liderança e inovação.

Foi diante desse cenário que surgiu, em 2021, o Núcleo Jovem Coplacana (NJC), iniciativa da Cooperativa dos Plantadores de Cana do Estado de São Paulo (Coplacana), que reúne mais de 14 mil cooperados em cinco estados brasileiros.

A necessidade ficou evidente quando a cooperativa recebeu convites para um congresso internacional voltado à juventude do agro e encontrou poucos interessados em participar. “Tinha muita dificuldade, sim, em engajar as novas gerações. Foi até por isso que o Núcleo Jovem surgiu, porque nós vimos a necessidade de ter realmente um grupo com esses jovens, não somente para aproximá-los da cooperativa, mas também para trazer soluções de problemas que eles também tinham”, afirma Silvia Beltrame, coordenadora do Núcleo Jovem Coplacana.

Além de fortalecer a relação dos jovens com a cooperativa, a proposta passou a envolver também a continuidade das propriedades familiares. “Enquanto nós garantimos a continuidade de propriedade de produtores rurais, também garantimos a sustentabilidade e a continuidade da cooperativa”, explica Silvia.

Juventude não se engaja sozinha

A experiência da Coplacana mostra que ações pontuais nem sempre são suficientes para criar conexão entre os jovens e o cooperativismo. Por isso, o núcleo foi estruturado com coordenação própria, regimento interno, eleições entre membros e atividades permanentes ao longo do ano.

Hoje, o NJC reúne mais de 130 membros distribuídos em 17 cidades, com encontros mensais presenciais e online. O objetivo da cooperativa é ampliar a participação para todas as 35 localidades onde a Coplacana atua.

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“Enquanto nós garantimos a continuidade de propriedade de produtores rurais, também garantimos a sustentabilidade e a continuidade da cooperativa” – SILVIA BELTRAME, COORDENADORA DO NÚCLEO JOVEM COPLACANA

As atividades vão além dos temas técnicos ligados à produção agrícola. Os jovens participam de encontros sobre liderança, sucessão familiar, inteligência emocional, planejamento estratégico, gestão de propriedades e cooperativismo.

“Não era somente a problemática de aproximar o jovem da cooperativa, mas sim de trabalhar esse jovem para que ele fosse próximo tanto da cooperativa, mas também da sua propriedade familiar”, destaca Silvia.

Outro desafio foi estruturar o núcleo durante a pandemia, período em que o contato presencial ainda era limitado. Segundo Silvia, a aproximação entre os membros ganhou força conforme os encontros presenciais passaram a acontecer novamente.

Da participação ao protagonismo

Acima do engajamento, o núcleo também passou a funcionar como espaço de formação de lideranças dentro da cooperativa. A coordenação é formada pelos próprios jovens e atua diretamente na organização das atividades, recepção de novos membros e representação do grupo em eventos e reuniões.

“Hoje o Núcleo Jovem consegue ter um diálogo totalmente direto com toda a diretoria da cooperativa para aprender com eles, ver as dificuldades e estar ali lado a lado mesmo”, afirma Silvia.

O modelo também busca aproximar os participantes da governança cooperativista e da tomada de decisões. “Não é algo que fica largado. Existe ouvidoria de feedback, ouvimos os membros e, conforme essas devolutivas, as decisões são tomadas”, explica.

Segundo Silvia, a estrutura organizacional ajuda os jovens a compreenderem, na prática, como funciona uma cooperativa, além de desenvolver habilidades de liderança, gestão e representação.

O futuro antes da sucessão

Os impactos do núcleo já começam a aparecer dentro das propriedades rurais e na relação dos jovens com o agro. Segundo Silvia, muitos participantes passaram a acompanhar mais de perto as atividades da cooperativa, participar de assembleias e se envolver nas decisões familiares ligadas à produção.

Ela também afirma que parte dos jovens que pensavam em deixar o campo permaneceram nas propriedades após ingressarem no núcleo. “Hoje vemos que os jovens acompanham mais o desenvolvimento da cooperativa como um todo. Nós conseguimos ver também que o jovem voltou a ajudar os pais na propriedade ou que já estavam na propriedade continuam ali por conta desse incentivo que o núcleo trouxe”, afirma.

O reflexo também aparece na formação profissional. Segundo Silvia, muitos membros passaram a buscar graduação ligada ao agronegócio depois da participação no núcleo. “Todos os anos nós temos membros que prestam vestibular e temos uma grande parte cursando engenharia agronômica ou medicina veterinária”, conta.

Segundo ela, o acesso ao conhecimento técnico e à troca de experiências ajuda os jovens a enxergarem novas possibilidades dentro das próprias propriedades rurais. “Com essa parte de educação que nós trazemos, eles conseguem ver outras oportunidades, outros momentos que poderiam ser interessantes para as propriedades e para a inovação”, explica.

Conectar jovens para fortalecer o cooperativismo

O avanço do núcleo levou a Coplacana a ampliar a discussão sobre juventude no cooperativismo. Em 2025, a cooperativa realizou o 1º Jovem Coop Coplacana, encontro nacional que reuniu mais de 500 jovens e representantes de 21 cooperativas de diferentes estados brasileiros.

O objetivo era aproximar jovens sucessores do agro e mostrar que os conflitos e desafios ligados à sucessão familiar são compartilhados em diferentes regiões. “A gente conseguiu alcançar esse objetivo das pessoas se conhecerem, entenderem as dificuldades umas das outras e muito mais do que isso: se ajudarem”, afirma Silvia.

O impacto do encontro ultrapassou o próprio evento. Segundo a coordenadora, cooperativas passaram a procurar o núcleo em busca de apoio para estruturar iniciativas semelhantes. “Pelo menos cinco núcleos jovens novos surgiram aqui no estado de São Paulo depois do Jovem Coop”, acrescenta.

Iniciativas como o Núcleo Jovem Coplacana mostram que o cooperativismo se preocupa em não apenas preparar sucessores, como também em criar espaços onde os jovens possam participar ativamente das decisões, da inovação e da continuidade do setor.


Por Andrezza Hernandes – Redação MundoCoop

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Matéria exclusiva publicada na edição 131 da Revista MundoCoop

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