Em março deste ano, na edição 129 da Revista MundoCoop, escrevi um artigo com o seguinte título: “Os juros finalmente vão cair”. Ressaltei que seria um processo lento e gradual, e que encerraríamos 2026 com a taxa básica de juros (Selic) em torno de 12% ao ano, na melhor das hipóteses. De fato, o afrouxamento monetário está sendo lento e gradual, mas não há a menor chance de a Selic se aproximar do patamar otimistas de 12% – a realidade é pouco abaixo de 14% ao ano.
Isso ocorre porque a condução da política monetária no Brasil enfrenta um enorme entrave. O excesso de gastos públicos impede que o Banco Central (BC) promova reduções consistentes na taxa de juros. O desequilíbrio fiscal amplia a dívida pública e a percepção de risco do País. Além disso, pressiona a inflação e torna quase impossível o cumprimento das metas estabelecidas. Sem saída, o BC não consegue reduzir os juros na magnitude que a sociedade anseia.
O contínuo (e teimoso) descontrole fiscal evidencia a urgência de um freio de arrumação nas contas públicas. O próximo governo, independentemente de sua matriz ideológica, terá a obrigação de aprovar e implementar um ajuste fiscal rigoroso logo no início do mandato, assim que tomar posse em 5 de janeiro. Sem um compromisso crível do governo com o controle da dívida pública, empresários e consumidores continuarão reféns dos juros elevados por tempo indeterminado.
Nesse ambiente desafiador, as cooperativas de crédito precisam adotar uma postura cautelosa na concessão de financiamentos. O crédito caro aumenta sensivelmente o risco de inadimplência de cooperados e empresas. Basta ver o volume recorde de companhias em recuperação judicial. As cooperativas devem focar na análise da capacidade de pagamento dos associados bem como no acompanhamento próximo das carteiras, garantindo a estabilidade do sistema sem perder sua missão de apoiar as atividades produtivas. Portanto, o crédito deve continuar fluindo, mas sob critérios mais rigorosos para preservar a saúde financeira de cooperativas e cooperados. Precisa ser um jogo ganha-ganha, senão todos perdem.
Luís Artur Nogueira é economista, jornalista e palestrante. Atualmente é comentarista do programa “Faroeste à Brasileira” no Youtube da Revista Oeste e colunista da MundoCoop

Coluna exclusiva publicada na edição 134 da Revista MundoCoop









