A cobrança da tarifa adicional de 55% da China sobre as importações de carne bovina brasileira não deve alterar os preços da proteína no mercado doméstico. Segundo analistas ouvidos pela EXAME, a carne não deve ficar mais barata, uma vez que os cortes enviados ao país asiático são diferentes dos consumidos no Brasil. Além disso, a cota chinesa já estava precificada pelo mercado.
“Estamos observando um cenário de restrição de oferta, que tem dado sustentação à alta dos preços do boi gordo nas principais praças pecuárias do Brasil. Esse movimento mantém a perspectiva de valorização da arroba, com possibilidade de atingir R$ 400 no último trimestre”, afirma Fernando Iglesias, analista de pecuária da Safras & Mercado.
A partir desta quinta-feira, 1º, a China começará a cobrar uma tarifa adicional de 55% sobre as importações de carne bovina do Brasil que excederem a cota anual estabelecida pelo governo chinês. A medida foi anunciada pelo Ministério do Comércio da China nesta quarta-feira, 30, após os embarques brasileiros atingirem 100% do limite previsto para 2026.
Segundo o comunicado, a cota brasileira foi totalmente utilizada em 29 de setembro. Pelas regras da salvaguarda, a sobretaxa passa a valer no terceiro dia após o país atingir o limite de 1,1 milhão de toneladas.
Em dezembro de 2025, a China fixou uma cota anual de 2,7 milhões de toneladas, abaixo das 3 milhões previstas anteriormente. Para o Brasil, o limite sem tarifa foi estabelecido em 1,1 milhão de toneladas, redução de cerca de 600 mil toneladas em relação ao volume exportado ao país no último ano.
A mudança impacta diretamente o fluxo do comércio brasileiro. Em 2025, o Brasil exportou 1,7 milhão de toneladas de carne bovina para a China, o equivalente a 48,3% das exportações totais do setor, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).
Segundo Roberto Perosa, presidente da Abiec, a redução do ritmo de vendas para a China não significa necessariamente uma pressão de baixa sobre os preços da carne no mercado brasileiro, porque os destinos compram partes diferentes do animal.
A China concentra suas compras principalmente no dianteiro do boi, enquanto outros mercados, como Europa e Estados Unidos, demandam cortes distintos.
“O boi brasileiro é dividido. Partes vão para um lugar, partes vão para outro lugar, partes ficam no mercado interno e esse mix é que faz a composição do preço”, afirmou em coletiva no começo de setembro.
Os números de setembro, inclusive, reforçam a perspectiva de um ritmo menor de embarques. Segundo o BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), as exportações de carne bovina fresca recuaram 31,5% em setembro, para 9,8 mil toneladas. Em contrapartida, o preço médio de exportação avançou 12,1% no mesmo período, para US$ 6.297 por tonelada.
O movimento ajudou a limitar o impacto da menor oferta exportada sobre a receita, embora as vendas em dólares tenham recuado 23,3% em relação a setembro do ano anterior, para US$ 61,7 milhões.
No mercado doméstico, os spreads da pecuária brasileira tiveram retração mensal, enquanto os spreads de exportação permaneceram praticamente estáveis, segundo Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, analistas do banco.
Exportação de carne para China
Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a afirmar que que o Brasil poderia utilizar parte da cota de exportação de carne bovina do Uruguai para a China.
Segundo Lula, a medida poderia ampliar o espaço para a carne bovina brasileira na China, depois de os frigoríficos nacionais atingirem o limite estabelecido por Pequim para 2026.
Em um primeiro momento, a notícia animou o mercado, mas o Ministério do Comércio da China não confirmou a informação até o momento.
Levantamento da Safras & Mercado mostra que, caso o país asiático confirmasse a decisão, o volume em discussão seria de aproximadamente 80 mil toneladas de carne bovina.
Apesar de atingir a cota, a China continua liderando o ranking de destinos da carne bovina brasileira no acumulado de janeiro a agosto de 2026.
No período, o país asiático comprou 899,2 mil toneladas, com receita de US$ 5,51 bilhões. O volume representa uma queda de 6,6% na comparação com o mesmo intervalo de 2025, mas o mercado chinês ainda concentra 40,8% de toda a carne bovina exportada pelo Brasil em 2026, segundo a Abiec.
Segundo Perosa, da Abiec, a cota chinesa para 2027 pode ser esgotada já entre março e abril, em ritmo mais acelerado do que o observado neste ano.
A avaliação considera o ritmo médio das vendas para a China e a possibilidade de não haver uma distribuição da cota entre as empresas exportadoras brasileiras, como ocorreu em 2026.
Sem essa divisão, a competição entre frigoríficos poderia acelerar o preenchimento do limite disponível.
“Pode haver, sim, uma antecipação das vendas para a China, mas o país asiático está com um alto estoque de carne bovina. Então precisamos avaliar se haverá esse apetite pela carne bovina brasileira. Esse ainda é um enigma”, disse Perosa em setembro.
Fonte: Exame com adaptações da MundoCoop












