O primeiro dia da 31ª Agrishow confirmou um movimento crescente e já esperado pelo mercado agro: as cooperativas deixaram de ser coadjuvantes e assumiram papel central nos negócios, na oferta de crédito e na integração de tecnologia ao produtor rural. Em meio a um cenário de juros elevados e custos pressionados, o modelo cooperativo se apresentou como o articulador entre demanda por eficiência e soluções financeiras viáveis.
A feira, que teve início na última segunda-feira (27/4) e segue até 1º de maio em Ribeirão Preto (SP), reafirmou sua posição como o principal ambiente de negócios do agronegócio brasileiro e um dos mais relevantes do mundo. Na edição anterior, realizada em 2025, o evento recebeu mais de 197 mil visitantes de todas as regiões do Brasil e de mais de 50 países, evidenciando a dimensão global do encontro.
Nesse contexto, a MundoCoop acompanhou de perto a atuação das cooperativas no primeiro dia de evento. A participação do setor nesta edição apresentou um movimento ainda mais estruturado, no qual as cooperativas assumiram protagonismo ao conectar crédito, tecnologia e suporte técnico em um mesmo ambiente.
Crédito orienta investimento
O crédito cooperativo se manteve como um dos principais motores da Agrishow, ao mesmo tempo em que o comportamento do produtor indicou uma mudança na forma de acessar esse recurso.
A busca deixou de estar centrada apenas na obtenção de financiamento e passou a incorporar critérios como orientação, previsibilidade e adequação à realidade de cada propriedade. Em entrevista exclusiva à MundoCoop, Marcelo Ludvichak, diretor de negócios da Cresol, avaliou que a presença na feira esteve diretamente relacionada à necessidade de compreender o momento do produtor e oferecer suporte para suas decisões de investimento. Para ele, a atuação da cooperativa passa por um atendimento próximo e pela capacidade de estruturar soluções aderentes à realidade do campo. “Nossa proposta na Agrishow é atender o cooperado, entender suas necessidades e apoiá-lo financeiramente nos investimentos que pretende realizar. Colocamos à disposição todo o nosso portfólio para viabilizar esses projetos”, afirmou.
Ludvichak observou que o comportamento dos produtores ao longo do primeiro dia reforçou a continuidade dos investimentos, mesmo diante de um cenário mais desafiador. Segundo ele, o produtor seguiu mantendo sua atividade em movimento e buscando alternativas para sustentar a produção. “Mesmo sendo o início da feira, já percebemos que os cooperados seguem investindo e mantendo suas atividades em movimento. O produtor continua produzindo, e nosso papel é apoiar esse processo desde o começo”, completou.



A dinâmica observada também se relacionou à forma como as cooperativas operam no território, com forte presença local e proximidade com o produtor. À MundoCoop, Gilson Nogueira Farias, gerente de negócios da Central Sicredi PR/SP/RJ, destacou que o modelo permite uma leitura mais precisa das necessidades do campo e contribui para decisões mais ágeis. “Esse modelo de relacionamento permite oferecer soluções mais adequadas e com maior agilidade. Em muitas regiões, somos a única instituição financeira presente, o que reforça nosso papel no desenvolvimento do agro”, afirmou.
O executivo ainda defende que essa proximidade com o produtor se consolidou como um dos principais diferenciais do cooperativismo de crédito, ao facilitar o acesso e a adequação das soluções financeiras. “As cooperativas estão próximas do produtor e conseguem compreender melhor suas necessidades, o que facilita o acesso ao crédito e fortalece o desenvolvimento das comunidades”, acrescentou.
O movimento de proximidade com o produtortambém se refletiu nos volumes projetados pelas instituições financeiras cooperativas durante o evento. O Sicoob, por exemplo, estimou movimentar R$ 2,4 bilhões em negócios na edição de 2026, com crescimento em relação ao ano anterior, indicando a consistência da demanda por crédito mesmo em um cenário econômico mais restritivo.
Para Rodrigo Matheus Silva de Moraes, diretor executivo do Sicoob Central São Paulo, o comportamento está associado a uma maior racionalidade nas decisões de investimento. “O produtor rural está cada vez mais atento à eficiência dos investimentos. Nosso papel é oferecer soluções sob medida, com orientação qualificada, apoiando decisões mais assertivas”, afirmou.
Tecnologia como aliada da margem
Se o crédito viabilizou investimentos, a tecnologia apareceu como o principal caminho para garantir retorno dentro das propriedades. Em um ambiente de maior pressão sobre custos e margens, a busca por eficiência ganhou protagonismo.

Rodrigo Madeira, gerente de negócios da Jacto, explicou que as soluções apresentadas estiveram diretamente conectadas à necessidade de produzir mais com melhor uso de recursos. De acordo com o Rodrigo, o avanço tecnológico no campo tem sido direcionado para ganhos de produtividade aliados à redução de custos operacionais. “O foco das nossas soluções é aumentar a produtividade com mais eficiência, permitindo que o produtor produza mais, utilizando menos insumos e com maior qualidade na aplicação”, afirmou.
A leitura do comportamento dos produtores ao longo da feira também apontou para um cenário de maior cautela, sem interromper a busca por inovação. Madeira observou que, diante de um mercado mais competitivo, a eficiência operacional se tornou decisiva para a sustentabilidade do negócio. “O agricultor está mais cauteloso diante do cenário atual, mas continua buscando tecnologia. Em um ambiente de custos elevados, a eficiência operacional passa a ser o principal diferencial”, destacou.
Além das soluções voltadas à mecanização e à aplicação de insumos, a tecnologia também avançou em áreas ligadas à gestão e ao manejo no campo. Nesse contexto, a Belgo Arames apresentou, durante a feira, iniciativas voltadas ao aumento da eficiência operacional nas propriedades, combinando inovação tecnológica com capacitação prática do produtor.
Entre os destaques está a evolução do sistema de monitoramento inteligente de gado desenvolvido em parceria com a startup Instabov, solução que combina dispositivos eletrônicos, antenas e um aplicativo para acompanhar o comportamento dos animais em tempo real e ampliar o controle sobre a operação. A nova versão passou a contar com comunicação via satélite, ampliando a cobertura de monitoramento e reduzindo a dependência de infraestrutura nas propriedades.
A proposta, segundo Bruno Nolasco, gerente de negócios agro da Belgo Arames, está diretamente relacionada à otimização do tempo e à melhoria da gestão dentro da fazenda. “O principal ganho está na otimização do tempo. O produtor deixa de gastar horas com atividades operacionais e pode direcionar esse tempo para melhorar a gestão da propriedade”, afirma.

Além da tecnologia aplicada ao monitoramento, a empresa também apresentou o e-book gratuito “Guia Prático de Cercas Rurais Eficientes”, que reúne orientações sobre planejamento, escolha de materiais, execução e manutenção de cercas. O material busca suprir uma lacuna técnica ainda presente no campo, especialmente diante da redução da mão de obra especializada e da necessidade de adoção de práticas mais modernas.
Nolasco destaca que a iniciativa tem como objetivo ampliar o acesso à informação e apoiar o produtor na tomada de decisão dentro da propriedade. “Hoje existe uma carência de mão de obra qualificada no campo, e muitas técnicas acabam se perdendo. A ideia é oferecer conhecimento acessível para que o produtor consiga executar ou acompanhar melhor essas atividades”, completa.
Nesse contexto, as soluções apresentadas caminharam no sentido de maior precisão, automação e redução de desperdícios, ampliando a capacidade de gestão dentro da propriedade. “A proposta é entregar um conjunto de tecnologias que permita produzir melhor e com mais rentabilidade, mesmo em um mercado mais competitivo”, finalizou Madeira.
Educação financeira amplia impacto
Além da dimensão econômica e produtiva, a presença das cooperativas na feira também evidenciou seu papel na geração de impacto social e no desenvolvimento das comunidades. Iniciativas voltadas à formação, educação financeira e capacitação reforçaram que o modelo cooperativo tem atuado arduamente de forma integrada, a fim de combinar resultados econômicos com desenvolvimento humano.

Gledson Viana, diretor do Instituto Credicitrus, destacou à MundoCoop que a educação financeira tem papel central nesse processo ao influenciar diretamente a tomada de decisão das pessoas. Para o Instituto, o acesso ao conhecimento gera efeitos que vão além da gestão individual e impactam toda a dinâmica econômica das comunidades. “A educação financeira é um dos pilares mais importantes, porque influencia diretamente a forma como as pessoas tomam decisões. Quando esse conhecimento evolui, uma série de outras questões também melhora”, afirmou.
Além da educação financeira, Gledson aponta como o cooperativismo se diferencia por equilibrar crescimento econômico e distribuição de resultados, mantendo princípios que fortalecem o coletivo. “É um modelo que consegue gerar riqueza e, ao mesmo tempo, distribuí-la, mantendo princípios como participação e desenvolvimento coletivo”, avaliou.
Protagonismo em um agro mais estratégico
Ao reunir tecnologia, crédito e soluções integradas, a Agrishow reforçou seu papel como um dos principais espaços de articulação do agronegócio brasileiro. Em um cenário de maior complexidade, o produtor passou a demandar eficiência, previsibilidade e parceiros capazes de acompanhar essa transformação.
Nesse ambiente, o cooperativismo novamente se consolidou como um dos principais agentes desse processo com a integração de diferentes frentes de atuação e manutenção da proximidade com o produtor.
A participação do setor cooperativo na Agrishow 2026 evidenciou que cooperativas estão no centro de um ecossistema que combina financiamento, tecnologia e orientação técnica.
Por João Victor, Redação MundoCoop
*O jornalista esteve na Agrishow a convite da Belgo Arames.












