Cooperativas e comunidades fortes!

Em certa ocasião, um amigo me perguntou qual seria a comunidade que a cooperativa deveria impactar, considerando o princípio do interesse pela comunidade. Ou seja, a cooperativa deveria interpretar comunidade, como sendo estritamente o seu o quadro social? Ou o bairro onde está a sede da cooperativa? Ou talvez o município onde a maioria dos cooperados moram? Ou será que seria toda sua área de atuação?

Enfim, qual seria a interpretação de comunidade e seu respectivo alcance, a fim de que a cooperativa possa alinhar o seu propósito institucional ao impacto efetivo pretendido por ela.

Nunca é demais recordar que princípio não é opção! A identidade cooperativista não relega seus princípios, nem os utiliza conforme convém, pelo contrário, ela pulsa naturalmente com base neles e estes, exigem vida e constância, são inegociáveis e percebidos independente do sabor dos dias, do tamanho ou estágio da cooperativa.

Claro que, em se tratando de interesse pela comunidade, provavelmente o impacto de cada cooperativa responda proporcionalmente à sua capacidade, condições e maturidade.

É natural imaginar que uma cooperativa recém-formada possa impactar, em um primeiro momento, tão somente o seu quadro social. Agora injustificável seria uma cooperativa de grande porte optar por fazer a mesma leitura. Seria como um super-herói que ganha seus poderes e só os usa em causa própria, ignorando seu entorno. 

Neste sentido, relevante lembrar que as cooperativas são modelos regenerativos e se distinguem por natureza dos modelos extrativos.

Enquanto nos modelos extrativos a proposta básica é maximizar o lucro e extrair a riqueza local, a fazendo fluir para lugares e pessoas outras, que não possuem qualquer compromisso genuíno com o desenvolvimento da comunidade, elevando ainda mais a concentração de riqueza e os efeitos da desigualdade extrema no mundo.

No modelo regenerativo, as cooperativas, são instrumentos de prosperidade local, compromissadas com as pessoas e a vida daquela comunidade. Afinal a governança é local e voltada para criar um tecido social justo, inclusivo, próspero e sustentável, contemplando uma economia democrática e participativa com foco no bem comum.

A ideia de comunidade forte, tem a ver com a criação de um ecossistema de suporte mútuo, onde a força de um grupo transcende o bem-estar individual, gerando externalidades positivas que beneficiam a todos simultaneamente. Traduzindo em maior resiliência e capacidade de enfrentamento dos seus problemas, com pessoas que se conhecem e se importam umas com as outras e todas se importam com o que é comum, lugares onde uma rede de segurança invisível existe baseada no relacionamento e na confiança, onde muito além do PIB, existem valores tácitos, que são imedíveis e alicerçam a vida, a sua proteção e o seu progresso.

E para quem acha que se trata de romantismo, o estudo ‘O impacto do cooperativismo na economia brasileira’ do Sistema OCB com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) nos brinda com informações que dão conta que em municípios com a presença de cooperativas há um diferencial de impacto positivo sobre o PIB, sobre os empregos formais, sobre o número de empreendimentos, dentre outros. Portanto, inegável que a atuação das cooperativas contribui significativamente para a construção de comunidades fortes, em um ciclo virtuoso local, com fortalecimento da economia e reflexos positivos na qualidade de vida das pessoas.

Por estas razões, se mostra fundamental cada cooperativa evidenciar qual é o seu impacto na comunidade, para que mais e mais pessoas tenham consciência da força do cooperativismo para as suas próprias comunidades. Onde a decisão para fazer parte de uma cooperativa não passará pela diferença de uma taxa de juros depois da vírgula, ou da ausência da prestação de algum serviço, ou de qualquer outra coisa, mas passará sim, pela relevância da cooperativa, como um patrimônio intergeracional daquela comunidade.

No desafio desta esteira, está como sempre, a eficiência do propósito e operacional do cooperativismo, a manutenção de sua identidade e essência, respaldada pela governança local participativa e atrelada a necessária visão e atitude de sua liderança.

Destas lideranças não se espera que sejam seduzidas pela notoriedade midiática da obtenção estrita dos resultados financeiros, ou se distraiam da austeridade, avultando suas próprias recompensas de forma incompatível com o perfil de seus cooperados e cooperativa, mas que sigam virtuosos na formação de novas lideranças, atentos às mudanças do mercado e firmes na condução da cooperativa, como cooperativa.

Desta forma, independente da definição de comunidade, a materialização do 7º princípio e dos demais, por certo, estará garantida em favor da construção de comunidades fortes.


Por Silvio Giusti, Consultor sênior, palestrante e articulista em cooperativismo

DESTAQUE ED. 129

Coluna exclusiva publicada na edição 129 da Revista MundoCoop

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