Como a Mondragon prepara o cooperativismo para o futuro

Integrada a um dos maiores ecossistemas cooperativos do mundo, a Mondragon University atua como uma engrenagem essencial na geração de conhecimento, inovação e lideranças. Inserida na divisão de conhecimento do grupo Mondragon, na Espanha, a instituição conecta ensino, pesquisa e prática empresarial de forma orgânica e eficiente.

Nesta entrevista, Urko Lopez, pesquisador da Mondragon University e Coordenador do Curso Gestión Excelente de Empresas Cooperativas, explica como esse modelo se sustenta na prática, os desafios de alinhar princípios com as novas gerações e de que forma a universidade tem se aproximado do Brasil.

Confira! 

A educação sempre foi um dos pilares fundadores de Mondragon. Qual é hoje o papel da Mondragon University dentro da estratégia do grupo? 

O grupo está dividido em quatro divisões, dependendo da atividade e segmento de cada cooperativa que o compõe: industrial, financeira, distribuição e conhecimento. 

A universidade pertence à divisão de conhecimento, e sua missão, tanto por sua natureza quanto por seu papel dentro do grupo, é formar futuros perfis profissionais e criar conhecimento aplicável por meio de suas atividades de pesquisa.

Diferentemente das universidades tradicionais, a instituição nasce integrada ao mundo do trabalho. Qual é o maior diferencial desse modelo educacional? 

Temos vários elementos diferenciais. Em primeiro lugar, cada faculdade da universidade é uma cooperativa de trabalho associado, e as pessoas sócias-trabalhadoras têm um duplo papel: por um lado, sua atividade profissional, e por outro, sua atuação como proprietárias da organização.

Em segundo lugar, nosso modelo educacional está muito ligado às atividades socioempresariais. Nossos cursos de graduação e pós-graduação estão estreitamente conectados e alinhados às necessidades das organizações da região.

Em terceiro lugar, a “formação dual”. Nossos alunos estudam na universidade e têm a possibilidade de trabalhar em empresas ao mesmo tempo desde o primeiro ano, por meio de convênios com essas organizações. Com isso, garantimos que nossos alunos tenham experiência laboral e competências profissionais adquiridas e consolidadas ao se formarem.

Como vocês trabalham a requalificação dos profissionais diante das rápidas transformações tecnológicas e produtivas?

Por um lado, temos formações de pós-graduação adaptadas às grandes mudanças e tendências que observamos e que as empresas compartilham conosco, por meio dos projetos de pesquisa e transferência de conhecimento que realizamos.

Por outro lado, desenvolvemos formações sob medida para as necessidades das empresas, ajustadas de forma individualizada, e nessas formações também obtemos muitas informações sobre as novas demandas que estão surgindo no mercado.

Em um contexto de disputa global por talentos, onde estão os principais desafios?

Entendemos que o modelo educacional tem sido importante para fomentar o compromisso com as organizações.

Os principais desafios estão, como sempre, nas mudanças geracionais. As gerações não são iguais, inquietações, elementos motivadores e aspirações variam. Tudo isso deve ser aceito e integrado, mantendo a essência dos princípios e valores das cooperativas.

O desafio é, em um mundo tão competitivo e exigente como o atual, e com uma mentalidade tão diferente da das gerações anteriores, alinhar essa realidade com os princípios e valores que nos trouxeram até aqui.

Não existe uma fórmula mágica, e cada cooperativa tem se adaptado na medida em que sua própria realidade permite. Mas sempre com a consciência de que somos cooperativas, com princípios, valores e uma conexão vital com o entorno em que estamos inseridos.

A inovação é um eixo transversal no ecossistema Mondragon. De que forma a universidade contribui para fomentar uma cultura de inovação?

O que aprendemos com os projetos e realidades que desenvolvemos e observamos se transforma em conhecimento que, em seu aspecto técnico, levamos para as aulas. Com isso, oferecemos aos alunos o conhecimento e a realidade empresarial mais atual.

Da mesma forma, os alunos realizam suas práticas nas empresas e percebem que o conhecimento é fundamental, tanto para utilizá-lo quanto para gerá-lo, visando um crescimento sustentável ao longo do tempo.

Como a Mondragon University vê a evolução do cooperativismo brasileiro? 

Recentemente, temos intensificado o contato com o cooperativismo brasileiro por meio das formações realizadas junto com nossos parceiros no Brasil, a Execoop, por exemplo. 

Eles estão dando saltos qualitativos rumo a modelos de gestão mais avançados, adaptando-se às realidades e necessidades que começam a surgir no país. Existem experiências cooperativas muito interessantes para nós, justamente por não termos equivalentes aqui.

Trabalhamos muito com a intercooperação e estamos vendo que iniciativas como a da Execoop, para fomentar esse campo, podem gerar um grande salto qualitativo.

Como se encaixa no plano da Mondragon University uma aliança estratégica com cooperativas brasileiras?

É uma aliança que consideramos muito importante. Ao estabelecer essa vinculação institucional há um ano, abrimos caminho para aprofundar e gerar sinergias entre as duas partes.

Atualmente, estamos explorando possibilidades em diferentes formatos de formação e pesquisa, o que nos permite pensar em novas atividades e modelos no médio e longo prazo, além dos já existentes.

Olhando para o futuro, como a Mondragon University está se reinventando para continuar sendo um ativo estratégico do cooperativismo?

Estamos nos reinventando com a criação de novos cursos de graduação e pós-graduação e, sobretudo, com a adaptação do nosso modelo educacional às novas realidades.

Tudo isso, naturalmente, levando em conta que somos uma cooperativa, e que os trabalhadores não devem apenas transferir conhecimento, mas também ser exemplo vivo da aplicação e prática dos princípios e valores do cooperativismo.

Os princípios não se aprendem apenas nos livros, eles são vividos, ensinados pelo exemplo e aprendidos na prática. Não há segredo além de sermos coerentes com quem somos e com o que somos.


Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop

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Entrevista exclusiva publicada na edição 132 da Revista MundoCoop

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