Números que sobram, estratégias que faltam: o paradoxo das grandes decisões no cooperativismo – Emanuel Malta é economista sócio-fundador da Vértice Consultores

Vivemos a era do dado abundante. Hoje, qualquer dirigente ou gestor de cooperativa tem, a um clique, mais informações sobre mercado, comportamento do consumidor e indicadores econômicos do que um conselho de administração inteiro tinha há três décadas. Modelos preditivos, dashboards em tempo real, inteligência artificial aplicada à prospecção de cenários e ferramentas analíticas avançadas — tudo está disponível.

Há, no entanto, uma desconexão inquietante entre o discurso e a prática. Se o acesso à informação é tão democrático e o treinamento técnico no ecossistema cooperativo é tão disseminado, por que decisões estratégicas de alto impacto — que definem o futuro de milhares de associados — ainda carregam, por vezes, a marca do “faro” intuitivo?

A hipótese que proponho não é confortável: o problema deixou de ser a falta de dados para ser a escolha pelo escuro, mesmo quando a luz está acesa. No cooperativismo, onde o peso da responsabilidade é compartilhado e o impacto social é direto, esse paradoxo se torna ainda mais crítico.

No ramo crédito, a rápida expansão física e a abertura de agências são justificadas pela inclusão financeira. Contudo, muitas vezes falta embasamento em estudos de viabilidade de longo prazo que considerem a digitalização e o novo comportamento geracional. Prioriza-se o crescimento imediato e as metas anuais, ignorando-se a saturação do mercado e os riscos futuros em vez de se apoiar em dados e evidências.

No setor agropecuário, os desafios climáticos e a volatilidade das commodities tornaram-se variáveis estatísticas previsíveis. Apesar disso, muitas cooperativas ainda negligenciam modelos preditivos para planejar infraestrutura e crédito, preferindo apostar na sorte de um “ano bom”. Ignorar uma tendência climática ou de mercado com base em dados e continuar operando “na esperança” não é erro de percurso — é escolha cultural da governança.

Há ainda o fator demográfico, que afeta transversalmente o Sistema Unimed e o quadro social de todas as cooperativas. A população brasileira envelhece em velocidade recorde e a taxa de natalidade despencou. Na saúde, sabemos exatamente o formato da pirâmide etária e o custo assistencial das próximas duas décadas. As decisões sempre levam em conta essa dinâmica?

No cooperativismo em geral, enfrentamos o fantasma da falta de sucessão familiar no campo e da perda de conexão com os jovens (gerações Y e Z). Mesmo diante dessas certezas matemáticas, muitas organizações continuam desenhando seus planos de sustentabilidade, carteiras de produtos e programas de governança como se o público-alvo ainda fosse o mesmo de trinta anos atrás.

Nas corporações tradicionais, escândalos recentes escancaram que dados e sistemas de controle não servem para nada se a cultura organizacional escolhe ignorar os sinais. No cooperativismo, é semelhante; com o agravante de que uma falha de governança ou decisão equivocada destrói o patrimônio coletivo e a confiança — o ativo mais valioso de uma cooperativa.

Decidir com base no “sempre foi assim” não é um problema de tecnologia; mas de cultura decisória. É o hábito de reagir ao passado (olhando apenas para as sobras do balanço anterior) em vez de antecipar o futuro. É a escolha pela urgência em detrimento do sinal estatístico da sustentabilidade.

O exercício mais útil para conselheiros, diretores e gestores neste momento é olhar para dentro de suas próprias cooperativas. Com que frequência as decisões de investimento, incorporações, lançamento de produtos ou rateio são tomadas com base em projeções de cenários construídas sobre dados concretos? A verdade incômoda é que muitas cooperativas, inclusive de grande porte, ainda decidem por “intuição” — com base na “experiência de mercado”. Porém, em um ambiente de negócios cada vez mais volátil e hipercompetitivo, o faro perde consistentemente para os dados.

Não se trata de substituir a essência humana, o relacionamento com o associado ou os princípios cooperativos pela frieza da estatística. É o oposto: complementar a sensibilidade com evidências que protejam o negócio. Construir cenários antes que eles se imponham e migrar de uma cultura de apagar incêndios para a de antecipação.

O método existe. As ferramentas estão aí. Os profissionais técnicos estão contratados. Só o que ainda falta, em muitas salas de conselho, é a decisão deliberada de adotar essa mudança cultural. Algumas cooperativas pioneiras já migraram da intuição para a evidência — e estão colhendo os frutos em forma de resiliência, previsibilidade, governança sólida e vantagem competitiva real. Outras continuarão pilotando de olhos vendados, comemorando números de ontem e torcendo para que o amanhã não seja implacável.

A pergunta para as lideranças das cooperativas não é mais “como fazer”. Essa resposta a tecnologia, os métodos e as ferramentas já deram. A pergunta que fica para a sua próxima reunião de conselho é: o que está faltando para decidir de forma diferente a partir de amanhã?


Por Emanuel Malta, economista sócio-fundador da Vértice Consultores

Redação

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Informação e inspiração para o cooperativismo.

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