O número de cooperativas em atividade no Brasil caiu de 4.509 em 2023 para 4.400 em 2025. Ainda que no ano passado tenha registrado um avanço de 0,4% em relação a 2024, o recuo recente reflete um movimento que tende a se intensificar nos próximos anos: a aceleração das fusões e aquisições (M&A, na sigla em do inglês) em busca de maior competitividade e escala. A projeção é da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), que tem estimulado o chamado intercooperativismo para garantir a perenidade do setor, a geração de empregos e a expansão do número de associados.
Essa união de forças não é nova, mas ganha mais peso. Se no agronegócio o modelo já é tradicional e garantiu o domínio das gigantes sobre toda a cadeia produtiva, no crédito e na saúde a fórmula tornou-se a chave para viabilizar investimentos em tecnologia e ganhar mercado.
“A fusão e a aquisição não significam a liquidação de uma cooperativa. Trata-se de uma comunhão, sobretudo para reduzir os custos e elevar a escala de produção de unidades que, em muitos casos, estão localizadas em um mesmo município e cujas atividades se somam e se complementam”, afirma Tania Zanella, presidente executiva da entidade. “Desde que voltados para a maior sustentabilidade econômica e social das cooperativas envolvidas, esses processos significam ganho de força”, completa.
O Sistema OCB não dispõe de dados sobre os processos de fusão e de aquisição nos últimos anos. Mas, segundo João José Prieto Flávio, gerente técnico e econômico da entidade, tal estratégia, além de outros arranjos de intercooperação, contribuiu para que pelo menos 25 cooperativas brasileiras alcançassem receitas superiores a R$ 1 bilhão ao ano e para a inclusão de cerca de 13 delas na lista das 300 maiores do mundo em seguidas edições do World Cooperative Monitor, da Aliança Cooperativa Internacional (ICA, na sigla em inglês).
“Diferentes arranjos dos negócios para o ganho de escala produtiva serão cada vez mais explorados. Alguns são naturais para todas as partes e intersistêmicos, em especial quando envolvem apenas unidades cooperativas”, afirma o gerente da entidade.
No viés do intercooperativismo, o economista Davi de Moura Costa, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto (FEA-RP), antevê um caminho mais provável, sobretudo para o agronegócio, com a criação de arranjos por diferentes cooperativas para atender a necessidades estratégicas comuns. Em sua visão, trata-se de uma iniciativa coletiva inovadora. Como exemplo, cita a Union, resultado do esforço conjunto de três cooperativas do agronegócio paranaense – Capau, Castrolanda e Frísia – para o posicionamento de marcas no mercado.
Segundo Viviane Macêdo, presidente da Comissão de Cooperativismo da Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB SP), as fusões tendem a gerar mais benefícios aos cooperados, que são chamados para avalizar as iniciativas. Mas ela pondera que não são, necessariamente, o melhor caminho para o crescimento das cooperativas. “É preciso preservar a identidade delas, o que nem sempre ocorre nesses processos”, afirma Macêdo.
Mais do que fusões no ramo agropecuário, Moura Costa acredita ser mais provável a incorporação – a rigor, compra – de uma cooperativa por outra a partir deste ano. O endividamento de parte do cooperativismo rural deve impulsionar esse movimento, levando instituições financeiramente saudáveis a absorver as que enfrentam dificuldades.
“É possível que haja fusões no setor agropecuário, mas esses processos encontrariam muita resistência e serão difíceis de ocorrer”, avalia. “Mas, por limitação de capital disponível e barreiras ideológicas, nós veremos mais exemplos de intercooperação e de criação de subsidiárias pelas cooperativas do que a aquisição de negócios privados”, completa Moura Costa.
A formação de subsidiárias, explica o economista, tem sido uma tendência mundial para todos os ramos do cooperativismo, especialmente as do agronegócio. Em nichos do mercado, as entidades podem gerar as suas próprias empresas, como foi o caso da SMC Specialty Coffees, criada em 2009 pela Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé) para comercialização de seus produtos. Em empreendimentos de maior envergadura, avalia Moura Costa, o investimento conjunto com empresas privadas que atuam em atividades similares e/ou complementares tende a prevalecer.
Fonte: Valor Econômico












