“Diversidade não é uma pauta moral, mas um ativo de governança”

Primeira mulher negra na direção da Ocergs, Michele Fernandes projeta um cooperativismo mais estratégico

A chegada de Michele Fernandes à direção da Organização das Cooperativas do Estado do Rio Grande do Sul (Ocergs) não é apenas um marco simbólico. É também um movimento que reposiciona o debate sobre liderança, governança e futuro dentro do cooperativismo gaúcho. Primeira mulher negra a ocupar o espaço e única mulher no Conselho de Administração da entidade, ela traz para o centro das decisões uma trajetória construída no cooperativismo de trabalho, marcada pela gestão, pela inclusão e pela articulação institucional.

Presidente da Federação das Cooperativas de Trabalho do Rio Grande do Sul (Fetrabalho/RS) e vice-presidente da Cootravipa, Michele construiu sua atuação ao longo de mais de uma década no cooperativismo, com passagem pelas áreas jurídica e de recursos humanos e foco no desenvolvimento de equipes e em iniciativas de inclusão social.

Advogada com 19 anos de experiência e pós-graduada em Gestão de Cooperativas, ela chega à direção da Ocergs representando um ramo diretamente ligado à geração de renda e à inclusão produtiva, além de uma federação que atua na articulação política e institucional do setor. Sua trajetória também se conecta aos resultados da Cootravipa, que registrou crescimento de 109% na receita bruta em quatro anos e ampliou seu quadro para mais de 3,6 mil associados, reforçando a dimensão de sua liderança.

Nesta entrevista exclusiva, Michele reflete sobre os desafios de ocupar espaços historicamente homogêneos, a importância de transformar diversidade em ativo estratégico e o papel de lideranças com vivência prática na construção de um cooperativismo mais inovador, plural e preparado para as transformações do mundo do trabalho.

Confira!

A sua chegada à direção da Ocergs marca um momento histórico. O que esse avanço representa, na prática, para outras mulheres negras que ainda não se veem nesses espaços de liderança?

Minha chegada representa a quebra de um teto de vidro que, por muito tempo, pareceu intransponível. Na prática, isso sinaliza para outras mulheres negras que nossas competências em gestão, governança e liderança são fundamentais para o desenvolvimento de um cooperativismo inclusivo, conectado com a vanguarda das boas práticas de governança. Representa que a “porta está aberta” não por concessão, mas por mérito e necessidade estratégica do sistema como um todo.

Quando uma mulher negra ocupa esse espaço, ela quebra paradigmas históricos, alterando o imaginário coletivo sobre quem tem capacidade técnica e autoridade institucional para decidir os rumos do cooperativismo gaúcho.

Sendo hoje a única mulher no Conselho de Administração da Ocergs, como você enxerga os desafios e as responsabilidades de ocupar esse lugar, do ponto de vista institucional e simbólico?

Do ponto de vista simbólico, é uma honra.  Do ponto de vista institucional, é um chamado à ação. Ocupar o Conselho de Administração da OCERGS é, acima de tudo, um compromisso com a governança e com o futuro do cooperativismo. Minha responsabilidade é garantir que as decisões do Conselho reflitam a pluralidade da nossa base. Ser a única mulher hoje não muda minha competência técnica, mas amplia meu olhar para questões de sucessão e inclusão que são vitais para a sustentabilidade das cooperativas.

Estar no Conselho de Administração prova que as portas estão abertas, mas reforça que ainda temos um caminho a percorrer para que a liderança feminina não seja a exceção, mas a regra. Meu desafio é honrar essa cadeira para que, em breve, eu não seja mais a única.

Na sua visão, o que ainda impede que a representatividade feminina e negra deixe de ser tratada como marco e passe a ser parte natural da liderança?

O que ainda impede essa naturalização é a persistência de estruturas institucionais tradicionalmente masculinas que privilegiam redes de contatos homogêneas. A representatividade deixará de ser um ‘marco’ quando entendermos que diversidade não é uma pauta moral, mas um ativo de governança. Líderes diversos trazem percepções e soluções diferentes para problemas complexos, gerindo diferencial competitivo e desenvolvimento de seus modelos de negócios. Quando o mercado e o sistema cooperativista medirem o sucesso da gestão também pela capacidade de inclusão, a presença feminina e negra será vista como o padrão de excelência que ela é.

Ao longo da sua trajetória no cooperativismo de trabalho, quais foram as principais barreiras enfrentadas no caminho até posições de liderança?

Foram barreiras comuns a todas as mulheres que vivenciam o mercado de trabalho brasileiro: necessidade de validação constante da capacidade e  questionamento velado da autoridade técnica. Por isso, o apoio e confiança da alta gestão de minha cooperativa, que é presidida por uma mulher, foram fundamentais para que pudesse me desenvolver como profissional, bem como aproveitar as oportunidades oferecidas. Esse apoio me permitiu desenvolver tanto uma gestão voltada para resultado como vice-presidente dentro de minha cooperativa, quanto na representatividade institucional como presidente da Fetrabalho.   

À frente da Fetrabalho/RS, você já atua na articulação política e institucional do setor. Quais serão suas principais pautas e prioridades agora dentro da direção da Ocergs?

Minhas prioridades são nítidas e fundamentadas no compromisso com o desenvolvimento da nossa base. Tenho como foco fortalecer a segurança jurídica do cooperativismo de trabalho, fortalecer as boas práticas de cooperativismo, impulsionar o desenvolvimento do ramo através do acesso à capacitação de qualidade, buscar oportunidades de novos negócios, além de fomentar um ecossistema inclusivo e plural através do fortalecimento dos comitês e projetos existentes, contribuindo para que OCERGS-SESCOOP/RS seja um suporte ainda mais relevante e robusto para o cooperativismo

O crescimento expressivo da Cootravipa evidencia a força do cooperativismo de trabalho. Como essa experiência pode contribuir para reposicionar o setor diante das mudanças no mundo do trabalho e nas formas de organização econômica?

A Cootravipa é a prova viva de que o cooperativismo de trabalho é a resposta para a autêntica inclusão social e que através dela se promove a geração de renda em um ambiente digno e seguro. Nossa experiência mostra que é possível ter escala, tecnologia e alta eficiência operacional sem abrir mão do desenvolvimento socioeconômico.

Queremos reposicionar o setor não como uma alternativa secundária, mas como a forma mais moderna e justa de organização econômica e empreendedorismo coletivo na era em que o trabalhador é, de fato, o dono do negócio e através dele protagonista de sua própria história.

Como a presença de profissionais com experiência prática, visão social e vivências diversas em cargos de decisão pode influenciar diretamente a inovação e a capacidade de resposta do cooperativismo aos desafios futuros?

A inovação nasce do desconforto e da diferença. Quem vive a prática e entende as nuances sociais traz uma capacidade de resposta muito mais rápida às crises. No conselho, minha vivência me permite enxergar riscos e oportunidades que uma liderança tradicionalmente homogênea poderia ignorar. Inovar no cooperativismo não é apenas sobre tecnologia, é sobre processos humanos e sociais que geram resiliência e impacto social.

“A diversidade é o motor da nossa capacidade de resposta aos desafios futuros do mercado, sendo elemento fundamental para a sustentabilidade do nosso modelo de negócio.”


Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop

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