O que um produtor de cana espera da próxima inovação da indústria
Antes de uma tecnologia chegar ao campo, ela já passou por decisões de pesquisa, desenvolvimento e investimento. Quando chega à fazenda, encontra outra decisão de capital: a do produtor.
É desse encontro que quero falar.
Como produtor de cana e CEO da Beggio Lorenzo Agropecuária, vejo uma oportunidade de aproximar quem desenvolve soluções de quem precisa decidir onde, quando e em que condições adotá-las.
Uma novidade pode ser tecnicamente interessante e ainda exigir respostas antes de ganhar escala. Quanto custa incorporá-la à operação? Qual problema resolve? Como seu desempenho varia entre ambientes? Que resultado justifica continuar investindo?
Essas perguntas fazem parte da construção de confiança entre produtor e indústria.
A comparação começa com o que já fazemos
Para avaliar uma tecnologia, precisamos de uma referência clara: o manejo que ela pretende substituir ou complementar.
Quando várias práticas mudam ao mesmo tempo, fica mais difícil identificar a contribuição de cada uma. O resultado pode melhorar sem que saibamos exatamente o que merece ser repetido.
Por isso, valorizo uma conversa que começa pelo desenho da avaliação. Tratamentos comparáveis, condições registradas e critérios definidos antes da colheita ajudam a transformar uma demonstração em informação para decidir.
Também quero conhecer os limites de uma solução. Em quais condições ela respondeu menos? Onde ainda faltam dados? Que ajustes foram necessários?
Esse conhecimento tem valor para quem vai colocar capital em risco.
O retorno precisa considerar a operação inteira
O preço do produto é uma parte da conta.
A adoção pode envolver aplicação, treinamento, equipamentos, monitoramento e mudanças na rotina da equipe. Uma solução que exige uma janela operacional estreita precisa ser avaliada dentro da capacidade real de execução da fazenda.
Na cana, a decisão também pode atravessar vários cortes. Um investimento feito hoje precisa ser analisado pelo que entrega agora e pelas consequências que deixa para as próximas safras.
Minha expectativa em relação à indústria é encontrar essa visão na proposta de valor: benefício agronômico, custo de implementação, prazo de retorno e condições necessárias para que o resultado aconteça.
Quanto mais clara essa conta, melhor a decisão de ambas as partes.
Sustentabilidade precisa orientar escolhas verificáveis
“Somos produtivos por sermos sustentáveis” é a visão que orienta minha atuação.
Para que essa frase tenha consequência na gestão, ela precisa aparecer nas escolhas: como cuidamos do solo, avaliamos o uso dos recursos, organizamos a operação e preservamos a capacidade produtiva ao longo do tempo.
Isso exige critérios.
Quando uma solução apresenta uma proposta de sustentabilidade, quero entender qual aspecto será medido, em relação a qual referência e durante quanto tempo. Também quero saber como esse benefício se relaciona com produtividade, custo e risco.
Nem todo efeito aparece na primeira safra. Justamente por isso, precisamos combinar o que será acompanhado no curto prazo e o que exigirá uma avaliação mais longa.
Essa clareza ajuda o produtor a investir com convicção e permite à indústria demonstrar o valor de suas tecnologias.
O produtor pode contribuir antes do lançamento
Vejo espaço para uma participação maior dos produtores na definição dos problemas que orientam a pesquisa.
Uma dificuldade recorrente na fazenda pode revelar uma oportunidade que os indicadores comerciais ainda não mostram. Uma aplicação difícil de executar, uma incompatibilidade com a rotina ou um custo de monitoramento elevado podem limitar a adoção de uma solução promissora.
Aproximar pesquisa, equipe técnica e produtor desde o início permite discutir essas condições enquanto ainda há espaço para ajustar o desenvolvimento.
Para isso, a parceria precisa comportar resultados favoráveis, resultados inconclusivos e situações em que a tecnologia não respondeu como esperado. Todos eles ajudam a melhorar a recomendação.
O que faria essa relação avançar
Na minha visão, uma parceria consistente entre produtor e indústria deveria começar com quatro compromissos:
- Definir juntos o problema e a referência de comparação.
- Estabelecer critérios agronômicos, econômicos e operacionais antes do teste.
- Registrar as condições que ajudam a explicar o resultado.
- Combinar o que justificará ampliar, ajustar ou interromper a adoção.
Esse é um diálogo que considero relevante para as lideranças da indústria de insumos e tecnologia agrícola, assim como para produtores, pesquisadores e equipes técnicas.
O produtor precisa entender o valor que chega à fazenda. A indústria precisa conhecer as condições em que esse valor se realiza.
Minha pergunta às lideranças do setor é concreta: o que vocês mudariam no processo de desenvolvimento se o produtor participasse da definição dos critérios de sucesso desde o primeiro dia?
Giuliano Beggio Francischini é Produtor de cana-de-açúcar e CEO da Beggio Lorenzo Agropecuária












