A inovação já ocupa espaço relevante na agenda das cooperativas brasileiras, embora sua incorporação à estratégia, ao orçamento e às estruturas de gestão ainda avance de forma desigual. A 3ª Pesquisa de Inovação no Cooperativismo Brasileiro, publicada pelo Sistema OCB na última segunda-feira (19), ouviu 1.340 cooperativas de todas as regiões do país e registrou a maior amostra das três edições do levantamento.
Entre as respondentes, 77% se consideram abertas à inovação, enquanto apenas 13,6% possuem metas e acompanhamento formalizados. A distância também aparece na estrutura: 37,2% não contam com uma área dedicada ao tema, 48% destinam nenhum recurso ou menos de 1% do orçamento à inovação e somente 36% incluem o assunto como objetivo no planejamento estratégico.
Os resultados mostram um cenário em que a disposição para inovar já está disseminada, embora a institucionalização ainda encontre limitações. A pesquisa relaciona maior maturidade à existência de estruturas formais, participação da liderança, investimento e acompanhamento dos projetos, fatores que também aparecem associados a uma execução mais intensa das iniciativas.
Estrutura da inovação
A maior parte das cooperativas ainda mantém uma carteira relativamente concentrada de iniciativas: 56,9% desenvolvem de um a cinco projetos de inovação. Ao mesmo tempo, a responsabilidade pelas decisões permanece fortemente ligada aos níveis superiores da gestão. Em 45,1% das respondentes, a estratégia é definida pela diretoria ou presidência; em outros 20,4%, a alta liderança divide essa atribuição com uma área ou comitê especializado. Já 17,1% não possuem ninguém formalmente responsável pelo tema.
A formação das equipes também revela diferentes níveis de maturidade. Um quarto das cooperativas possui programas estruturados e contínuos de capacitação em inovação, enquanto 35% realizaram ações pontuais ou sem continuidade. Outros 19% chegaram a discutir o tema, porém ainda não transformaram a intenção em uma iniciativa concreta.
A incorporação de novas tecnologias já aparece com maior intensidade na operação. Seis em cada dez respondentes (60,9%) afirmam utilizar alguma solução de inteligência artificial, principalmente em chatbots e assistentes virtuais, aplicações generativas, análise de dados e automação de processos. O avanço ilustra como determinadas ferramentas podem ganhar espaço antes que toda a estrutura de inovação esteja formalizada.
Principais barreiras
A percepção das próprias cooperativas ajuda a dimensionar o espaço que ainda existe para avançar. Quando comparadas aos concorrentes, 50,3% acreditam estar atrás em inovação, 26,3% se consideram no mesmo nível e 23,5% avaliam estar à frente. Mesmo quando a comparação ocorre apenas com outras cooperativas, 40% ainda se enxergam em posição inferior.
O orçamento aparece como o obstáculo mais citado para transformar projetos em execução: 51,1% apontam a falta de recursos como dificuldade para implementar inovação. Resistência à mudança é mencionada por 47,3%, seguida pela falta de conhecimento (35,9%), complexidade tecnológica (31,6%) e falta de interesse dos cooperados (30,8%).
Mesmo entre as iniciativas que já saíram do papel, medir resultados ainda representa uma frente de desenvolvimento. A melhoria de processos e a redução de custos são os impactos mais citados, por 44% das respondentes, enquanto 26,2% ainda não identificaram resultados associados às iniciativas e 9,1% apontaram a chegada a novos mercados.
Fomento ainda é pouco explorado
A restrição orçamentária convive com um conhecimento ainda limitado sobre mecanismos externos de apoio à inovação. A pesquisa mostra que 79,8% das cooperativas conhecem pouco ou ainda não conhecem o ecossistema de fomento. Dentro desse grupo, 44,3% afirmam desconhecer essas possibilidades e 35,4% estão apenas começando a conhecê-las.
Na outra ponta, somente 10,3% dizem conhecer as principais fontes disponíveis, 6,6% já participaram de algum edital ou programa e 3,2% captam recursos de fomento com frequência. Os números indicam que a busca por financiamento externo ainda ocupa uma parcela reduzida das estratégias de inovação das cooperativas.
A falta de informação sobre oportunidades aparece como principal barreira, citada por 56,3%. A ausência de uma equipe interna dedicada à captação é apontada por 42,5%, e 37,8% mencionam dificuldades para elaborar projetos técnicos. Burocracia, frequentemente associada ao acesso a recursos, aparece depois, com 23,9%.
Parcerias e pesquisa
Quando buscam parceiros para inovar, as cooperativas recorrem principalmente ao próprio ecossistema cooperativo. O Sistema OCB é mencionado por 39,7% das respondentes, enquanto outras cooperativas aparecem em 33%.
A conexão com atores tradicionalmente ligados à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico permanece menor. Universidades e centros de P&D aparecem entre os parceiros de 16,6% das cooperativas e startups, de 15,2%. A relação com pesquisa científica é ainda mais restrita: 66,9% das respondentes afirmam não manter nenhum vínculo com esse campo.
Entre aquelas que possuem alguma aproximação com a ciência, compartilhar dados para pesquisas é a prática mais recorrente, mencionada por 17,4%. Parcerias formais com universidades chegam a 9,1%. Em relação à estrutura interna, 27% já possuem uma área de P&D ou estão organizando uma, enquanto 35,9% não contam com esse tipo de estrutura e também não planejam criá-la.
O que diferencia quem mais inova
Os resultados finais da pesquisa ajudam a identificar características comuns entre organizações que conseguem transformar a inovação em uma atividade mais recorrente. Entre as cooperativas com área dedicada e equipe própria, 69,6% implementaram seis ou mais projetos de inovação nos últimos dois anos. O percentual chega a 47,8% entre aquelas que se classificam como muito abertas e inovadoras.
A participação direta da liderança também aparece associada a uma execução maior: entre as cooperativas nas quais a alta gestão decide, patrocina e atua como referência na cultura de inovação, 46% desenvolveram seis ou mais projetos no período. Entre aquelas que destinam 3% ou mais do orçamento à área, a proporção alcança 40,7%.
O efeito combinado de cultura e investimento também aparece em outros resultados do levantamento. Entre as organizações classificadas como muito abertas e inovadoras, 76,7% destinam pelo menos 1% do orçamento à inovação e 47,8% implementaram seis ou mais projetos em dois anos. Nas cooperativas consideradas moderadamente conservadoras, os percentuais caem para 29,8% e 8,2%, respectivamente.
Por Redação MundoCoop com informações do Sistema OCB












