O acesso ao crédito sempre foi um dos motores da expansão do agronegócio brasileiro. No entanto, para uma parcela significativa dos produtores rurais, especialmente os de menor porte, o financiamento ainda representa um obstáculo estrutural. Em um cenário marcado por maior volatilidade climática, exigências regulatórias e custos de produção elevados, a dificuldade de acesso a recursos financeiros se torna um dos pontos críticos para o futuro do campo e do cooperativismo agropecuário.
Embora a agricultura familiar tenha grande peso na produção de alimentos e na geração de empregos no país, o acesso ao crédito rural permanece limitado. Estudo do Climate Policy Initiative (CPI) aponta que apenas cerca de 15% dos agricultores familiares brasileiros conseguem acessar crédito rural, apesar de representarem aproximadamente 75% dos estabelecimentos rurais do país. A desigualdade também se reflete no tamanho das propriedades: produtores com áreas menores têm ainda mais dificuldade de acessar financiamento.
Além disso, a distribuição regional dos recursos revela outra assimetria. Segundo o mesmo estudo, cerca de 70% dos contratos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) estão concentrados na região Sul, enquanto outras regiões enfrentam maior dificuldade de acesso.
Desalinhamento entre crédito e realidade produtiva
Para especialistas que atuam diretamente com cadeias produtivas comunitárias, o problema não está apenas na disponibilidade de recursos, mas no desenho das políticas de financiamento.
Segundo Fernando Moretti, diretor de Políticas em Sociobioeconomia do Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus), existe um distanciamento entre o modelo tradicional de crédito rural e a realidade de muitas atividades produtivas, especialmente em regiões de floresta.

“Hoje existe um desalinhamento estrutural evidente entre o desenho do crédito rural e a realidade da sociobioeconomia.” – Fernando Moretti, diretor de Políticas em Sociobioeconomia do Instituto Conexões Sustentáveis
“Hoje existe um desalinhamento estrutural evidente entre o desenho do crédito rural e a realidade da sociobioeconomia, especialmente na Amazônia Legal. No último ano, cerca de 85% do Pronaf na Amazônia foi destinado à pecuária, enquanto menos de 2% chegou às cadeias da sociobiodiversidade”, afirma.
Moretti explica que atividades como a produção de açaí, castanha, cacau nativo, óleos vegetais e pesca artesanal – frequentemente conduzidas por povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares – ainda têm acesso muito limitado às principais linhas de financiamento.
“Enquanto isso, cadeias como açaí, castanha, cacau nativo, óleos vegetais, pesca artesanal e sistemas agroflorestais seguem praticamente à margem da principal política pública de financiamento da agricultura familiar no Brasil”.
Entre os principais entraves estão exigências incompatíveis com a realidade desses produtores.
“Os gargalos são conhecidos: exigências de garantias incompatíveis com cooperativas e associações, burocracia documental, baixa capilaridade bancária nos territórios remotos, falta de assistência técnica continuada e um modelo de crédito pensado para sistemas convencionais, não para economias de base florestal”.
Cooperativismo financeiro como ponte de acesso
Nesse contexto, as cooperativas de crédito têm assumido um papel relevante na ampliação do acesso ao financiamento rural, especialmente para pequenos produtores.
Para Adriano Michelon, diretor-executivo da Cresol, as mudanças recentes no ambiente econômico e regulatório também influenciam o cenário de crédito no campo.
“Os cenários de modo geral têm mudado, estamos vendo recorrências de fenômenos naturais, novos regramentos de acesso ao crédito para atestar a conformidade das operações e houve uma redução do crédito em nível nacional”.
Mesmo diante desse cenário, instituições com atuação territorial mais próxima do produtor têm buscado adaptar seus modelos de financiamento. “A Cresol tem mantido uma perspectiva diferente, de crescimento, isso englobando Pronaf, Pronamp e demais produtores, justamente por entender a particularidade do produtor e se adaptar às tendências”.
Segundo Michelon, a origem cooperativista do sistema contribui para reduzir parte das barreiras enfrentadas por produtores rurais no sistema financeiro tradicional. “Fomos a primeira cooperativa de crédito formada por agricultores familiares no Brasil, em um contexto motivado pelos desafios de acesso ao crédito na época”.
A adaptação às diferentes realidades produtivas também aparece como um diferencial do modelo cooperativo. “Hoje nós temos um Plano Safra, um plano agrícola, customizado para cada região do país. A gente sabe que a região do litoral tem um tempo do custeio, o Rio Grande do Sul tem outro tempo, o Mato Grosso tem outro tempo”.
“A proximidade é a maior garantia que podemos ter, reduz a assimetria de informações.” – Adriano Michelon, Diretor-executivo da Cresol

Proximidade territorial e análise de risco
Outro fator apontado como decisivo para ampliar o acesso ao crédito é a proximidade entre instituição financeira e produtor. A relação territorial pode reduzir assimetrias de informação e permitir avaliações mais adequadas do risco da atividade agrícola.
“Sem dúvida. Nós costumamos dizer que nossos gerentes agro não precisam inventar foguetes para ir à lua, eles têm apenas que atravessar a rua, ou seja, têm que estar próximo do produtor, acompanhando a vida dele, ser como um assessor de planejamento”, afirma Michelon.
Segundo ele, essa relação direta permite estruturar operações de crédito mais ajustadas à realidade de cada propriedade. “A proximidade é a maior garantia que podemos ter, reduz a assimetria de informações e nos permite fazer uma análise que vai além do score de crédito”.
Novos modelos financeiros e crédito orientado
Além das cooperativas de crédito, outras iniciativas têm buscado desenvolver soluções financeiras adaptadas à realidade de pequenos produtores e empreendimentos comunitários.
No caso da Conexsus, uma das estratégias tem sido atuar na formação de agentes locais capazes de apoiar cooperativas e associações no acesso ao financiamento. “Na Conexsus, entendemos que reduzir risco não é apenas criar novos instrumentos financeiros, mas fortalecer capacidades locais”.
Moretti explica que a organização estruturou a Rede de Ativadores de Crédito Socioambiental – CrediAmbiental, um modelo voltado para apoiar comunidades desde o diagnóstico produtivo até a elaboração de projetos de financiamento. “Esse modelo combina crédito orientado, educação financeira, planejamento produtivo e conexão com mercados institucionais e diferenciados”.
Segundo ele, muitas vezes o problema não está na viabilidade econômica das atividades, mas na ausência de estrutura institucional e documentação adequada. “Muitas vezes, a barreira não é a inadimplência, é a ausência de documentação e acesso a serviços básicos”.
Crédito, sustentabilidade e permanência no campo
À medida que critérios ambientais e sociais passam a ganhar espaço nas políticas financeiras e nas exigências de mercado, surge também a oportunidade de integrar sustentabilidade e acesso ao crédito.
Na visão de Michelon, a agenda ESG pode representar uma vantagem competitiva para produtores organizados. “Na Cresol, vemos a agenda ESG como uma grande aliada do produtor organizado e com um leque de oportunidades”.
Segundo ele, parte relevante da carteira da instituição já está alinhada a critérios ambientais. “Nós temos mais de 50% da nossa carteira agro considerada ambiental, de acordo com a Febraban”.
Para Moretti, quando o crédito é integrado a planejamento produtivo e acesso a mercados, ele também pode contribuir para fortalecer economias locais e ampliar oportunidades para jovens no campo.
“O crédito precisa ser territorializado e integrado a uma estratégia de desenvolvimento local. Não basta oferecer uma linha financeira; é necessário combinar assistência técnica contínua, fortalecimento das cooperativas, planejamento produtivo e conexão com mercados”.
Um desafio estrutural para o futuro do agro
Em um setor cada vez mais orientado por dados, inovação e sustentabilidade, garantir que pequenos produtores tenham acesso a financiamento adequado será decisivo para a competitividade do agro brasileiro.
Para Moretti, o tema exige mudanças estruturais nas políticas públicas e no modelo de financiamento rural que ampliar o acesso ao crédito para cadeias produtivas sustentáveis pode gerar impactos econômicos e sociais relevantes.
“Se a sociobioeconomia for incorporada como política de Estado, os impactos vão além do crédito rural: aumento do PIB, geração de trabalho e renda nos territórios, redução das desigualdades regionais e posicionamento estratégico do Brasil como líder global em economia de base florestal”, conclui.
Crédito rural e pequenos produtores: onde estão os desafios
• Apenas 15% dos agricultores familiares acessam crédito rural (Climate Policy Initiative)
• Agricultores familiares representam 75% dos estabelecimentos rurais do Brasil
• Cerca de 70% do Pronaf está concentrado na região Sul (Climate Policy Initiative)
• 85% do Pronaf na Amazônia foi destinado à pecuária e menos de 2% às cadeias da sociobiodiversidade (Conexsus)
• Cooperativas de crédito ampliam acesso com modelos financeiros territorializados
Por Andrezza Hernandes

Matéria exclusiva publicada na edição 129 da Revista MundoCoop












