A forma como os brasileiros lidam com o dinheiro revela um paradoxo. Ao mesmo tempo em que cresce o acesso a produtos financeiros, ainda falta preparo para decisões de longo prazo. Hoje, 78,8% das famílias estão endividadas no país e 30,4% têm dívidas em atraso, enquanto o número de inadimplentes ultrapassa 71 milhões de pessoas, segundo dados de 2025 da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Esse cenário ajuda a explicar por que a ideia de prosperidade ainda está, muitas vezes, associada às conquistas visíveis e não, necessariamente, à capacidade de sustentar essas escolhas ao longo do tempo. “O que mais revela essa visão limitada é quando prosperidade é confundida apenas com renda, consumo ou patrimônio imediato. Muitas vezes, o cooperado entende riqueza como aquilo que ele consegue comprar hoje, mas nem sempre como aquilo que consegue sustentar ao longo da vida”, afirma Dr. José Cesar Boeira, presidente do Conselho Deliberativo da Quanta Previdência Cooperativa.
Para o executivo, o desafio não está em negar o presente, mas em ampliar o horizonte das decisões financeiras. “Prosperidade não é só acumular. É ter segurança, autonomia, proteção familiar, capacidade de atravessar ciclos econômicos e tranquilidade para fazer escolhas”, complementa.
Essa mudança de perspectiva se torna ainda mais necessária diante de outro dado relevante, 55% dos brasileiros admitem entender pouco ou nada de educação financeira, embora reconheçam sua importância, de acordo com a Febraban. Ou seja, existe consciência, mas ainda falta estrutura para transformar intenção em prática.
Nesse contexto, o cooperativismo aparece como um ambiente capaz de traduzir esse novo conceito de riqueza em ações concretas, ampliando o papel das instituições financeiras na vida das pessoas. “É muito relevante que as pessoas estejam atentas a todas as esferas de suas vidas e compreendam que felicidade e realização vão muito além do mero acúmulo de riqueza”, avalia Dr. Carlos Alberto Mascarenhas, diretor executivo da Sisprime do Brasil.
O desafio de equilibrar presente e futuro
Se os números evidenciam um cenário de pressão financeira, eles também revelam que a prosperidade sustentável não depende apenas de renda, mas de comportamento.
Mesmo entre quem tem acesso a crédito, ainda há dificuldades em transformar esse acesso em planejamento estruturado. O resultado é um ciclo em que decisões de curto prazo se sobrepõem a estratégias de longo prazo. “A diferença principal não está apenas na renda. Está na orientação e na capacidade de planejar”, explica Boeira.

“O dinheiro não é um fim em si mesmo, mas um aliado da felicidade e da realização do indivíduo e de sua família.” – DR. CARLOS ALBERTO MASCARENHAS, DIRETOR EXECUTIVO DA SISPRIME DO BRASIL
Na avaliação do presidente da Quanta Previdência, a construção de estabilidade passa por escolhas consistentes ao longo do tempo, algo que pode ser aprendido e fortalecido dentro do ambiente das cooperativas. “Na prática, o cooperado mais sustentável costuma ter três características: ele organiza o presente, protege os riscos e investe no futuro”, destaca.
Essa mudança de postura também altera a forma como os cooperados se relacionam com produtos e serviços financeiros. “Acredito que isso leva as pessoas a buscar maior segurança e a tomar decisões com mais cautela, menos suscetíveis a promessas de retornos milagrosos que podem resultar em grandes perdas. Há uma mudança de postura: do imediatismo para o planejamento, da reação para a estratégia”, afirma Mascarenhas.
Segundo o executivo da Sisprime, esse movimento está diretamente ligado ao avanço da educação financeira e à proximidade no relacionamento com o cooperado. “Quando o cooperado entende melhor o funcionamento do dinheiro, ele passa a usar os produtos financeiros de forma mais consciente: escolhe o crédito certo para o momento certo, investe com objetivos claros e evita endividamentos desnecessários”, completa.
O papel das cooperativas na construção da prosperidade
A evolução do conceito de riqueza exige também uma mudança estrutural na forma como soluções financeiras são apresentadas. “As soluções financeiras precisam ser pensadas como uma jornada, não como ofertas isoladas”, afirma Boeira.
Nesse modelo, planejamento é a base das decisões, conectando presente e futuro e reduzindo incertezas. “Para o cooperado, isso significa transformar o futuro em um plano. E um plano bem feito reduz improviso. Previdência é isso: menos sorte, mais estratégia”, diz.
Ao mesmo tempo, há um esforço crescente para aproximar temas historicamente técnicos da realidade das pessoas. “Previdência não é sobre parar de trabalhar. É sobre ter liberdade de escolha”, ressalta Boeira.

“Prosperidade não é só acumular. É ter segurança, autonomia, proteção familiar, capacidade de atravessar ciclos econômicos e tranquilidade para fazer escolhas.” – DR. JOSÉ CESAR BOEIRA, PRESIDENTE DO CONSELHO DELIBERATIVO DA QUANTA PREVIDÊNCIA COOPERATIVA
Essa lógica também redefine o papel das cooperativas na relação com seus cooperados. “O olhar de longo prazo é, sem dúvida, um dos aspectos mais transformadores dessa relação. Ele muda o paradigma: deixamos de ser apenas um prestador de serviços financeiros e passamos a ser um parceiro”, afirma Mascarenhas.
Na prática, esse vínculo se traduz em maior engajamento e fidelização. “Com o tempo, esses laços só se fortalecem e todo mundo ganha”, complementa.
O impacto coletivo do longo prazo
Ao ampliar o conceito de riqueza, o cooperativismo não apenas transforma a vida dos indivíduos, mas também fortalece sua própria sustentabilidade. “Quando o cooperado pensa no longo prazo, ele se relaciona de forma mais madura com a cooperativa. Ele deixa de buscar apenas preço, taxa ou retorno imediato e passa a enxergar valor, confiança e continuidade”, afirma Boeira.
Esse movimento se torna ainda mais relevante em cenários de instabilidade econômica, nos quais planejamento e resiliência são determinantes. “Cooperados mais planejados tendem a atravessar crises com mais resiliência. E cooperativas com cooperados mais resilientes também se tornam mais fortes”, avalia.
No fim, a prosperidade sustentável se consolida como uma agenda estratégica para o setor, unindo desenvolvimento econômico, impacto social e bem-estar. “Na minha visão, prosperidade sustentável é isso: crescer sem perder o futuro de vista”, conclui Boeira.
Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop

Matéria exclusiva publicada na edição 131 da Revista MundoCoop












