Quem educa a aldeia?
Há uma frase, geralmente atribuída a um provérbio africano, que atravessou gerações e fronteiras: é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.
É uma das ideias mais bonitas já ditas sobre educação. Talvez sua maior limitação seja terminar cedo demais.
Porque a criança cresce. Torna-se adulta, trabalha, empreende, decide, vota. Passa a fazer parte da própria aldeia. E então surge a pergunta que quase nunca fazemos: quem educa a aldeia depois que a criança cresce?
A pergunta parece filosófica até colocarmos alguns números sobre a mesa.
O cooperativismo brasileiro chegou a 2025 com 4.400 cooperativas, 29.029.487 cooperados e 613.375 empregados. Registrou R$ 848,38 bilhões em ingressos, somou R$ 1,60 trilhão em ativos e gerou R$ 61,28 bilhões em sobras. Em um ano, a base de cooperados cresceu 12,5%. Desde 2019, quando eram 15,5 milhões, entraram em média cerca de 6.160 pessoas por dia.
Vale parar nesse último número. São 6.160 pessoas por dia, que se tornam donas de um negócio sem necessariamente saber o que isso significa. Nenhuma empresa convencional precisa explicar a seus clientes que eles são proprietários. A cooperativa precisa. E precisa fazer isso numa velocidade que nenhum modelo tradicional de formação foi desenhado para acompanhar.
É uma aldeia com dimensão de nação. E nenhum desses indicadores responde a uma pergunta decisiva: quanto conhecimento essa aldeia está produzindo, distribuindo e transformando em capacidade? Uma cooperativa é uma aldeia de adultos — e adultos também precisam de uma aldeia para aprender.
O quinto princípio: a condição para os outros seis
O quinto princípio cooperativista — Educação, Formação e Informação — costuma ser lembrado como uma obrigação. Lido com atenção, é uma estratégia.
Ele estabelece que as cooperativas promovam educação e formação para seus associados, representantes eleitos, administradores e empregados, para que possam contribuir efetivamente para o desenvolvimento da organização. E que informem o público em geral, sobretudo os jovens, sobre a natureza e os benefícios da cooperação.
Há uma palavra nessa definição que muda tudo: desenvolvimento.
O objetivo não é transmitir conteúdo. É ampliar a capacidade das pessoas de fazer a organização avançar. A distinção é enorme, porque, se educação é capacidade, ela não pode ser medida apenas por cursos realizados, horas de treinamento ou certificados emitidos. Esses são indicadores de esforço, não de resultado. Contam o que a organização fez, não o que as pessoas se tornaram. A pergunta passa a ser outra:
O que as pessoas passaram a ser capazes de fazer depois de aprender?
Há também uma razão histórica para levar esse princípio a sério. Os 28 pioneiros que fundaram a cooperativa de Rochdale, em 1844, sabiam que não bastava abrir um armazém: era preciso formar pessoas capazes de governá-lo. O cooperativismo moderno nasceu como uma ideia econômica que dependia de uma ideia educacional. Sem a segunda, a primeira não se sustenta.
Por isso o quinto princípio não é apenas um dos sete: é a condição para que os outros seis continuem vivos. A adesão livre e voluntária exige quem saiba a que está aderindo. A gestão democrática exige quem saiba decidir. A participação econômica exige quem compreenda o próprio capital. A autonomia exige quem saiba governar. A intercooperação e o interesse pela comunidade exigem quem enxergue além da própria transação.
Sem educação, os princípios viram texto de estatuto. Com ela, viram vantagem competitiva.
Educação como infraestrutura: aprender para continuar crescendo
Durante muito tempo, falar em crescimento cooperativista significou olhar para o número de cooperativas, cooperados, ingressos, ativos, empregos e presença territorial. Esses indicadores continuam fundamentais. Mas organizações que atingem certa escala passam por uma mudança de natureza.
No início, a pergunta é: como crescer? Depois, passa a ser: como continuar crescendo sem perder a capacidade de adaptação?
A diferença é decisiva. Crescimento pode ser resultado de escala. Adaptação exige aprendizagem. E os mercados em que as cooperativas competem — financeiro, saúde, agronegócio, energia, consumo — estão entre os que mais rapidamente se transformam com regulação, digitalização e novos entrantes. Nesses mercados, quem aprende devagar não fica parado: fica para trás.
Uma cooperativa pode comprar tecnologia, contratar sistemas, adquirir máquinas, abrir unidades e incorporar processos. Mas não consegue comprar, pronta, a capacidade humana de interpretar mudanças, tomar boas decisões e inventar respostas para problemas que ainda não existem. Essa capacidade precisa ser construída — e construída dentro da própria rede.
Tecnologia se compra. Capacidade de aprender, não.
A ideia não é nova na gestão. No fim dos anos 1980, Arie de Geus, então responsável pelo planejamento estratégico da Shell, sustentou que a capacidade de aprender mais rápido do que os concorrentes talvez fosse a única vantagem competitiva sustentável. Pouco depois, Peter Senge transformou essa intuição no conceito de organização que aprende.
O que raramente se observa é que o cooperativismo tem uma vantagem estrutural nessa corrida: seus donos estão dentro da organização. Numa empresa convencional, o acionista não precisa aprender para que o negócio aprenda. Numa cooperativa, a aprendizagem dos donos é a aprendizagem da organização. Isso torna a educação um risco quando negligenciada — e uma alavanca sem paralelo quando levada a sério.
O que qualquer concorrente pode adquirir no mercado não diferencia ninguém por muito tempo. Já uma base de donos que entende, participa e defende o próprio negócio só se constrói com tempo, vínculo e confiança — e é difícil de imitar. Educação, nesse sentido, não é custo de conformidade. É a construção de um ativo que não aparece no balanço, mas sustenta todos os outros.
Por isso o debate sobre educação precisa sair da lógica do treinamento e entrar na lógica da infraestrutura de conhecimento. Treinamento é um evento: começa, termina, emite certificado. Infraestrutura é permanente. Como estradas, redes de energia ou sistemas financeiros, ela quase não é notada quando funciona — mas tudo para quando falha.
Uma infraestrutura de conhecimento é o conjunto de pessoas, conteúdos, relações, espaços e dados que permite a uma rede aprender continuamente, em todos os seus níveis: do cooperado que acabou de chegar ao conselho de administração.
O paradoxo dos 29 milhões
Construir essa infraestrutura esbarra, porém, no problema central.
A mesma rede que reúne 29 milhões de cooperados reúne trajetórias educacionais completamente diferentes. Segundo o AnuárioCoop 2026, entre os cooperados com escolaridade informada, 14,76% não têm escolaridade ou não concluíram o ensino fundamental, enquanto 44,58% têm ensino superior completo e 4,83% chegaram à pós-graduação, ao mestrado ou ao doutorado. Do total, 86,9% são pessoas físicas e 13,1%, empresas.
A diversidade se repete entre os ramos. Só o Crédito reúne 22.956.981 cooperados — cerca de quatro em cada cinco cooperados do país. O Consumo tem 2,84 milhões; a Infraestrutura, 1,48 milhão; o Agropecuário, 1,13 milhão; a Saúde, 304 mil; Trabalho, Produção de Bens e Serviços, 188 mil; o Transporte, 129 mil.
Há quem precise ampliar a escolarização básica e quem escreve teses. Produtores rurais e profissionais de saúde. Trabalhadores, empreendedores, empresas. Dirigentes experientes e pessoas que acabaram de chegar. Quem decide a safra do ano e quem decide o investimento da década.
Esse é o paradoxo: a diversidade que faz a força do cooperativismo é a mesma que torna obsoleta qualquer educação pensada no singular.
E, no entanto, boa parte da formação ainda é desenhada para um cooperado médio que não existe: o mesmo curso, a mesma cartilha, a mesma linguagem para todos. Técnico demais para uns, raso demais para outros, distante para quase todos. Qualquer área de marketing sabe que não se fala da mesma forma com públicos tão distintos; a educação cooperativista ainda não incorporou plenamente essa lição. Um conteúdo único, numa linguagem única, fala com todos e não chega a ninguém.
Falar em “educação do cooperado”, no singular, já não dá conta da realidade. É preciso falar em ecossistemas de aprendizagem.
Desmutualização silenciosa: quando o dono vira cliente
O custo de uma educação que não alcança é silencioso. Quem não é alcançado não abandona a cooperativa: passa a enxergá-la como enxerga qualquer fornecedor.
Se ninguém lhe explicou, numa linguagem que ele entenda, o que são sobras e por que não são lucro, ou por que o seu voto vale o mesmo que o de qualquer outro, ele faz a única leitura disponível — a de cliente. E compara a cooperativa com o banco, a operadora ou a trading pelo único critério que conhece: o preço.
Proponho nomear esse fenômeno: desmutualização silenciosa.
Não é uma decisão de assembleia nem uma mudança jurídica. É uma erosão lenta, feita de milhões de vínculos que deixam de ser de pertencimento e passam a ser de consumo. A cooperativa continua cooperativa no papel. Na cabeça das pessoas, vai virando outra coisa.
O termo não é escolhido ao acaso. Nos anos 1990, o Reino Unido viveu uma onda de desmutualizações formais: várias das grandes building societies, instituições mútuas de crédito imobiliário, foram convertidas em bancos por voto de seus próprios membros, atraídos por ganhos imediatos. Muitas dessas instituições acabaram absorvidas por outros bancos; uma delas, o Northern Rock, terminou estatizada na crise de 2008. A lição é desconfortável: os membros renunciaram ao modelo porque já não enxergavam o valor de ser dono. A decisão formal foi o último ato de uma desmutualização que já tinha acontecido, silenciosamente, na cabeça das pessoas.
O risco é estratégico, não apenas doutrinário. Um cooperado que se vê como cliente pode ser disputado por qualquer concorrente com uma tarifa menor ou um aplicativo mais bonito. Um cooperado que se vê como dono participa, permanece, concentra seus negócios na cooperativa e indica novos membros. A diferença entre os dois não está no contrato. Está no entendimento.
Há ainda um efeito de governança. Quanto mais a base se comporta como clientela, mais esvaziadas ficam as assembleias, mais concentradas ficam as decisões e mais frágil se torna a legitimidade dos órgãos eleitos. O modelo democrático continua de pé — mas sustentado por cada vez menos pessoas.
Em uma base que cresceu 12,5% em um único ano, esse risco se multiplica. Cada novo cooperado que entra sem compreender o modelo é um ponto a mais de erosão.
Crescer sem educar é acelerar a desmutualização.
Quando a cooperativa educa o território
Se a ausência de educação corrói o vínculo, a presença do cooperativismo, quando bem enraizada, parece produzir o efeito inverso: ampliar a capacidade dos lugares onde atua. E essa discussão não precisa ficar no campo da teoria.
O estudo da Fipe sobre os impactos do cooperativismo de crédito, publicado em outubro de 2024, comparou ao longo do tempo municípios com e sem presença de cooperativas de crédito. Entre os resultados, os municípios com cooperativas de crédito apresentaram, em média, 3,2 matrículas a mais no ensino superior por mil habitantes — um diferencial de 24,2% em relação à média do último período analisado. O mesmo estudo associou essa presença a 25,3 empregos formais a mais por mil habitantes e a 12,3 famílias a menos, por mil habitantes, em situação de pobreza ou extrema pobreza no Cadastro Único.
É preciso ler esses números com rigor: são associações estatísticas, não relações causais simples. Mas revelam algo que merece atenção. Educação, emprego e redução da pobreza aparecem juntos — e não por acaso. São três faces de um mesmo fenômeno: territórios que acumulam capacidade.
E isso muda a pergunta. Talvez uma cooperativa de crédito não seja apenas a instituição que financia alguém para estudar. Talvez, em determinadas condições, ela participe da construção de um território mais capaz de produzir conhecimento, renda e oportunidades.
Em 1.072 municípios brasileiros, as cooperativas de crédito são a única instituição financeira presente. Nesses lugares, a infraestrutura de conhecimento do cooperativismo pode ser, literalmente, parte da infraestrutura do próprio município. Onde não há agência bancária, muitas vezes também não há quem ensine educação financeira, gestão ou governança. A cooperativa ocupa esse espaço — ou ninguém ocupa.
O padrão não se limita ao crédito. Estudo anterior da Fipe para o Sistema OCB associou a presença de cooperativas em geral a um acréscimo médio de R$ 5,1 mil no PIB por habitante, o equivalente a 18,6% da média nacional, e a 14,8 estabelecimentos a mais por mil habitantes, valor que corresponde a 87,8% da média do país.
Na saúde, uma pesquisa publicada em 2026 no periódico Annals of Public and Cooperative Economics, com 684 operadoras de planos de saúde entre 2014 e 2023, mostrou que as cooperativas tinham, em média, probabilidade de insolvência 4,8 pontos percentuais menor, mantidos constantes os demais indicadores financeiros. Os autores associam essa resiliência à governança cooperativa.
Esse último dado fecha o argumento. Se a governança explica parte da resiliência, e se a governança depende de quem governa, então educação não é um tema periférico à solidez financeira. É parte dela.
Governança forte não nasce do estatuto. Nasce de pessoas que entendem o que estão governando.
Uma jornada em seis etapas: da informação à multiplicação
Se o risco de não educar é a desmutualização, e o potencial de educar é um território mais capaz, a resposta não pode ser apenas mais conteúdo. Precisa ser um percurso. Para dar forma a essa infraestrutura, proponho uma jornada em seis etapas:

As duas primeiras etapas — informar e compreender — tratam de conhecimento; as duas seguintes — experimentar e participar —, de prática; as duas últimas — liderar e multiplicar —, de responsabilidade. A passagem mais difícil costuma estar no meio: entre compreender e experimentar. É ali que o cooperado deixa de ouvir falar da cooperativa e passa a vivê-la. Por isso essa etapa precisa ser desenhada com intenção, e não deixada ao acaso.
A sequência é a mesma para todos; o percurso, não. Cada pessoa entra por uma porta, avança no próprio ritmo e precisa de uma linguagem própria. O produtor rural com pouca escolaridade e o médico com doutorado podem estar na mesma etapa — e precisar de caminhos completamente diferentes para chegar à próxima. É assim que a jornada responde ao paradoxo dos 29 milhões.
Os princípios como método: o encontro com a andragogia
A lógica da jornada tem fundamento na forma como adultos aprendem. Malcolm Knowles (1913–1997), considerado um dos principais formuladores da andragogia, mostrou que adultos aprendem de maneira mais significativa quando compreendem por que precisam aprender, quando sua experiência é reconhecida como recurso, quando estão prontos para enfrentar um problema real e quando conseguem perceber aplicação concreta para aquilo que aprendem. A aprendizagem adulta não começa no conteúdo. Começa no sentido.
Nenhuma dessas condições é plenamente atendida por uma palestra genérica sobre os sete princípios. Todas podem ser atendidas quando o cooperado entende sua própria sobra, participa de uma decisão que afeta sua produção, acompanha a prestação de contas do negócio do qual é dono ou compreende como seu voto interfere no futuro da organização. A cooperativa tem algo que nenhuma escola tradicional possui: o próprio negócio como sala de aula.
Mas a conexão entre andragogia e cooperativismo vai além. Os princípios cooperativistas não precisam ser apenas aquilo que se ensina. Podem ser também a forma como se aprende.
A adesão livre e voluntária corresponde à autonomia do adulto para aprender. O cooperado não deveria ocupar o lugar de receptor passivo de informações: precisa compreender o sentido daquilo que aprende, reconhecer sua relevância e assumir responsabilidade pelo próprio desenvolvimento. Educar para a cooperação começa por respeitar a capacidade de escolha de quem aprende.
A gestão democrática corresponde à aprendizagem participativa. Se cada membro deve ter condições de participar das decisões que afetam a organização, a educação também precisa abrir espaço para diálogo, problematização e construção coletiva. Não basta ensinar democracia cooperativa; é preciso criar experiências nas quais o adulto possa exercê-la.
A participação econômica dos membros corresponde à aprendizagem com consequência prática. No cooperativismo, isso significa transformar conceitos como capital social, sobras, resultados, risco e crédito em instrumentos para compreender e decidir sobre a própria organização. Conhecimento que não amplia a capacidade de decisão corre o risco de permanecer apenas informação.
A autonomia e a independência correspondem ao desenvolvimento da capacidade de decidir. Uma cooperativa autônoma depende de pessoas capazes de compreender o ambiente em que estão inseridas, avaliar alternativas e participar conscientemente das escolhas da organização. A educação, nesse sentido, não deve produzir dependência de especialistas; deve ampliar a capacidade dos próprios cooperados, dirigentes e profissionais de interpretar, questionar e decidir.
O quinto princípio é o ponto em que essa conexão se torna explícita. Ao vincular a educação ao desenvolvimento da organização, ele pede exatamente o que Knowles descreve: uma aprendizagem construída a partir da vida real da cooperativa e das pessoas que a constroem, e não a mera transmissão de conteúdo sobre o modelo.
A intercooperação amplia essa lógica para uma aprendizagem em rede. Cooperativas podem aprender umas com as outras, compartilhar experiências, comparar soluções e desenvolver respostas coletivas. Em uma rede com 29 milhões de cooperados, cada experiência bem-sucedida pode deixar de ser um caso isolado e tornar-se conhecimento compartilhado.
Por fim, o interesse pela comunidade leva a aprendizagem para além do indivíduo. Para o adulto, o conhecimento ganha relevância quando ajuda a enfrentar a própria realidade — e, no cooperativismo, essa realidade não termina na organização: alcança o território, as famílias, os negócios e a comunidade. O conhecimento adquirido por uma pessoa pode ampliar a capacidade de muitas outras.
A consequência pedagógica é direta: uma educação cooperativista coerente com a andragogia não deveria apenas explicar os sete princípios. Deveria incorporá-los à própria experiência de aprendizagem.
O cooperado não deveria apenas ouvir sobre democracia — deveria participar.
Não deveria apenas estudar cooperação — deveria cooperar.
Não deveria apenas receber informação — deveria produzir conhecimento.
Não deveria apenas aprender para concluir um curso — deveria aprender para decidir, participar e transformar.
Se a andragogia ensina que adultos aprendem quando encontram sentido, o cooperativismo acrescenta uma dimensão decisiva: esse sentido pode ser construído coletivamente.
A cooperativa deixa, então, de ser apenas o contexto no qual a aprendizagem acontece. Ela passa a ser parte do próprio método.
Lideranças que traduzem
Toda infraestrutura precisa de quem a opere. Na infraestrutura de conhecimento, esse papel é das lideranças — a quinta etapa da jornada.
Liderança cooperativista não se improvisa; ela se forma — e muito antes de alguém ser eleito. Quando a renovação de conselhos e diretorias depende apenas do calendário eleitoral, o risco é chegar ao cargo quem conhece o negócio, mas não a governança. Numa organização com ativos na casa do trilhão, esse não é um risco menor.
A experiência acumulada é patrimônio do movimento, mas não se transfere sozinha: precisa ser ensinada, documentada e vivida em conjunto. Isso significa:
- identificar quem já participa e tem interesse;
- formar em governança, finanças cooperativas, gestão de riscos e pensamento estratégico;
- permitir que a pessoa viva a governança antes do cargo;
- organizar a memória institucional para que cada transição não recomece do zero.
Há ainda uma competência que raramente aparece nos programas: a de traduzir. Numa rede tão diversa, o bom dirigente precisa explicar a mesma decisão ao conselho fiscal e ao cooperado que nunca leu um balanço — e ser compreendido pelos dois.
Traduzir não é simplificar. É manter o rigor e mudar a linguagem. É a competência que conecta a sofisticação técnica exigida pelos mercados à legitimidade democrática exigida pelo modelo. Sem ela, a cooperativa se divide em dois mundos: o dos que decidem e o dos que apenas ficam sabendo.
Liderar uma cooperativa é ser entendido por todos os seus donos.
Tecnologia: escala com humanidade
A tecnologia oferece algo inédito a esse projeto. Pela primeira vez, é possível fazer em escala o que Confúcio fazia com um punhado de discípulos: responder a cada um de acordo com quem ele é.
Assistentes de inteligência artificial podem explicar o mesmo balanço em linguagem simples para um cooperado e em linguagem técnica para outro. Trilhas podem se adaptar à escolaridade, ao ramo e ao momento de cada pessoa na jornada. O paradoxo dos 29 milhões, que parecia insolúvel, ganha pela primeira vez uma resposta operacional.
O caminho é híbrido: encontros presenciais e trilhas digitais, microlearning e formações longas, comunidades de aprendizagem, mentorias, projetos reais. Cada formato cumpre uma função diferente na jornada — o digital informa e alcança; o presencial cria vínculo e pertencimento; a prática transforma conhecimento em capacidade.
Mas há um limite que não pode ser cruzado. A tecnologia amplia o alcance; não substitui o vínculo. Uma educação cooperativista reduzida ao consumo solitário de telas repetiria, no plano pedagógico, a desmutualização que se quer evitar no plano econômico: transformar o dono em usuário.
Cooperar é um verbo que se conjuga no plural. Aprender a cooperar também.
Escala sem humanidade produz alcance. Escala com humanidade produz cultura.
Medir o que importa
Se educação é infraestrutura, ela precisa ser medida como infraestrutura: pelo que entrega, não pelo que consome.
A maior parte dos relatórios, porém, ainda conta horas, turmas e certificados — os indicadores de esforço de que falamos no início. Uma cooperativa pode dobrar suas horas de treinamento e continuar com assembleias vazias.
Um painel à altura do desafio leria os resultados por perfil — escolaridade, ramo, pessoa física ou jurídica — e acompanharia cada etapa da jornada:
- quantos novos cooperados conseguem explicar o que são sobras e cota-parte;
- quantos passaram a participar das decisões;
- quantos assumiram funções de liderança;
- quantos se tornaram multiplicadores e quantas pessoas alcançam.
Indicadores assim mudam a gestão. Mostram onde investir, revelam em que etapa a jornada trava e permitem comparar cooperativas, ramos e regiões com uma linguagem comum. Sobretudo, tiram a educação da disputa de orçamento como despesa para colocá-la no lugar de investimento com retorno demonstrável.
O que não se mede vira custo. O que se mede vira estratégia.
O próximo salto começa na sala de aula
O cooperativismo brasileiro conhece permanência: 2.354 cooperativas já passaram dos 20 anos de atuação, e 15,7% têm mais de 40. Mas permanência não acontece só porque uma organização sobrevive. Acontece quando quem está consegue entregar propósito a quem chega.
Uma experiência vira conhecimento; o conhecimento vira cultura; a cultura vira comportamento; e o comportamento repetido ao longo do tempo se torna identidade. É essa cadeia que separa as organizações que duram das que apenas resistem.
O passado ensinou o cooperativismo a criar cooperativas. O presente o ensinou a fazê-las crescer. O próximo ciclo vai exigir algo mais difícil: aprender em escala, na velocidade do próprio crescimento.
Porque 29 milhões de cooperados são muito mais do que uma base social. São 29 milhões de possibilidades de inteligência, inovação, liderança e transformação.
E talvez o próximo grande salto do cooperativismo não venha de uma nova tecnologia, de uma nova aquisição ou de um novo mercado. Talvez comece em um lugar muito mais antigo: a sala de aula.
Execoop: uma escola que pratica o que ensina
É na sala de aula que a Execoop decidiu fazer história. Primeira escola de negócios cooperativista voltada para uma educação global, a Execoop nasceu em 2019 com uma convicção que atravessa todo este texto: o cooperativismo só sustentará sua escala se formar lideranças à altura dela. Desde então, formou mais de mil executivos, dirigentes, conselheiros e consultores de cooperativas.
O que torna a Execoop singular não é apenas o que ela ensina, mas o que ela é. A Execoop é, ela própria, uma cooperativa — criada por professores e pesquisadores de algumas das principais escolas de negócios do país, que escolheram o modelo cooperativo para organizar o próprio trabalho. Os princípios não são apenas conteúdo de aula; são o estatuto da casa. Autonomia, intercooperação, interesse pela comunidade e, sobretudo, o quinto princípio orientam a forma como a escola se governa e se relaciona com o mercado. Poucas instituições podem dizer, com a mesma coerência, que vivem aquilo que ensinam.
Mais do que transmitir conteúdo, a Execoop forma profissionais capazes de dialogar com o conselho e com o cooperado, com o mercado global e com o território onde a cooperativa nasceu — lideranças que traduzem. Cada aluno volta para sua organização como multiplicador, a última e mais decisiva etapa da jornada.
Por isso, mais de mil executivos não são apenas mil certificados. São mais de mil pontos de irradiação espalhados por uma rede de 4.400 cooperativas. É assim que uma escola deixa de ser apenas um lugar onde se aprende e passa a ser parte da infraestrutura de conhecimento que o movimento precisa construir.
Rochdale começou com 28 pioneiros que entenderam que um armazém precisava de gente capaz de governá-lo. Quase dois séculos depois, a pergunta é a mesma, agora em escala de nação. A Execoop existe para ajudar a respondê-la.
Quem educa a aldeia depois que a criança cresce? A própria aldeia — desde que aprenda a se educar: em rede, em muitas línguas, ao longo de toda a vida.
Não quero uma educação que fale a mesma língua para todos; quero uma que encontre cada cooperado onde ele está. Não quero que alguém memorize os princípios; quero que os reconheça diante de uma decisão difícil. Não quero ensinar só o que foi construído; quero convidar cada pessoa a construir o que ainda não existe.
O cooperativismo brasileiro não precisa escolher entre crescer e educar. Precisa entender que, daqui para a frente, uma coisa não acontece sem a outra.
Educar 29 milhões não é falar mais. É aprender a falar de 29 milhões de jeitos.

Conteúdo exclusivo publicado na edição 136 da Revista MundoCoop











