Uma cooperativa do Sul do Brasil renovou o financiamento de um produtor de grãos três safras seguidas. Sempre em dia. Sempre dentro do previsto.
Na quarta safra, uma seca fora do padrão histórico reduziu a produtividade pela metade. O crédito que sempre funcionou virou inadimplência. Ninguém viu chegando, porque ninguém estava olhando para o clima como parte da análise.
Esse tipo de história se repete o país inteiro.
O crédito rural sempre foi avaliado pelo passado do produtor. Histórico de pagamento, garantias, safra anterior. O que falta, na maioria das cooperativas, é olhar para frente. Entender o que o clima vai fazer com aquela lavoura antes que a safra aconteça.
Isso já é possível. Existe hoje tecnologia de simulação climática de alta resolução, capaz de indicar com semanas de antecedência onde o estresse climático vai aparecer, região por região, praça por praça. Cruzado com os dados de crédito e com o perfil ESG do associado, isso vira um retrato do risco que nenhum balanço tradicional mostra.
E esse dado não serve só para aprovar ou negar crédito.
Serve para o produtor decidir a janela certa de plantio. Serve para a cooperativa antecipar onde vai precisar reforçar assessoria técnica. Serve para o gestor de risco simular cenários de inadimplência ligados a evento climático, não só a histórico financeiro. Serve para ajustar cobertura de seguro antes do prejuízo, não depois.
A regulação já caminha nessa direção. CMN 4.945 exige gestão de risco climático das instituições financeiras. SUSEP 666 exige o mesmo das seguradoras. Isso deixou de ser tema de sustentabilidade. Virou tema de gestão de risco.
O cooperativismo tem uma vantagem que poucos setores têm. Conhece o produtor, conhece a terra, conhece o território de perto. Falta transformar essa proximidade em dado contínuo, monitorado, auditável.
Um estudo recente com uma base de mais de 400 produtores apontou que nos anos de 2024 e 2025 mais de 95% destas propriedades sofreram algum tipo de impacto relacionado a eventos climáticos. Isso mesmo, 95%!
Quando isso acontece, a cooperativa deixa de reagir à safra perdida. Passa a antecipar o risco, proteger o associado e proteger a própria carteira.
O clima sempre foi incerteza. Hoje pode ser dado.
Sua instituição já enxerga o que vai acontecer com a sua carteira na próxima safra ou só vai descobrir depois que ela já aconteceu?
Mauricio Rodrigues é CEO da ESGreen

Coluna exclusiva publicada na edição 133 da Revista MundoCoop







