Tem uma pergunta que faço em toda sala onde entro: o que ainda enxergamos juntos? A democracia aguenta o desacordo. O que ela não aguenta é perder o chão, a comprovação do que entendemos como verdade. Esse chão vem sendo dissolvido por algo que tratamos como ferramenta e já é instituição: o algoritmo.
Dessa vez quero falar de política. Como um partido ou uma cooperativa, ele molda crença e comportamento, organiza a atenção e define o que será visto e debatido. A diferença é que ninguém votou nele, e não temos ingerência sobre os modelos que hoje orientam nossas decisões de trabalho e de vida.
A IA já está em quase tudo numa campanha. Escreve discurso, testa mil versões da mesma frase, corta vídeo, clona voz e entrega o texto certo à pessoa certa, criando recortes comportamentais a partir do rastro digital.
Experimentos deste ano inquietam. Um põe eleitores de voto decidido para conversar com uma IA sobre o concorrente, e o deslocamento de preferência supera qualquer propaganda. O TSE proíbe a prática no período eleitoral, mas o achado vale para qualquer decisão do dia a dia. Estamos perdendo soberania cognitiva, a capacidade de pensar e decidir a partir da própria consciência.
A lei desenha as fronteiras. Rotular o que é sintético, sim. Deepfake, não. Robô simulando candidato ou sistema dizendo em quem votar, proibido. Só que fiscalizar é quase impossível: a peça nasce em minutos, circula em grupo fechado e a checagem chega depois do estrago.
Por isso a próxima grande discussão de direitos humanos é o direito à realidade. Não é direito à minha verdade nem à sua. É poder distinguir o real do fabricado e reparar a confiança no mundo que dividimos.
Em outubro cada um entra sozinho na cabine. Mas não precisa chegar lá sozinho. A OCB e a Ocepar vêm construindo diretrizes que traduzem o que o setor precisa. Lê-las é um ato de soberania. Antes de acreditar, pergunte de onde veio. Antes de repassar, pergunte quem ganha. O voto consciente começa muito antes da urna.
Paula Abbas é Futurista, design thinker e facilitadora. Fundadora da ThinkRoom Observatório de Sinais e da Rituais Cocriativos. Coautora do livro Gestão da Inovação em Cooperativas: Sistema Ocepar e ISAE.

Coluna exclusiva publicada na edição 135 da Revista MundoCoop












