Comme d’habitude ou My Way? O que seremos?

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Você já deve ter ouvido a música “My Way”. Pois então, esses dias me veio à mente traçar um paralelo sobre essa música e o nosso cooperativismo. Importante saber que a origem dessa música é francesa e, fez grande sucesso na Europa, na voz de Claude François, em 1967. Mas, Paul Anka fez uma releitura da versão em francês, manteve a música e alterou sutilmente a letra para fazer brilhar na voz de Frank Sinatra e, a partir daí o mundo todo conheceu “My Way”, inclusive na voz de Elvis.

Segundo dados de streaming para cada 1 vez que a versão francesa tocou, 50 vezes foram tocadas na versão em inglês. Enquanto a primeira tocou dezenas de milhões de vezes, a segunda tocou bilhões de vezes. 

Mas o que isso tem a ver com o nosso cooperativismo? 

Bom, no meu paralelo vejo similaridade entre a música “Comme d’habitude” e o nosso cooperativismo. Pois em ambos encontramos originalidade, força, emoção, beleza e perfeição, contudo, em se tratando de alcance, penetração, capacidade de ser amplamente reconhecidos, ambos ficaram num espaço reduzido, diante do tamanho do seu potencial.

Assim como na música de Claude François, o cooperativismo está presente no dia a dia das pessoas de forma quase invisível (no café, no leite, na salada, na energia, no crédito, no transporte, na saúde…), mas é vivido “como de costume”, sem que as pessoas percebam a profundidade e a capacidade transformadora do modelo. 

Nosso modelo é resiliente e humano, mas por ser pouco compreendido, por vezes, acaba sendo visto como algo local ou setorial, sem o brilho e a grandiosidade que merece. Nosso ‘idioma’, com termos próprios muitas vezes usa uma linguagem técnica, burocrática e interna (“doutrina”, “sobras”, “cota-parte”, “ato cooperativo”). É como uma música linda cantada em um idioma que boa parte do mundo não entende.

Talvez precisemos de uma “releitura de Paul Anka” para atingir os outros 7 bilhões de pessoas no mundo e escalar como o sucesso de Sinatra. Não quero ser herege, mas, entendo que há grandes espaços para uma abordagem mais direta e assertiva, com base em uma profunda revisão do que somos e como podemos de fato ser percebidos. Não se trata de colocar a essência em ‘xeque’, pelo contrário, é sobre lapidar ela e fazê-la naturalmente transbordar a vista de quem a vê. Sabe quando você ouve o canto de um Bem-te-vi? Você não precisa necessariamente ver ele, mas você sabe que é ele, pois seu cérebro reconhece naturalmente o seu canto. É disso que estou falando!

Para que uma ideia se torne global, ela precisa de intérpretes de peso e uma marca forte. O cooperativismo precisa ocupar os palcos locais e globais com a mesma confiança de Sinatra no Madison Square Garden ou Elvis no International Hotel, mostrando que é um modelo de negócios moderno e competitivo, não apenas uma alternativa romântica. Veja que My Way não é sobre o que acontece com você, é sobre o que você faz acontecer. O cooperativismo precisa deixar de ser visto como “ajuda mútua por necessidade” para ser percebido como “autonomia por escolha”. É o “I did it my way” (Eu fiz do meu jeito), cantado como “We do it our way” (nós fazemos do nosso jeito), um jeito inteligente e coletivo. 

Da mesma forma, precisamos universalizar nosso discurso, evidenciando os efeitos positivos da “liberdade econômica e impacto social”, convertendo conceitos técnicos em um hino de empoderamento com propósito de vida e prosperidade coletiva.

Agora, é fundamental entender que embora nossa essência seja indissociada do nós. Não existe o ‘nós’ sem o ‘eu’. Portanto, é elementar focar no resultado individual dentro do objetivo coletivo. Assim como na música, onde o indivíduo se orgulha de sua trajetória, o cooperado deve saber e sentir que o sucesso da cooperativa é a prova da sua própria inteligência, autonomia e consciência.

E ainda, é vital recordar Darwin e nos adaptarmos (com maior velocidade) ao contexto cultural que se molda e remolda. “My Way” funcionou porque falava a língua da cultura da época. O cooperativismo precisa falar a língua da sustentabilidade (ESG), da economia compartilhada, do impacto local e da tecnologia para ressoar com as novas gerações.

Por fim, o cooperativismo é a melodia mais bonita no que se refere a construir um mundo mais justo, equitativo, produtivo e com prosperidade compartilhada, mas diante de seu gigantesco potencial podemos dizer que ainda está sendo cantado em um “palco de bairro”. Transformá-lo em “My Way” significa dar a ele a narrativa de vitória que o mundo está ansioso para ouvir.

O cooperativismo não é sobre “fazer como de costume”; é sobre provar para o mundo que nós fazemos de um jeito onde todos ganham! “E o nosso jeito, o jeito coop”.


*Por Silvio Giusti, Consultor sênior, palestrante e articulista em cooperativismo

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Coluna exclusiva publicada na edição 131 da Revista MundoCoop

Redação

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Informação e inspiração para o cooperativismo.

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