Conquistar a atenção do consumidor nunca foi tão acessível e, ao mesmo tempo, tão disputado. Para Felipe Godoy, executivo e especialista em growth e marketing, essa transformação exige muito mais do que adaptar campanhas ou ampliar a presença nas redes sociais.
Com uma trajetória de 17 anos com experiência em grandes marcas como TIM Brasil, Pinterest e Canva, onde liderou estratégias de marketing e posicionamento, Godoy se destaca por unir criatividade, análise de dados e comportamento do consumidor. Atualmente, atua como conselheiro estratégico e palestrante, defendendo que construir marcas relevantes exige repensar estratégias, estruturas e, principalmente, como se conectar com as pessoas.
Em entrevista à MundoCoop, ele compartilha aprendizados e aponta caminhos para organizações que buscam se diferenciar e construir relacionamentos duradouros, um desafio especialmente pertinente para as cooperativas diante das expectativas dos cooperados de hoje e do futuro.
Confira!
Quais mudanças no comportamento do consumidor mais impactaram a maneira de construir marcas nos últimos anos?
Com certeza a maior mudança foi com as redes sociais, que permitiram que as pessoas se conectassem com as marcas de uma maneira diferente.
Antes, as marcas deixaram dependiam da televisão, que era um canal muito caro e com a concorrência de atenção bem menor. Hoje, temos um cenário que é o extremo oposto, onde é muito fácil para uma marca ter presença digital, mas a concorrência pela atenção é muito grande. Eu não concorro mais com outros anúncios, eu concorro com todo o conteúdo, seja de influenciadores ou pessoas comuns.
Nós digitalizamos muito do processo, não só de compra, mas também de descoberta e de impacto. As marcas que se deram bem foram as marcas que conseguiram fazer essas mudanças.
Entretanto, para mim, a mudança mais recente é realmente entender o quanto as marcas precisam de fato conquistar a atenção para serem ouvidas. Não basta só ser grande, não basta só investir muito dinheiro, você de fato tem que construir narrativas e histórias que conectem com as pessoas.
Quando uma empresa decide modernizar sua marca e sua comunicação, quanto dessa transformação depende de novas estratégias de marketing e quanto exige uma mudança de mentalidade dentro da própria organização?
O marketing é a face da empresa para o mundo. Quando entendemos isso, vamos entender que o marketing faz parte da estratégia e ele está conectado com o resultado. Todas essas discussões são partes do negócio porque qualquer negócio para crescer, precisa ser visto, percebido e entendido.
Eu costumo ter uma analogia sobre isso. Lá atrás para uma empresa fazer sucesso, ela ia montar uma loja em uma rua movimentada porque isso ia gerar tráfego e mais chance de pessoas entrarem na loja. Hoje, a rua movimentada são as redes sociais, mas não são as pessoas que passam, é você que passa na frente das pessoas.
As cooperativas, por exemplo, são um mercado tradicional que tem uma relevância muito grande e também credibilidade. Então, tom de voz e posicionamento são superimportantes. É preciso olhar para a audiência e conectar com ela para continuar sendo relevante para ela.
A relevância não é só no serviço que eu presto, mas é no quanto essa audiência lembra de mim quando precisa de mim.
O que diferencia uma marca que consegue chamar a atenção de outra que constrói pertencimento, identificação e relacionamentos de longo prazo?
Primeiro ponto é um produto bom, que resolve a vida das pessoas. Quando vamos desenvolver um produto, precisamos entender o que essa audiência está pedindo, o que o mercado está oferecendo e quais são os nossos diferenciais competitivos.
Com isso, eu tenho diversas estratégias que podem ser aplicadas. Um exemplo é a construção de uma comunidade. O que acompanhamos muito nas redes sociais é o quanto criadores de conteúdo conseguem fazer a criação de uma comunidade e, para mim, esse é um ponto que as marcas deveriam aprender mais. Como é que eu posso fazer com que a minha marca crie essa comunidade onde as pessoas se sintam parte de algo ao consumir o meu produto?
Quando o produto é complexo, como no universo das cooperativas, muitas vezes a percepção que as pessoas têm é limitada. Para resolver isso, uma das estratégias é investir muito em treinamento. Eu estou falando com empreendedores que querem aprender mais e querem entender como desenvolver o seu negócio, por exemplo. Então, como eu posso ajudar eles a desenvolverem os seus negócios usando a minha ferramenta? A estrutura de ensino educacional vem para trazer o meu produto em um ambiente que é propício e que também é benéfico para ele.
Essa conexão é muito importante, principalmente quando falamos de cooperativas. Quantas cooperativas estão ajudando esses usuários a gerenciar melhor o seu dinheiro, a fazer escolhas mais conscientes e a entender se é o momento de fazer um financiamento ou não? O sistema financeiro é complexo e se a gente conseguir realmente construir essa relação onde a cooperativa apoia e a pessoa se sente apoiada, conseguimos desenvolver uma conexão que é muito mais forte entre o cliente e a marca.
O cooperativismo costuma destacar conceitos como propósito, proximidade e impacto, que hoje também fazem parte do discurso de praticamente todas as grandes marcas. Se esses atributos deixaram de ser exclusivos, onde pode estar o verdadeiro diferencial competitivo das cooperativas nos próximos anos?
Esse equilíbrio é interessante porque é a expectativa básica que todos os clientes têm sobre o mercado. Mas o que vai fazer eu me diferenciar?
Temos, por exemplo, a Nubank, que começou com uma proposta muito simples e direta, um cartão de crédito que você conseguia gerenciar no seu aplicativo. Por ter nascido com um produto bem específico e uma mensagem muito clara, essa percepção de facilidade permanece até hoje, mesmo tendo vários concorrentes que chegaram nesse ponto. Ou seja, como você conseguiu construir uma marca e um posicionamento, você consegue sustentar isso.
Essa conexão vai sendo construída também a partir do que você entrega. Existe uma outra estratégia que eu falo que é “content marketing is back”. O que é content marketing? Trazer um conteúdo relevante para as pessoas, pra que no meio desse conteúdo elas entendam que a sua empresa, o seu produto, é também uma solução.
Para mim isso voltou, mas voltou em outro formato. Quando pensamos nos formatos digitais e nos formatos de comunicação, conseguimos trazer um conteúdo relevante que vai ajudar as pessoas e que consegue no meio disso, mas sem ser o principal, indicar o meu serviço como uma solução que a pessoa está procurando. São maneiras mais criativas de conseguir realmente mostrar para as pessoas porque que o nosso produto é diferente e melhor.
Existe uma questão também, quando falamos de sistema financeiro e de cooperativas, que é a conexão emocional. “O dinheiro ajudou essa pessoa a desenvolver o seu negócio”. Eu gosto muito de trazer casos de sucesso. Eu acho que isso é super relevante. Como alguém conseguiu desenvolver o seu negócio a partir do que a cooperativa ofereceu?
Essas histórias não só humanizam esse conteúdo, como também fazem uma associação direta entre o que essa pessoa viveu e o que este consumidor pode viver ao experimentar as minhas soluções. Eu considero esse é um caminho também interessante para nós refletirmos.
Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop

Entrevista exclusiva publicada na edição 135 da Revista MundoCoop












