O ambiente corporativo está cada vez mais diverso. Hoje, é comum observar pessoas de diferentes faixas etárias trabalhando juntas. Porém, essa convivência pode esbarrar em conflitos alimentados por estereótipos. Organizar e tentar compreender as pessoas pelo ano em que nasceram tornou-se uma prática comum no mercado de trabalho e na sociedade, evidenciada por classificações como Baby Boomers, Geração X, Millennials, Geração Z e Alpha.
Segundo o último Relatório de Tendências em Gestão de Pessoas GPTW – 8ª edição (2026), os desafios intergeracionais seguem crescendo, de acordo com a percepção dos respondentes. O estudo aponta que 56,2% das empresas afirmaram ter dificuldade de lidar com as diferentes gerações no ambiente de trabalho. A pesquisa que dá origem ao relatório foi realizada entre os meses de novembro e dezembro de 2025.
No total, 1.577 pessoas responderam às questões que abordaram temas relacionados ao Mercado de Trabalho, Diversidade e Inclusão, ESG, Saúde Mental, Formação e Desenvolvimento de Pessoas, Liderança, Modelo de Trabalho.
Para o nosso cérebro, essas classificações padronizadas oferecem um certo conforto, é a mesma sensação de chegar em casa e encontrar a pia limpa e as coisas em ordem. No entanto, essa prática pode custar caro: ao rotular comportamentos, direcionamos nossos pensamentos e ações de forma superficial. É o que alerta a psicóloga e sócia-executiva na Nortus, Lia Pegorelli, que tem trabalhado o tema em empresas que buscam reduzir conflitos intergeracionais.
O perigo dos rótulos comportamentais e geracionais
A ciência há tempos chama a atenção para os perigos dessa dinâmica. Na sociologia, a Teoria da Rotulação sugere que os indivíduos não são inerentemente desviantes ou problemáticos, mas sim que seu comportamento é definido e influenciado pelos rótulos que lhes são atribuídos pela sociedade. Esses rótulos podem ser positivos ou negativos, baseados em diversas características. Esse fenômeno ficou demonstrado no famoso Experimento de Rosenthal (1968).
Em uma escola primária, pesquisadores disseram aos professores que determinados alunos tinham um “potencial extraordinário”, uma informação totalmente inventada. Ao final do ano, esses estudantes apresentaram um salto significativo no QI em relação aos demais. O estudo provou que as expectativas, mesmo baseadas em falsas premissas, alteram a realidade e transformam rótulos em profecias autorrealizáveis.
Relações interpessoais em aprendizado contínuo
Se as empresas precisam ajustar processos e atualizar abordagens para se manterem competitivas, e se o sistema de ensino precisa evoluir, por que as relações interpessoais ficariam estagnadas? Pais, professores e líderes são constantemente convocados ao aprendizado contínuo para não liderarem o futuro olhando pelo retrovisor.
Lia Pegorelli propõe uma mudança de perspectiva ao olhar para os conflitos geracionais. Em sua abordagem, os comportamentos diferentes não derivam da geração em si, mas do contexto. “Enquanto uns cresceram trocando cartas e aguardando um horário fixo na TV para assistir a um desenho, outros nasceram na era das mensagens instantâneas e do conteúdo sob demanda. As novas gerações chegam para responder a uma nova realidade global e trazem uma leve desordem. É essa desorganização temporária que impulsiona a evolução da sociedade em busca de um novo patamar de convivência”, destaca.
A psicóloga também afirma que é possível interagir de maneira efetiva com pessoas de idades ou perfis diferentes, abandonando os rótulos. “O desafio atual é refinar nossa capacidade humana de conexão: escutar com atenção, fazer boas perguntas e incluir perspectivas divergentes para alcançar resultados saudáveis para todos”, complementa.
Para isso, existem algumas dicas práticas que podem ser aplicadas no dia a dia corporativo e pessoal:
- Conheça a pessoa individualmente: Crie rituais de troca para entender a história, motivações e preferências do outro. Faça perguntas abertas como:
- “O que é importante que eu saiba sobre suas motivações e preferências de trabalho?”
- “Como você prefere receber feedbacks?”
- “Na sua visão, o que está acontecendo neste projeto que não saiu como planejado?”
- Foque na ação e nos fatos: Substitua frases genéricas por fatos e dados concretos. Exponha exemplos específicos para garantir que ambos estejam alinhados sobre o mesmo problema.
- Compartilhe perspectivas sem impor verdades
- Forneça contexto e impactos, mantendo em mente que a sua interpretação não é a única correta. Chegar com certezas inflexíveis constrói muros em vez de pontes.
- Co-crie soluções integradas
- Construa respostas em conjunto. Quanto mais a outra parte se sentir parte do processo, maior será o engajamento com os resultados.
Essas quatro dicas contribuem para que as interações entre pessoas sejam mais produtivas. “Se a gente tem cada vez mais respostas prontas, a nossa capacidade de analisar, de questionar, de estimular e de pensar nunca foi tão requerida como agora. É justamente o período e a era que nos convoca a sermos humanos, no que temos de essencial na palavra. Não só repetir padrões e comportamentos, e sim incluir uma grande quantidade de elementos e variáveis. Isso exige de nós a capacidade de priorização, de construir visão sistêmica junto às pessoas, de buscar respostas, de fazer boas perguntas e de convidar a ações que, de fato, sejam colaborativas.”, destaca a psicóloga.
Fonte: Nortus com adaptações da MundoCoop












