A economia global entrou em uma nova fase de tensão e o Brasil já sente seus efeitos de forma concreta. A intensificação de conflitos como a Guerra Rússia-Ucrânia e os recentes confrontos no Oriente Médio, envolvendo países como Irã, Israel e até mesmo os Estados Unidos, reacenderam pressões sobre energia, cadeias logísticas e insumos estratégicos.
Um dos reflexos mais visíveis está no petróleo e na inflação global. Segundo o Fundo Monetário Internacional, a inflação mundial deve encerrar 2026 em torno de 5,8%, ainda acima da média pré-pandemia, que girava próxima de 3,5%. Já o crescimento global foi revisado para cerca de 3%, refletindo o impacto das tensões geopolíticas e das condições financeiras mais restritivas. O resultado é um cenário de maior volatilidade, que se traduz em inflação persistente, juros elevados e crédito mais seletivo.
Esse ambiente não fica restrito aos mercados internacionais, atingindo em cheio o cotidiano das pessoas, no preço do combustível que sobe, no frete que encarece alimentos, no custo da energia que pressiona a indústria e, principalmente, no dinheiro que fica mais caro para circular. Ou seja, em um país onde cerca de 65% do transporte de cargas é feito por rodovias, segundo dados da Confederação Nacional do Transporte, qualquer alta no diesel se espalha rapidamente por toda a economia e atinge em cheio toda a engrenagem do setor cooperativista.
Luís Arthur Nogueira, economista, jornalista e colunista da MundoCoop, explica por que o ponto central para entender o impacto no Brasil está na energia. “Quando o barril de petróleo salta de cerca de 60 dólares para níveis próximos de 120 dólares, isso gera um efeito em cadeia. O combustível mais caro impacta diretamente o transporte, que encarece o frete e, consequentemente, o preço de praticamente todos os produtos, especialmente alimentos”, afirma.
Ele reforça que esse movimento atinge toda a economia. “Não é algo restrito a um setor. O pequeno comerciante, o consumidor e a indústria sentem. A inflação sobe e isso obriga o Banco Central a agir com mais cautela, mantendo juros elevados por mais tempo.”
Do conflito global ao bolso do brasileiro: entenda
Outro ponto é que a relação entre geopolítica e economia nunca foi tão evidente. A Guerra Rússia-Ucrânia afetou diretamente o fornecimento global de grãos e fertilizantes, enquanto as tensões no Oriente Médio pressionam o preço do petróleo — dois pilares centrais da economia mundial. Ainda assim, dados do Ministério da Agricultura e Pecuária mostram que, apesar da turbulência, o agronegócio segue como um dos principais sustentáculos da economia brasileira. Em 2023, o setor respondeu por cerca de 24% do PIB e quase 50% das exportações do país, com vendas externas que superaram US$ 160 bilhões, segundo a Pasta.
Essa força, no entanto, convive com vulnerabilidades relevantes, especialmente a dependência de insumos importados, como fertilizantes, dos quais o Brasil importa cerca de 85% do consumo, e a elevada exposição às oscilações de preços no mercado internacional. Em um ambiente de instabilidade global, esses fatores reduzem a previsibilidade e ampliam os riscos para o setor.
Para Luís Arthur Nogueira, o impacto é direto. “A guerra afeta diretamente o segmento porque aumenta o custo do agronegócio. O preço dos fertilizantes sobe, repetindo o que vimos em 2022, no início do conflito entre Rússia e Ucrânia, quando houve escassez e alta expressiva. Naquele momento, o Brasil inclusive precisou buscar alternativas, como acordos com o Canadá, para garantir o abastecimento”, relembra.

“Quando o preço do petróleo sobe, o impacto se espalha por toda a economia e pressiona diretamente a inflação.” – LUÍS ARTHUR NOGUEIRA, ECONOMISTA, JORNALISTA E COLUNISTA DA MUNDOCOOP
E mais, ele ressalta um ponto estrutural que amplia a vulnerabilidade brasileira. “O Brasil não é autossuficiente na produção de fertilizantes, então, depende de importação. Quando há qualquer ruptura ou encarecimento no mercado internacional, isso impacta imediatamente o custo de produção. E nem sempre esse aumento consegue ser repassado ao preço final, o que reduz a margem das empresas e afeta a competitividade do setor”, detalha.
Segundo Adilson Martins, sócio líder de Agronegócio da Deloitte, o impacto é sistêmico. “Quando há instabilidade em regiões estratégicas, como produtores de energia ou insumos, o efeito se espalha por toda a economia. Isso eleva custos, reduz previsibilidade e aumenta a volatilidade em diversos setores. Por isso, as empresas enfrentam aumento de custos e precisam rever estratégias”, observa.
Segundo Luís, é justamente esse efeito em cadeia que é temido. “O empresário e o consumidor pagam mais caro para produzir e consumir, respectivamente, e a economia como um todo desacelera”, destaca o economista.
Juros altos e crédito seletivo: o freio da economia
Diante de um cenário ainda pressionado, o Banco Central do Brasil mantém uma postura cautelosa. Para Luís Arthur Nogueira, esse é um dos principais pontos de atenção da economia brasileira hoje. “Existe uma preocupação grande com o comportamento da inflação, ainda sensível ao preço do petróleo e ao cenário internacional. Se essas pressões continuarem, o Banco Central pode desacelerar ainda mais os cortes ou até interromper esse movimento”, explica.
O impacto se estende diretamente à economia real. “Juro alto por mais tempo significa crédito caro por mais tempo. O empresário que pensava em expandir ou investir começa a rever planos, porque a parte financeira pesa mais. Muitas vezes, o projeto deixa de ser viável não por falta de demanda, mas pelo custo do dinheiro”, afirma.
No consumo, o efeito também é imediato. “Quem compra sente isso no financiamento, no parcelamento e no crédito pessoal. Com juros mais altos, as parcelas encarecem e o acesso diminui, reduzindo principalmente a compra de bens de maior valor, como veículos e imóveis. É um freio importante na economia”, diz Nogueira.
Na prática, o crédito, fator essencial para consumo, investimento e capital de giro, torna-se mais caro e seletivo, afetando toda a dinâmica econômica. “Quando o crédito fica mais restrito, as empresas adiam investimentos, o consumo desacelera e o crescimento perde força. É um efeito em cadeia que começa no juro”, resume o economista.
Segundo Adilson Martins, esse movimento já provoca mudanças estruturais na forma como as empresas se financiam. “O crédito continua disponível, mas está mais caro e seletivo. Isso obriga as empresas a planejar melhor, revisar custos e buscar alternativas fora do modelo tradicional”, afirma.
“O crédito continua disponível, mas está mais caro e seletivo, exigindo mais planejamento e revisão de estratégias por parte das empresas.” – ADILSON MARTINS, SÓCIO LÍDER DE AGRONEGÓCIO DA DELOITTE

No entanto, ele destaca que há um avanço de instrumentos de mercado e soluções mais estruturadas. Isso se reflete no fato de que, empresas que dependiam exclusivamente de bancos, estão diversificando fontes, seja via mercado de capitais ou parcerias estratégicas. “Isso exige mais maturidade financeira, mas também abre novas possibilidades”, diz.
Com isso, Nogueira reforça que o momento exige uma mudança de mentalidade. “Não dá mais para tomar crédito de forma automática, como em períodos de juros baixos. Cada decisão precisa ser bem calculada, olhando fluxo de caixa e cenários. Caso contrário, o que deveria impulsionar o crescimento pode se transformar em um problema financeiro no futuro.”
Resiliência do Brasil impressiona no cenário econômico, mas inspira cuidados
Apesar das pressões externas, o Brasil chega a este momento em uma posição mais robusta do que em crises anteriores, especialmente quando comparado a episódios como a crise financeira global de 2008 ou mesmo os primeiros impactos da pandemia. O país acumula reservas internacionais superiores a US$ 350 bilhões e, diferentemente do passado, passou a ocupar uma posição estratégica como exportador líquido de petróleo, o que ajuda a amortecer choques externos e reduzir a volatilidade cambial.
Para Luís Arthur Nogueira, essa mudança estrutural altera a forma como o Brasil reage às crises globais. “Hoje, o Brasil tem um colchão de proteção muito mais sólido. As reservas internacionais funcionam como um seguro contra turbulências externas, dando mais estabilidade ao câmbio e evitando movimentos bruscos como vimos no passado”, explica.
Ele destaca que a nova posição no mercado de petróleo também muda a lógica tradicional. “Antes, quando havia uma crise internacional, o dólar disparava no Brasil porque a gente era muito dependente de importações de energia. Hoje, como o país é exportador líquido de petróleo, acontece um efeito diferente: quando o preço do barril sobe, entram mais dólares na economia brasileira. Isso ajuda a segurar ou até reduzir a cotação da moeda americana em determinados momentos”, afirma.
Nogueira aprofunda essa análise ao destacar o comportamento recente do câmbio. “Isso explica por que, em vez de disparar, o dólar chegou a cair recentemente, mesmo em um ambiente de guerra. O Brasil, de certa forma, se beneficia desse movimento, porque melhora a balança comercial e aumenta a entrada de divisas.”
Essa leitura é complementada por Adilson Martins. “O Brasil tem, de fato, algumas vantagens importantes nesse cenário, como a força do agronegócio, a capacidade de exportação e uma base produtiva diversificada. Isso ajuda a criar resiliência em momentos de instabilidade global”, afirma, acrescentando que essas vantagens convivem com fragilidades estruturais. “Ainda assim, o país continua exposto a choques externos, principalmente pela dependência de insumos importados e por gargalos logísticos. Isso reduz a previsibilidade e pode ampliar custos em momentos de maior tensão internacional.”
O reflexo disso aparece no ritmo da economia. O Brasil vinha de um crescimento mais forte, acima de 3% nos últimos anos, mas agora já mostra desaceleração. “A projeção gira em torno de 1,8% para 2026, o que indica uma economia perdendo fôlego em um ambiente de juros altos e custo elevado”, afirma o economista.
Segundo Adilson Martins, justamente por isso o ambiente de negócios se sente pressionado. “As empresas ficam mais cautelosas. Há uma tendência de revisão de investimentos, maior foco em eficiência e busca por alternativas para reduzir custos. Isso impacta diretamente o ritmo de crescimento da economia”, explica.
Além disso, o cenário doméstico adiciona novas camadas de incerteza. Questões fiscais, decisões de política econômica e o próprio ambiente político influenciam diretamente as expectativas de investidores e agentes econômicos. “O cenário externo já é complexo por si só. Quando você soma a isso a incerteza interna, especialmente em relação à condução fiscal e às decisões políticas, o nível de cautela aumenta muito. Isso impacta câmbio, juros, investimento e confiança”, explica Nogueira.
Adilson Martins complementa com um olhar estratégico. “O Brasil tem potencial para transformar esse cenário em oportunidade, mas isso depende de avanços internos. Melhorar a logística, aumentar a produtividade e fortalecer a segurança jurídica são pontos essenciais para reduzir vulnerabilidades e ampliar a competitividade.”
Nogueira conclui com um alerta sobre o momento atual: “O Brasil está mais preparado para enfrentar choques externos, sem dúvida. Mas isso não significa que está imune. A economia continua sensível a inflação, juros e expectativas. E, em um ambiente como esse, confiança e previsibilidade fazem toda a diferença.”
Cooperativismo: Proximidade como vantagem estratégica
Em um ambiente marcado por juros elevados, crédito mais caro e maior seletividade, o cooperativismo se consolida como um importante vetor de sustentação econômica, especialmente para pequenos e médios negócios que dependem de financiamento e orientação para atravessar períodos de incerteza.
Para Luís Arthur Nogueira, o principal ativo competitivo das cooperativas está na proximidade com o associado. “Isso permite avaliar melhor o risco, entender a realidade do negócio e oferecer condições mais adequadas de financiamento”, afirma.
Essa relação mais próxima também se traduz em eficiência. “Quando há mais informação e acompanhamento, a inadimplência tende a ser menor. Com isso, é possível trabalhar com taxas mais competitivas, mesmo em um cenário de crédito restrito”, explica o economista.
Outro diferencial está no papel anticíclico. “Enquanto instituições tradicionais costumam endurecer o crédito em momentos de incerteza, as cooperativas conseguem manter um fluxo mais equilibrado, evitando rupturas na economia local”, diz Nogueira.
Na avaliação de Adilson Martins, essa força precisa estar aliada à capacidade de gestão. “Cooperativas que investem em governança, tecnologia e análise de dados tendem a ser mais resilientes. A combinação entre proximidade e capacidade técnica é o que sustenta a competitividade no longo prazo”, afirma.
Ele também destaca a evolução do papel dessas instituições. “Não se trata apenas de conceder crédito, mas de atuar como parceiras estratégicas, ajudando o associado a tomar decisões mais conscientes e a se preparar melhor para cenários adversos.”
Esse impacto vai além do sistema financeiro. Em muitas regiões, especialmente fora dos grandes centros, as cooperativas sustentam cadeias produtivas, apoiam pequenos produtores e contribuem diretamente para a geração de renda e empregos. “O cooperativismo não apenas financia, mas ajuda a manter a atividade econômica e a estabilidade das comunidades”, resume Nogueira.
O que vem por aí e como as cooperativas devem se preparar
O cenário para os próximos 12 a 24 meses segue condicionado a fatores externos e internos. “O ideal seria a redução das tensões geopolíticas, especialmente no Oriente Médio e no conflito entre Rússia e Ucrânia. Isso ajudaria a estabilizar o preço do petróleo em um patamar mais saudável, entre 60 e 80 dólares, reduzindo pressões inflacionárias e abrindo espaço para queda de juros”, afirma Luís Arthur Nogueira.
No Brasil, o foco recai sobre a condução econômica. “As escolhas fiscais serão determinantes. Uma agenda responsável tende a melhorar expectativas, controlar a inflação e favorecer o crescimento. Já um cenário de desequilíbrio pode resultar em juros mais altos e desaceleração”, explica.
Diante desse ambiente, o planejamento ganha protagonismo. O economista informa que cooperativas e empresas precisam atuar com cautela, estruturar melhor o uso do crédito e se preparar para diferentes cenários.
Ao mesmo tempo, a inovação se consolida como eixo estratégico. Segundo Adilson Martins, o avanço tecnológico no agro já redefine a competitividade. “O Brasil contava com 2.075 agtechs em 2025, e 83% delas já utilizam inteligência artificial. Esse movimento mostra que o setor está migrando rapidamente para uma lógica mais digital e orientada por dados.”
Ele destaca que essa transformação abre novas oportunidades, principalmente em áreas como bioinsumos, monitoramento climático e desenvolvimento de alimentos mais sustentáveis que ganham relevância em um contexto de mudanças climáticas e novas demandas de consumo. “A capacidade de adaptação será decisiva. Cooperativas que conseguirem equilibrar disciplina financeira, proximidade com o associado e incorporação de tecnologia estarão mais preparadas para enfrentar a volatilidade e capturar oportunidades de crescimento”, ensina.
Por Letícia Rio Branco, Redação MundoCoop

Matéria exclusiva publicada na edição 130 da Revista MundoCoop












