Durante décadas, o cooperativismo brasileiro construiu sua relevância a partir da força dos territórios onde atua. Hoje, porém, muitos dos desafios enfrentados pelas cooperativas ultrapassam fronteiras. Mudanças climáticas, transformação digital, segurança alimentar e novas exigências regulatórias conectam mercados e exigem respostas cada vez mais globais.
Nesse contexto, a internacionalização deixou de ser apenas uma agenda institucional para se tornar uma estratégia de desenvolvimento. Participar de fóruns globais, promover intercâmbios técnicos e fortalecer redes de cooperação permite às cooperativas antecipar tendências, ampliar conhecimento e construir soluções para desafios compartilhados.
Para João Penna, coordenador de Relações Internacionais do Sistema OCB, a lógica é clara. “Nossa estratégia parte de uma visão muito clara: a atuação internacional precisa gerar valor para as cooperativas brasileiras. Por isso, trabalhamos em diferentes frentes. De um lado, fortalecemos a representação institucional do cooperativismo em organizações como a Aliança Cooperativa Internacional (ACI), suas entidades setoriais e espaços multilaterais. De outro, aproximamos nossas cooperativas de experiências, mercados, instituições e parceiros de outros países”, pontua.
Mais do que representação
A presença internacional do cooperativismo brasileiro cresceu de forma significativa nos últimos anos. Atualmente, o Sistema OCB representa o país em 20 organizações internacionais. Apenas em 2025, foram realizadas 12 missões técnicas ao exterior e recebidas oito delegações estrangeiras interessadas em conhecer o modelo brasileiro.
Mais do que ampliar a visibilidade, a atuação busca posicionar o setor em debates que influenciam diretamente seu futuro. Temas como sustentabilidade, segurança alimentar, inovação, crédito e transição energética estão cada vez mais presentes nas agendas globais.

Uma das iniciativas recentes é o Patrimônio Cultural Cooperativo, proposta levada pelo Sistema OCB à Aliança Cooperativa Internacional. Lançado em 2025, o projeto reúne mais de 30 sítios de patrimônio cooperativista ao redor do mundo e reforça o papel do Brasil na construção de agendas internacionais para o movimento.
O mundo como fonte de aprendizado
A troca de experiências é um dos principais resultados desse processo. O objetivo não é reproduzir modelos estrangeiros, mas compreender soluções que possam inspirar adaptações à realidade brasileira. “A ideia nunca é simplesmente importar um modelo pronto. O valor está em conhecer uma solução, entender por que ela funciona e adaptar seus elementos às características das nossas cooperativas”, afirma Penna.
Em 2025, uma missão à Argentina aproximou dirigentes brasileiros de cooperativas de seguros em um momento estratégico para o desenvolvimento desse ramo no país. Já na Coreia do Sul, um cooperado brasileiro participou de um intercâmbio promovido pela Federação Nacional de Cooperativas Agrícolas (NACF) e retornou com propostas voltadas à comercialização direta, capacitação e valorização dos produtores rurais.
“É exatamente esse o resultado que buscamos: transformar uma experiência internacional em conhecimento aplicável ao território e à comunidade do cooperado”, destaca o executivo.
Experiências semelhantes ocorreram nos Estados Unidos, com foco em infraestrutura e resiliência climática, e na China, onde cooperativas brasileiras conheceram soluções ligadas à logística inteligente e novas tecnologias para o transporte.
Um modelo que também inspira
O intercâmbio, vale ressaltar, acontece em duas direções. Ao mesmo tempo em que busca referências externas, o cooperativismo brasileiro também desperta interesse internacional.
“O cooperativismo brasileiro chama atenção, primeiro, pela sua diversidade e escala. Temos cooperativas atuando em áreas estratégicas como agropecuária, crédito, saúde, infraestrutura, transporte, trabalho e consumo, com modelos bastante desenvolvidos e forte presença nas comunidades”, ressalta Penna.
Esse reconhecimento ficou evidente na 30ª Conferência da ONU sobre Mudança Climática, realizada em Belém (PA), entre 10 e 21 de novembro de 2025, quando especialistas de organismos internacionais participaram das atividades promovidas pelo Sistema OCB. Na área da saúde, o modelo do Sistema Unimed também foi destaque em um workshop da ACI África, realizado no Quênia.
Outro aspecto que desperta interesse internacional é a capacidade de articulação do cooperativismo brasileiro. A conexão entre Sistema OCB, Organizações Estaduais e cooperativas permite atuar de forma integrada em frentes como representação, formação, inovação, governança e competitividade, fortalecendo o desenvolvimento do setor em diferentes regiões.
O desafio da próxima década
Inteligência artificial, uso estratégico de dados, cibersegurança, bioeconomia e finanças sustentáveis estão entre os temas que mais mobilizam as discussões internacionais. Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que competitividade e sustentabilidade precisam caminhar juntas.
“O mais importante é acompanhar essas transformações sem perder nossa identidade. E sustentar essa identidade não é um detalhe simbólico, é um dos maiores diferenciais competitivos do nosso modelo de negócio”, finaliza.
Para que a internacionalização gere resultados concretos, o desafio está em fazer o conhecimento circular. Por isso, o Sistema OCB e o cooperativismo como um todo, buscam transformar aprendizados obtidos em missões e eventos globais, em estudos, programas de capacitação e iniciativas voltadas às cooperativas de diferentes portes e regiões.
Em um ambiente cada vez mais conectado, a competitividade das cooperativas dependerá não apenas da capacidade de responder aos desafios locais, mas também de participar das discussões que definirão as soluções do futuro. Afinal, em um mundo interdependente, inovação, desenvolvimento e cooperação também se constroem além das fronteiras.
Por Leonardo César – Redação MundoCoop

Matéria exclusiva publicada na edição 134 da Revista MundoCoop












