A confiança se tornou um dos ativos mais importantes do sistema financeiro, especialmente em um contexto de transformações tecnológicas, incertezas econômicas e mudanças no comportamento dos consumidores. É nesse cenário que o cooperativismo de crédito celebra, nesta quinta-feira, 15 de outubro, o Dia Internacional das Cooperativas de Crédito (DICC), uma data que destaca a contribuição do modelo para ampliar o acesso a serviços financeiros, fortalecer economias locais e promover o desenvolvimento das comunidades.
Em sua 78ª edição, a comemoração traz o tema “Finanças Cooperativas: um sinal firme em um mundo ruidoso” (Cooperative Finance: A Steady Signal in a Noisy World, no original), definido pelo Conselho Mundial de Cooperativas de Crédito (WOCCU) e pela Fundação Mundial para Cooperativas de Crédito (WFCU). A proposta é destacar características que diferenciam o modelo cooperativo como a confiança, a estabilidade e o compromisso com as pessoas, em um ambiente financeiro cada vez mais complexo.
A mensagem também propõe uma reflexão sobre o papel dessas instituições para além da oferta de produtos e serviços. Em vez de priorizar exclusivamente o retorno financeiro, as cooperativas têm como finalidade atender às necessidades de seus cooperados, que são simultaneamente usuários e donos do negócio, participam das decisões e compartilham os resultados da atividade.
No Brasil, o cooperativismo de crédito reúne 22,9 milhões de cooperados, o equivalente a 8,4% da população. O segmento registra, em média, mais de 1 milhão de novas adesões por ano e amplia sua presença em diferentes regiões do país. Em 1.072 municípios, as cooperativas são a única instituição financeira com atendimento presencial, desempenhando um papel importante na inclusão financeira.
Uma celebração que atravessa fronteiras
A história do DICC começou antes de sua consolidação internacional. Em 17 de janeiro de 1927, a Credit Union League de Massachusetts, nos Estados Unidos, promoveu a primeira comemoração oficial dedicada aos associados e trabalhadores de cooperativas de crédito. A iniciativa, no entanto, não se manteve por muito tempo.
Em 1948, a Associação Nacional de Cooperativas de Crédito dos Estados Unidos (CUNA) retomou a proposta e estabeleceu a terceira quinta-feira de outubro como data anual de celebração. O objetivo era reconhecer os avanços do movimento, homenagear seus pioneiros e ampliar o conhecimento público sobre o modelo cooperativo.
Com a expansão das cooperativas de crédito para outros países, a mobilização ganhou alcance internacional. Desde a década de 1970, o WOCCU passou a contribuir para a disseminação de materiais e iniciativas que conectam instituições de diferentes regiões. Ao longo das décadas, a data se consolidou como um momento de valorização da identidade cooperativa, de compartilhamento de experiências e de aproximação com a sociedade.
Hoje, as comemorações incluem campanhas de conscientização, atividades educativas, ações de voluntariado e encontros com cooperados e comunidades. Mais do que uma celebração institucional, o DICC busca tornar visível a contribuição de um modelo financeiro baseado na participação, na ajuda mútua e na responsabilidade coletiva.
Um movimento de alcance global
A dimensão internacional do cooperativismo de crédito ajuda a compreender a relevância da data. De acordo com o relatório estatístico de 2024 do WOCCU, publicado em outubro de 2025, o movimento reunia 412,7 milhões de associados, distribuídos por 67.137 cooperativas de crédito em 101 países. Os ativos totais ultrapassavam US$ 3,8 trilhões.
Esses números evidenciam que o cooperativismo financeiro ocupa um espaço significativo na economia mundial. Sua atuação, porém, não se resume à escala: a proximidade com os associados e o conhecimento das realidades locais permitem desenvolver soluções financeiras ajustadas às necessidades de pessoas, produtores rurais e pequenos negócios.
Em regiões com menor oferta de serviços financeiros, essa presença pode representar uma alternativa concreta de acesso ao crédito, à poupança e a outros instrumentos essenciais para a organização da vida financeira. Ao financiar atividades produtivas e manter relações econômicas com as comunidades em que estão inseridas, as cooperativas também contribuem para a circulação de recursos nas economias locais.
O impacto depende, entretanto, de fatores como capacidade de gestão, sustentabilidade financeira, governança e qualidade dos serviços. A identidade cooperativa, por si só, não elimina os riscos da atividade financeira: é a combinação entre princípios, eficiência e responsabilidade que permite transformar o propósito em resultados duradouros.
Brasil supera R$ 1 trilhão em ativos
No país, a trajetória de expansão do cooperativismo de crédito reforça a relevância econômica do segmento. Segundo o Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo, divulgado pelo Banco Central em 2026, os ativos totais ultrapassaram R$ 1 trilhão em 2025.
A presença territorial também se destaca: ao final de 2025, o sistema alcançava 59% dos municípios brasileiros. Essa capilaridade amplia as possibilidades de atendimento a públicos e atividades econômicas que nem sempre encontram as mesmas alternativas de acesso ao crédito em outras instituições financeiras.
O Banco Central também aponta que a expansão das operações de crédito sustentou parte importante do crescimento dos ativos, com financiamento a micro, pequenas e médias empresas e ao setor agroindustrial. O segmento manteve resultados agregados positivos e índices de capital considerados confortáveis em relação aos limites prudenciais, embora o risco da carteira de crédito tenha aumentado durante o ano.
O avanço, portanto, traz oportunidades e responsabilidades. À medida que ampliam sua participação no sistema financeiro, as cooperativas precisam conciliar crescimento, competitividade e inovação com a preservação dos princípios que fundamentam o modelo. Isso inclui aprimorar a governança, fortalecer a gestão de riscos, acompanhar a transformação digital e manter o relacionamento com os cooperados no centro das decisões.
Confiança como diferencial e compromisso
O tema escolhido para o DICC 2026 coloca a confiança no centro do debate. Em um mercado no qual a tecnologia acelera operações e amplia a oferta de serviços, a proximidade com o cooperado pode representar uma vantagem importante, desde que acompanhada de segurança, transparência e capacidade de resposta às novas demandas.
A natureza democrática das cooperativas também confere particularidade ao modelo. Os associados não são apenas clientes: participam da organização e têm voz em sua governança, conforme as regras de cada instituição. Essa relação cria uma oportunidade de alinhar a atividade financeira às necessidades dos membros e às condições econômicas das comunidades atendidas.
Transformar esse diferencial em valor concreto, contudo, exige mais do que comunicar princípios. A confiança precisa se refletir em decisões responsáveis, atendimento consistente, educação financeira e soluções adequadas aos diferentes perfis de cooperados. Em paralelo, o crescimento do setor aumenta a necessidade de estruturas robustas de controle, gestão e inovação.
Ao celebrar 78 anos, o Dia Internacional das Cooperativas de Crédito reafirma a importância de um movimento que conecta milhões de pessoas em torno de uma proposta comum: utilizar a cooperação como instrumento de desenvolvimento econômico e social. No Brasil, os números mostram que esse modelo conquistou escala e relevância. O desafio agora é fazer com que essa expansão continue acompanhada de qualidade, solidez e benefícios percebidos pelos cooperados.
Em um mundo financeiro cada vez mais ruidoso, o sinal que o cooperativismo pretende transmitir não depende apenas de sua história ou de seus valores. Depende, sobretudo, de sua capacidade de demonstrar, na prática, que confiança, participação e eficiência podem caminhar juntas.
Por Redação MundoCoop












