O avanço do agronegócio brasileiro nos últimos anos elevou também a pressão sobre o crédito rural. Em meio ao aumento dos custos de produção, da demanda por investimento e das exigências de sustentabilidade, cooperativas agropecuárias e de crédito apresentaram ao governo federal uma proposta de Plano Safra 2026/2027 com previsão de R$ 674 bilhões em recursos.
O valor reflete não apenas o crescimento do setor, mas também a percepção de que o modelo atual já enfrenta limites diante das necessidades do campo. Hoje, o agro representa cerca de 25% do PIB nacional e responde por quase metade das exportações brasileiras, o que amplia a relevância do financiamento rural para a economia do país.
Segundo o Sistema OCB, em conversa com a MundoCoop, a proposta é resultado de um processo construído junto às cooperativas brasileiras e representa as demandas reais dos produtores em diferentes regiões e cadeias produtivas. “Os R$ 674 bilhões são resultado de um processo participativo de construção junto à base cooperativista, que começa no ano anterior à entrega do Plano Safra e que se finaliza somente na divulgação do próximo ciclo do plano agrícola e pecuário”, afirma.
A entidade destaca que o cooperativismo apresenta propostas ao Plano Safra há mais de duas décadas e que o material entregue ao governo reúne demandas ligadas a custeio, comercialização, investimento, industrialização e acesso ao crédito.
Além da ampliação dos recursos, as cooperativas defendem ajustes que ampliem a participação do cooperativismo na distribuição do crédito rural e fortaleçam linhas voltadas à sustentabilidade. “As cooperativas têm um papel estruturante na distribuição do crédito rural. Elas são, hoje, um dos principais canais de operacionalização do Plano Safra porque combinam capilaridade, conhecimento do produtor e eficiência na aplicação dos recursos”, destaca o Sistema OCB.
Capilaridade e acesso
O crescimento da presença das cooperativas no financiamento rural acompanha mudanças no próprio sistema financeiro brasileiro. Em centenas de municípios, especialmente no interior, cooperativas de crédito se tornaram a principal, ou única, porta de acesso a serviços financeiros. “Quando falamos em capilaridade, estamos falando de presença real. As cooperativas de crédito estão em cerca de 60% dos municípios brasileiros e, em centenas deles, são a única instituição financeira disponível”, afirma o Sistema OCB.
Na prática, isso altera não apenas o acesso ao crédito, mas também a relação do produtor com o financiamento rural. Segundo a entidade, a cooperativa consegue acompanhar mais de perto a realidade da produção, reduzindo assimetrias de informação e ampliando a capacidade de investimento dos produtores. “Quando o crédito chega por meio das cooperativas, o produtor tem atendimento próximo, orientação técnica e financeira e soluções integradas”, diz o Sistema OCB.
Esse movimento tende a ganhar ainda mais relevância diante da transformação do perfil produtivo no campo. “A demanda por crédito rural na Credicitrus tem apresentado trajetória de crescimento expressivo no que diz respeito ao volume de recursos demandados, especialmente nas modalidades de Financiamentos Rurais e CPR-F, com expansão de aproximadamente 158,7% no período de 2022 a 2025”, enfatiza a diretora-presidente executiva da Credicitrus, Denise de Almeida.

“O volume de recursos com juros subsidiados disponibilizados pelo Plano Safra tem ficado aquém das necessidades dos produtores” – DENISE DE ALMEIDA, DIRETORA-PRESIDENTE EXECUTIVA DA CREDICITRUS
Ao mesmo tempo, o perfil do produtor também mudou. Tecnologias como agricultura de precisão, sensoriamento remoto, drones, irrigação inteligente, integração lavoura-pecuária-floresta e energia fotovoltaica passaram a exigir novos investimentos e maior capacidade de financiamento. “A mudança de perfil deve ser acompanhada de perto pela Cooperativa, para que proporcione aos cooperados o apoio financeiro demandado em consonância com os avanços introduzidos no campo”, complementa Denise.
Juros, sustentabilidade e pressão sobre o crédito
Apesar da ampliação da demanda, o cenário para o crédito rural se tornou mais complexo nos últimos anos. O aumento da taxa Selic elevou o custo fiscal da equalização de juros e reduziu o espaço para recursos subsidiados.
De acordo com a diretora-presidente executiva da Credicitrus, houve uma migração crescente para recursos direcionados sem equalização e para linhas com taxas mais próximas às de mercado. “O volume de recursos com juros subsidiados disponibilizados pelo Plano Safra tem ficado aquém das necessidades dos produtores em geral. Esse é um fato histórico”, reforça.
Além dos custos financeiros, produtores enfrentam hoje exigências cada vez maiores relacionadas à sustentabilidade e à regularidade ambiental. “Os principais desafios para os produtores envolvem a manutenção da documentação ambiental atualizada, a garantia da regularidade do imóvel rural, a adaptação às exigências de sustentabilidade e a adoção de boas práticas produtivas”, afirma a executiva.
Na Credicitrus, operações de financiamento rural passam por monitoramento ambiental, análise de riscos climáticos e verificações relacionadas a áreas protegidas, em linha com exigências regulatórias e demandas internacionais.
Ao mesmo tempo, a proximidade das cooperativas com os produtores ajuda a facilitar o processo de adequação. “Como a Cooperativa está muito próxima dos associados e os conhece muito bem, o processo de aconselhamento e assessoria para que cumpram esses requisitos normalmente ocorre com maior rapidez e fluidez”, destaca Denise.
Impacto econômico
O debate sobre o tamanho do Plano Safra ultrapassa o setor agropecuário e afeta diretamente a economia brasileira. Além da participação expressiva no PIB, o agro segue como um dos principais motores das exportações, da geração de renda e da atividade econômica em centenas de municípios.
Segundo o Sistema OCB, o cooperativismo agropecuário reúne hoje cerca de 1,2 mil cooperativas e mais de 1 milhão de produtores cooperados em todo o país. “Desse total, 71,2% pertencem à agricultura familiar”, declara a entidade.
“Previamente precisamos ressaltar que a agricultura e pecuária brasileira é sinônimo de segurança alimentar, energética e de suprimentos para toda uma cadeia de bens e serviços do país”, destaca o Sistema OCB. As cooperativas, inclusive, representam conjuntamente 50% da safra nacional de grãos, 75% do trigo e mais da metade da produção de café e milho.
Nesse contexto, ampliar o crédito rural é visto pelo setor como uma medida diretamente ligada à segurança alimentar, à competitividade e à estabilidade econômica.
Na avaliação da Credicitrus, o cooperativismo também fortalece as economias locais ao manter recursos circulando dentro das próprias comunidades. “O modelo gera um ciclo virtuoso: os recursos permanecem na própria comunidade, fortalecendo a economia local e as cadeias produtivas, especialmente no agronegócio”, afirma Denise.
Mesmo diante de um ambiente de juros elevados e maior cautela por parte dos produtores, a expectativa do setor é de que o cooperativismo continue ampliando sua participação na distribuição do crédito rural, especialmente em regiões onde o acesso ao sistema financeiro tradicional ainda é limitado.
Por Andrezza Hernandes – Redação MundoCoop

Matéria exclusiva publicada na edição 131 da Revista MundoCoop












