Sicredi projeta R$ 72,1 bi em crédito durante anúncio do Plano Safra 2026/27

MundoCoop acompanhou a apresentação das projeções para o novo ciclo, que prevê crescimento do crédito rural em meio a juros elevados e maior cautela no campo

O Sicredi prevê disponibilizar R$ 72,1 bilhões em crédito para o agronegócio durante o Plano Safra 2026/27, volume 4,4% superior aos R$ 69 bilhões liberados no ciclo anterior. A instituição financeira cooperativa espera realizar cerca de 340 mil operações ao longo da nova temporada, frente às mais de 320 mil contratações registradas na safra 2025/26.

A estratégia para o novo ciclo foi detalhada durante coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira (2), em São Paulo, acompanhada pela MundoCoop. Do total projetado, R$ 27,6 bilhões serão destinados ao custeio, R$ 15,4 bilhões aos investimentos e R$ 2 bilhões à comercialização e industrialização. A instituição também prevê R$ 18 bilhões em operações por meio de Cédulas de Produto Rural (CPRs) e R$ 9,1 bilhões em linhas de crédito dolarizadas.

A agricultura familiar deve receber R$ 13,3 bilhões, enquanto R$ 14,6 bilhões serão direcionados aos produtores de médio porte. Juntos, os dois públicos devem concentrar 88% das operações previstas para o ciclo. Para os demais produtores, a projeção é de R$ 17,1 bilhões. O novo planejamento parte de uma carteira de crédito agropecuário que alcançou R$ 121 bilhões em maio e avança em um ambiente marcado por juros elevados, margens mais estreitas e maior cautela nas decisões financeiras.

Crescimento cauteloso

A projeção de uma nova expansão do crédito ocorre em um momento no qual produtores e instituições financeiras observam com maior atenção a capacidade de investimento no campo. Durante a coletiva, os executivos do Sicredi reconheceram que a inadimplência aumentou em relação ao histórico recente da instituição, embora, segundo eles, permaneça abaixo dos indicadores observados no mercado.

O cenário não é homogêneo. Parte dos produtores mantém uma situação financeira organizada e capacidade para financiar o custeio, renovar máquinas e ampliar a atividade. Outra parcela acumulou maior endividamento nos últimos anos e precisa reorganizar o fluxo de caixa antes de assumir novos compromissos. Para Vitor Moraes, superintendente de Agronegócio do Sicredi, essa conjuntura exige atenção dos dois lados da relação de crédito. “A cautela está dos dois lados, tanto por parte do produtor quanto das instituições financeiras, que naturalmente incorporam outras análises e variáveis. Nosso crescimento está pautado em crescer, sim, mas com qualidade”, afirmou.

Nesse contexto, a análise das operações considera elementos como capacidade de pagamento, projeção de receitas, nível de alavancagem e estrutura financeira da atividade. A avaliação também observa as condições particulares de cada associado, como a participação de terras arrendadas na produção e a necessidade de reorganização do fluxo de caixa. A garantia, embora seja um componente importante, não substitui a capacidade financeira do produtor, explicou Gustavo Freitas, diretor executivo de Crédito e Segmentos do Sicredi.

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Se um produtor está muito alavancado, não vamos conseguir atendê-lo independentemente da garantia. Ele precisa ter capacidade de pagamento. O ideal é ter garantia, mas não é uma receita de bolo” – GUSTAVO FREITAS, DIRETOR EXECUTIVO DE CRÉDITO E SEGMENTOS DO SICREDI.

A postura mais criteriosa também está relacionada à própria estrutura do modelo cooperativo. Durante a coletiva, Freitas destacou que as cooperativas administram recursos dos associados e, por isso, precisam equilibrar o atendimento às necessidades de financiamento com a sustentabilidade da instituição. A análise individualizada, segundo o executivo, permite orientar o produtor sobre a conveniência de novos investimentos ou a necessidade de reorganizar compromissos financeiros antes de ampliar sua exposição ao crédito.

Novas fontes para crédito

A diversificação das fontes de recursos ocupa uma posição central na estratégia para alcançar os R$ 72,1 bilhões projetados. Na safra 2025/26, as operações do Sicredi ficaram divididas entre 52% de recursos controlados e 48% de recursos livres. A composição não é fixa e pode variar conforme a disponibilidade das fontes e as necessidades dos produtores ao longo do ciclo.

Para o novo período, a instituição pretende combinar recursos controlados e livres com CPRs, linhas em moeda estrangeira e fundos constitucionais, além de outras fontes de financiamento. A estratégia busca ampliar as alternativas disponíveis para sustentar a oferta de crédito em um período no qual a taxa básica de juros permanece elevada e pressiona o custo das operações não subsidiadas.

Segundo Vitor Moraes, o planejamento considera o conjunto dos recursos disponíveis antes da definição das projeções de crédito. Dessa forma, uma eventual redução em determinada fonte pode ser compensada por outras alternativas compatíveis com o perfil e a necessidade de cada produtor.“Quando consideramos todas as fontes disponíveis, não vemos um impacto relevante para atender o custeio dos nossos produtores. Mesmo que eventualmente tenhamos um valor menor em uma dessas fontes, isso não deve prejudicar o atendimento da demanda planejada”, afirmou.

Entre as modalidades com maior crescimento estão as linhas dolarizadas. O volume liberado passou de R$ 4 bilhões na safra 2024/25 para R$ 5,8 bilhões em 2025/26. Para o novo ciclo, a projeção alcança R$ 9,1 bilhões, avanço de 57% na comparação com a temporada encerrada.

A modalidade atende principalmente produtores que possuem receitas vinculadas à moeda norte-americana e aparece como uma alternativa diante do elevado custo do crédito em reais. O uso desse instrumento, no entanto, exige compatibilidade entre o vencimento da operação e o momento de entrada das receitas, uma vez que a oscilação cambial pode reduzir ou eliminar a vantagem obtida com uma taxa de juros menor.

“Mesmo tendo receita em dólar, se houver uma diferença muito grande de tempo, a variação cambial pode destruir todo o ganho proporcionado pela taxa de juros. Por isso, é preciso fazer essa operação com responsabilidade, alinhando os prazos às receitas do produtor”, explicou Moraes.

Proteção

A maior exposição a eventos climáticos também tem ampliado a discussão sobre mecanismos de proteção da atividade rural. Em 2025, o Sicredi registrou 113 mil apólices de seguros rurais, com R$ 58 bilhões em benfeitorias e máquinas protegidas e R$ 2,4 bilhões em cobertura para lavouras. Ao todo, 479 mil hectares foram segurados, e a expectativa da instituição é ampliar os resultados da carteira em 10% no novo ciclo.

Durante a coletiva, os executivos apontaram um aumento do interesse pelo seguro em áreas nas quais a contratação desse tipo de proteção era menos frequente. A percepção dos riscos provocados por eventos climáticos extremos tem levado produtores de diferentes regiões a buscar cobertura, mas as características distintas da produção agropecuária brasileira exigem produtos adaptados às realidades locais.

“Não adianta pegar um produto para geada no Oeste do Paraná e achar que essa cobertura serve para o Norte de Mato Grosso ou para o Sul do Pará. São eventos diferentes e precisamos modular os produtos de acordo com essas necessidades”, afirmou Freitas.

Além do seguro, a instituição tem ampliado a oferta de soluções voltadas ao planejamento de investimentos no médio e longo prazo. Entre elas estão os consórcios destinados à aquisição de máquinas, equipamentos, veículos pesados e outros bens ligados à atividade rural. Em 2025, as vendas para o agronegócio somaram R$ 3,2 bilhões, enquanto a projeção é superar R$ 20 bilhões em carteira até o fim de 2027.

Para o Sicredi, a modalidade pode ser uma alternativa principalmente para produtores que conseguem programar a renovação de equipamentos e não dependem de uma aquisição imediata. A proposta se insere na estratégia de adequar diferentes instrumentos financeiros ao momento e à capacidade de investimento de cada associado.

“Para o produtor que não precisa trocar a máquina agora e está planejando para daqui a dois, três ou quatro anos, o consórcio pode ser um instrumento importante de planejamento financeiro. O problema é quando existe uma necessidade imediata. Nesse caso, o consórcio não resolve”, concluiu Freitas.


Por João Victor – Redação MundoCoop

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