O cooperativismo financeiro segue ampliando os motivos de ser um dos principais motores da economia brasileira. Recentemente, o setor alcançou um marco histórico ao atingir R$ 1 trilhão em ativos, consolidando ainda mais seu protagonismo dentro do sistema financeiro nacional. Não são apenas os dados divulgados pelo Banco Central e pelo Sistema OCB que evidenciam o avanço contínuo das cooperativas de crédito no país. Especialistas garantem que esses números são apenas o começo de um novo momento para o segmento se expandir ainda mais, podendo inclusive dobrar em 2029.
Segundo levantamento do BC, o cooperativismo financeiro vem registrando expansão recorrente no país. Em 2024, os ativos do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC) alcançaram R$ 885 bilhões, alta de 21,1% em relação ao ano anterior, com desempenho superior ao do restante do Sistema Financeiro Nacional, que cresceu 13,1% no mesmo período. As captações também avançaram 21,7%, enquanto o número de cooperados chegou a 19,2 milhões.
Ênio Meinen, diretor executivo do Sicoob, adianta que o setor deve manter um ritmo constante de crescimento em torno de 20% ao ano, podendo alcançar R$ 2 trilhões em ativos até 2029. “Para além da meta financeira, devemos multiplicar os nossos investimentos em projetos sociais, que em 2025 alcançaram R$ 1 bilhão, e equilibrar a composição dos órgãos superiores de administração, com presença mais expressiva de mulheres e jovens”, adianta ele, sem deixar de comemorar o número de R$ 1 trilhão: “isso significa que alcançamos um lugar de honra, uma posição relevante na indústria financeira brasileira, cujos atores são qualificados e aguerridos”, completa.
Para Cledir Magri, coordenador do Conselho Consultivo Nacional do Ramo Crédito da OCB (CECO) e presidente da Cresol Confederação, a marca representa a consolidação de um modelo de negócio que tem uma atuação secular no Brasil. “Esse número materializa o compromisso, a força e a capacidade que o cooperativismo financeiro tem de responder às demandas da sociedade”, sintetiza.
Consolidação impulsionada por proximidade e confiança
Nem mesmo o cenário de juros elevados, instabilidade econômica e acelerada transformação digital foi capaz de frear o avanço do ramo. Para Magri, o diferencial competitivo das cooperativas está justamente na essência do modelo cooperativista. “Existe um equilíbrio entre robustez econômica, solidez financeira e participação efetiva na comunidade. As cooperativas estão presentes na vida das pessoas, desenvolvendo programas, projetos e iniciativas de relacionamento que fortalecem vínculos e criam confiança”, explica.

“Esse número materializa o compromisso, a força e a capacidade que o cooperativismo financeiro tem de responder às demandas da sociedade” – CLEDIR MAGRI, COORDENADOR DO CONSELHO CONSULTIVO NACIONAL DO RAMO CRÉDITO DA OCB (CECO) E PRESIDENTE DA CRESOL CONFEDERAÇÃO.
Além da proximidade com os cooperados, o cooperativismo financeiro vem ampliando investimentos em governança, tecnologia, profissionalização da gestão e diversificação de produtos e serviços. “Quando organizamos todo esse ecossistema, encontramos respostas importantes do ponto de vista das entregas feitas aos cooperados”, acrescenta.
Meinen reforça que o fortalecimento consistente é resultado de uma combinação entre diversos fatores. “Os destaques ficam para um marco regulatório mais flexível, tanto do ponto de vista do acesso associativo como da amplitude operacional; aprimoramento dos portfólios de negócios e dos processos, neste caso com forte ênfase em tecnologia da informação; e profissionalização da gestão, tanto estratégica quanto executiva”, cita, acrescentando que a expansão financeira reflete o estágio institucional do cooperativismo. “Há uma combinação desses elementos, sendo que a expansão financeira é produto da estratégia associada ao amadurecimento institucional”.
Atendimento humanizado em tempos de inteligência artificial
Embora a tecnologia e a inteligência artificial estejam transformando o mercado financeiro global, especialistas avaliam que o relacionamento humano continuará sendo um dos principais diferenciais competitivos das cooperativas. Em meio à aceleração digital, vínculo com as comunidades, confiança e atendimento próximo seguem como ativos estratégicos do modelo cooperativista. “Ao mesmo tempo em que vivemos uma revolução tecnológica, percebemos que as pessoas preservam essa dimensão afetiva que o cooperativismo carrega desde o seu nascedouro”, opina Cledir Magri.
Ele reforça que o avanço digital não substitui proximidade, escuta e atendimento humanizado, o que diferença no crescimento do ramo cooperativista financeiro em relação ao sistema de finanças tradicional. “As pessoas buscam cada vez mais essa conexão nas relações, porque no fundo, é claro que tem todo um boom na sociedade sobre as questões de ordem tecnológica, mas isso não substitui essa dimensão humana do nosso modelo do negócio”, destaca.
“Mantido o ritmo histórico, podemos projetar R$ 2 trilhões para 2029. Para além da meta financeira, devemos multiplicar os nossos investimentos em projetos sociais, que em 2025 alcançaram R$ 1 bilhão, e equilibrar a composição dos órgãos superiores de administração, com a presença bem mais expressiva de mulheres e jovens” – ÊNIO MEINEN, DIRETOR EXECUTIVO DO SICOOB

Meinen compartilha da mesma visão. Dados do Sicoob mostram que mais de 92% das transações já são realizadas por canais digitais, enquanto o WhatsApp concentra cerca de 60% dos atendimentos aos cooperados. “A proximidade com indivíduos, famílias e empreendedores é um fator que, sem dúvida, impulsiona a expansão”, afirma. “Mas, paralelamente, o cooperativismo avançou no relacionamento digital, acompanhando uma demanda crescente pelo autosserviço, sem abrir mão do apoio humanizado, ainda que remoto.”
Desenvolvimento regional e pequenos negócios sustentam avanço cooperativista
Cledir Magri ressalta que o crescimento está ligado ao papel das cooperativas no desenvolvimento regional e na inclusão financeira, especialmente em localidades menos atendidas pelo sistema tradicional. “Quando o cooperativismo chega a uma região, ele leva prosperidade, desenvolvimento e qualidade de vida. Estudos mostram que regiões com presença cooperativista apresentam indicadores sociais melhores”, afirma.
A percepção é reforçada por um estudo publicado na revista Economia e Sociedade, da Unicamp, que identificou impacto positivo das cooperativas de crédito sobre a renda dos municípios brasileiros, com aumento médio de R$ 1.825 no PIB per capita em cidades com presença cooperativista.
Meinen diz que o cooperativismo financeiro ainda possui amplo potencial de expansão no Brasil, especialmente em segmentos estratégicos da economia. “Reunimos menos de 20% da população economicamente ativa. Penso que os mercados mais promissores para as cooperativas continuam sendo o agro, os pequenos negócios e os indivíduos e famílias”, afirma.
Na avaliação do executivo, o futuro do segmento passa principalmente pelo fortalecimento da presença junto às micro e pequenas empresas e às pessoas físicas, públicos que demandam maior proximidade, acesso ao crédito e orientação financeira. “O cooperativismo precisa estar atento à movimentação desses públicos, que necessitam sobremaneira da nossa participação e do nosso papel. Sem deixar de atuar com grandes conglomerados e grandes empresas, nossa presença tende a crescer justamente no agronegócio, nos pequenos negócios e no atendimento às famílias”, destaca.
O cenário acompanha o avanço do empreendedorismo no Brasil. Dados do Sebrae mostram que os pequenos negócios representam cerca de 97% das empresas do país, respondem por 26,5% do PIB nacional e são responsáveis por sete em cada dez novos empregos formais. Nesse contexto, as cooperativas de crédito vêm ampliando sua relevância ao facilitar o acesso a financiamento, capital de giro e educação financeira para micro e pequenos empreendedores, sobretudo em regiões menos atendidas pelo sistema bancário tradicional.
As regiões Norte e Nordeste aparecem entre as principais fronteiras de expansão do cooperativismo financeiro. “O avanço em regiões menos assistidas tem se intensificado nos anos mais recentes. É nesses territórios que poderemos dar nosso próximo grande salto. O cooperativismo seguirá cumprindo um papel fundamental de inclusão financeira, porque essa é uma das suas principais missões”, afirma Meinen.
Próximos passos: crescer com segurança e solidez
Para o futuro, o setor projeta um novo ciclo de desenvolvimento sustentado por solidez, controle e eficiência. “Os próximos passos precisam estar voltados para um crescimento expressivo, mas acompanhado de muita segurança, gestão e controle para garantir perenidade e longevidade”, afirma Magri.
No entanto, Meinen alerta: “o principal desafio está associado à escala operacional e de capital ainda baixa em um número expressivo de cooperativas, o que dificulta a sustentação de preços mais convidativos que os do mercado e reduz o potencial de novos negócios. Refiro-me, em outras palavras, à (in) eficiência operacional, mitigada apenas parcialmente pela participação em arranjos sistêmicos. Isso tende a minar o poder de competição no mercado, que tem grandes players e outros intensivos em tecnologia”, destaca.
Ele comenta que é necessário preservar a identidade cooperativista, mesmo diante da modernização acelerada. “A solução, não raro, passa pelo adensamento e pelas uniões entre cooperativas, o que vem sendo colocado em prática mais fortemente nos últimos anos. Outro fator que exige cuidado especial são os ataques cibernéticos, requerendo intensificação de investimentos.”
Mesmo diante da transformação acelerada do mercado financeiro, Meinen defende que preservar a essência cooperativista será determinante para a sustentabilidade do setor no longo prazo. “Se quisermos ser apenas mais um banco ou uma simples plataforma tecnológica, a chance de permanecer no mercado é igual a zero”, finaliza.
Por Leticia Rio Branco – Redação MundoCoop

Matéria exclusiva publicada na edição 131 da Revista MundoCoop












