Como crescer, inovar e ganhar competitividade sem perder a essência que diferencia o cooperativismo? A Semana de Competitividade 2026 colocou essa questão no centro das discussões realizadas entre os dias 11 e 13 de agosto, em Brasília. Promovido pelo Sistema OCB, o encontro reuniu cerca de 800 cooperativistas de todos os estados e do Distrito Federal em uma programação voltada a transformar cultura, identidade e princípios cooperativistas em estratégias para fortalecer os negócios e preparar o movimento para o futuro.
Com o tema Cultivando a Cultura Cooperativista, o evento abordou desafios que acompanham o atual ciclo de expansão do setor. O cooperativismo brasileiro chegou a 29 milhões de cooperados em 2025, o que amplia a importância de fortalecer o vínculo dessas pessoas com suas cooperativas, estimular sua participação e preservar os diferenciais do modelo à medida que as organizações crescem.
A escolha da cultura como eixo da programação nasceu da própria base do movimento. Durante o processo de escuta do 15º Congresso Brasileiro do Cooperativismo (CBC), que definiu diretrizes para o período 2025-2030, a palavra ‘cultura’ apareceu mais de 400 vezes entre as contribuições recebidas.
Na abertura do evento, o presidente do Conselho de Administração do Sistema OCB, Márcio Lopes de Freitas, destacou o desafio de conciliar crescimento, profissionalização e inovação com a preservação da identidade cooperativista. “Precisamos surfar a onda da inovação, da profissionalização, da adequação. Precisamos de negócios grandes, de potência. Mas não podemos deixar que o negócio desequilibre o conceito com as bases, os princípios e os valores”, afirmou.
Diagnóstico inédito
Um dos principais destaques da Semana foi a apresentação da Pesquisa de Cultura Cooperativista 2026, primeiro diagnóstico nacional sobre a maturidade da cultura do movimento a partir da percepção de cooperados, empregados, dirigentes e conselheiros. O levantamento ouviu 9.761 pessoas de todo o país e incluiu 46 entrevistas em profundidade realizadas em 37 cooperativas de 26 estados e do Distrito Federal.
Os resultados revelam uma relação sólida entre cooperados e cooperativas. Entre os entrevistados, 93% afirmaram sentir o dever de honrar os compromissos assumidos com a organização; 89% pretendem manter uma relação de longo prazo e o mesmo percentual recomendaria sua cooperativa. Outros 87% disseram manter a fidelidade mesmo em períodos de crise.
O diagnóstico também identificou oportunidades para ampliar a participação. A falta de tempo foi apontada por 36% dos entrevistados como principal barreira para participar das assembleias, enquanto 22% citaram falta de informação sobre como participar. Educação, formação e informação apareceu como o princípio considerado prioritário por 58% dos cooperados, 71% dos empregados e 57% dos dirigentes. Entre os jovens de 18 a 34 anos, o percentual chegou a 62%.
“Quem conhece, gosta. A barreira é a comunicação e o caminho é a educação cooperativista”, sintetizou a superintendente do Sistema OCB, Fabíola Nader Motta, ao apresentar os resultados.
Da cultura à gestão
A programação aprofundou esses desafios em quatro trilhas — Governança Cooperativa; Educação Cooperativista; Comunicação e Experiência; e Legado e Sucessão — com palestras, painéis, salas temáticas e laboratórios que aproximaram os debates da realidade das cooperativas.
Na trilha Educação Cooperativista, especialistas discutiram como transformar princípios e valores em práticas cotidianas e como utilizar a formação para fortalecer pertencimento, participação e preparação de novas lideranças. Cases apresentados ao longo da programação mostraram experiências de educação voltadas a diferentes públicos e fases da trajetória dos cooperados.
Comunicação e Experiência abordou outro desafio estratégico: transformar os diferenciais do cooperativismo em experiências capazes de gerar confiança, participação e pertencimento. As discussões passaram por reputação, escuta, relacionamento, experiência do cooperado e comunicação estratégica, com a premissa de que comunicar o modelo cooperativista exige aproximar discurso e prática.
Em Legado e Sucessão, o foco esteve na continuidade das organizações. Especialistas e lideranças discutiram preparação de novas gerações, cultura, memória e planejamento sucessório. A mensagem central foi a de que preservar o legado exige manter viva a identidade da cooperativa e, ao mesmo tempo, criar condições para que novas lideranças assumam responsabilidades e contribuam com novas ideias.
A governança também ganhou espaço como instrumento para ampliar a participação e preparar o cooperativismo para transformações geracionais. Entre os temas trabalhados estiveram o engajamento de jovens, o papel das lideranças e a necessidade de criar ambientes em que diferentes gerações possam participar das decisões e da construção do futuro das cooperativas.
Cooperação como diferencial
A reflexão sobre o significado da cooperação no cenário contemporâneo atravessou toda a programação. Na palestra de abertura, o professor Clóvis de Barros Filho abordou confiança, generosidade e solidariedade como elementos essenciais para fortalecer relações coletivas em uma sociedade marcada pela desconfiança. Para ele, o diferencial da cooperação está na compreensão de que resultados individuais e coletivos podem caminhar na mesma direção. “É perceber que o sucesso do coletivo pode ser condição para o seu próprio sucesso individual”, afirmou.
Essa capacidade de transformar princípios em resultados concretos também apareceu no painel sobre o impacto das cooperativas nas comunidades. Experiências apresentadas durante o encontro mostraram como a atuação cooperativista pode contribuir para movimentar economias locais, ampliar o acesso a serviços, gerar oportunidades e fortalecer iniciativas sociais nos territórios.
Memória para construir o futuro
A preservação da identidade cooperativista ganhou duas entregas durante o evento. O Sistema OCB lançou o primeiro volume da trilogia Raízes e Fundamentos do Cooperativismo, publicação que percorre a evolução histórica do movimento e relaciona seus valores, princípios e práticas aos desafios contemporâneos. Também foi lançado o documentário Pioneiros do Cooperativismo Brasileiro, que recupera histórias de personagens que ajudaram a construir o movimento no país. As duas iniciativas integram o Ano CulturaCoop e reforçam a memória como instrumento de educação, formação e continuidade das cooperativas.
Ao longo dos três dias, a Semana de Competitividade conectou essas discussões a uma mesma missão: transformar cultura cooperativista em prática cotidiana. O desafio proposto às lideranças e aos profissionais que participaram do encontro foi levar o aprendizado para suas organizações e atuar de forma coordenada para fortalecer o vínculo com os cooperados, preparar novas gerações e cultivar a identidade do movimento em todo o país.
Com 29 milhões de cooperados e presença crescente na economia brasileira, o cooperativismo entra em uma nova etapa de desenvolvimento. A Semana de Competitividade 2026 reforçou que competitividade, inovação e crescimento precisam caminhar lado a lado com aquilo que sustenta o modelo: participação, educação, confiança, cooperação e compromisso com as comunidades.












