Do Mato Grosso à ONU: o que o crédito rural verde tem a dizer

William nunca imaginou que um dia falaria sobre o trabalho dele na sede das Nações Unidas.

Colaborador de uma cooperativa de crédito no Mato Grosso, ele foi o único brasileiro a subir ao palco do Leaders Summit 2024, em Nova York, durante a Assembleia Geral da ONU. O projeto que apresentou beneficia mais de 30 pequenos agricultores da região com crédito ligado a práticas de economia verde. Foi selecionado entre centenas de iniciativas pelo Pacto Global da ONU para representar o Brasil no mundo.

Mas o que levou um projeto cooperativista do interior do Brasil até Nova York?

Dados. Verificáveis, rastreáveis, auditáveis.

O cooperativismo agro brasileiro tem um ativo que o mundo inteiro está buscando: território, produção real e vínculo com o pequeno produtor. O que ainda falta, em muitos casos, é a linguagem para transformar esse ativo em acesso a capital.

O crédito rural verde já é uma realidade no Brasil. O Plano Safra direciona recursos para práticas sustentáveis. Segundo dados da Anbima, o patrimônio de fundos com estratégia ESG mais do que dobrou no Brasil entre 2022 e 2024, alcançando a casa de bilhões de reais. Green bonds, fundos de impacto e linhas internacionais movimentam bilhões em direção a quem consegue provar o que faz.

A palavra de ordem continua sendo a mesma da edição anterior: lastro.

Não basta plantar com responsabilidade. Não basta tratar bem o solo, respeitar a mata ciliar, manter o produtor bem assessorado. Tudo isso precisa virar dado. Precisa ser monitorado, relatado e verificado de forma que um financiador em São Paulo, em Brasília ou em Nova York consiga auditar.

É exatamente aí que a maioria das cooperativas ainda deixa dinheiro na mesa.

O caso do Sicredi no Mato Grosso mostra que o caminho é possível. E não começa com grandes investimentos ou estruturas complexas. Começa com a decisão de organizar o que já existe, medir o que já é feito e construir uma trilha de evidências consistente ao longo do tempo.

Quando isso está em ordem, o capital vem. Às vezes vem de Brasília. Às vezes vem de Nova York.

O pequeno produtor que cultiva bem a terra já faz a parte mais difícil. A cooperativa que estrutura os dados dessa prática abre uma porta que ele nunca conseguiria abrir sozinho.

Esse é o papel do cooperativismo no crédito rural verde.

Não é burocracia. 

É proteção, acesso e futuro.


Mauricio Rodrigues é CEO da ESGreen, plataforma brasileira de infraestrutura de dados ESG com mais de 50 instituições financeiras atendidas.

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Coluna exclusiva publicada na edição 131 da Revista MundoCoop

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