Entre os princípios universais do cooperativismo, talvez o interesse pela comunidade seja o mais destacado e reconhecido. Mas um dos princípios-base passa, muitas vezes, despercebido: o cuidado com a educação e a formação. Conhecimento e cultura nem sempre são avaliados ou estimulados em cooperativas — pelo menos, não no Brasil.
Contudo, sempre existem exemplos positivos em que o engajamento social e as ações voltadas à identidade local estão intrinsecamente ligados. É o caso do movimento realizado pela Sicredi Caminho das Águas. Em fevereiro deste ano, a cooperativa adquiriu uma relíquia histórica: uma Bíblia luterana de quase 280 anos. Publicada em Nuremberg, na Baviera, em 1747, e trazida da Alemanha por imigrantes no século 20, ela foi colocada em exposição no Memorial Anneken, em Rolante. A peça é considerada a Bíblia luterana mais antiga em exibição no país.
No mesmo ano em que celebra o 140º aniversário de nascimento de seu patrono, a Caminho das Águas também trabalha em projetos alusivos ao bicentenário da imigração alemã no Litoral Norte do Rio Grande do Sul. A região litorânea recebeu um dos primeiros núcleos coloniais criados por imigrantes alemães luteranos no Brasil.
Esses pioneiros guardavam uma herança secular: uma fé originada no século 16, quando o monge agostiniano e professor universitário alemão Martinho Lutero liderou o movimento religioso que rompeu com o catolicismo. Ele lecionava em Wittenberg, na Saxônia, quando, em 1517, afixou na porta da igreja do castelo local um conjunto de reflexões condenando a venda de indulgências. Naquela época, a Igreja Católica concedia o perdão pelos pecados cometidos pelos fiéis ou seus parentes mediante compensação financeira. Ao contestar a moralidade desse comércio, os questionamentos teológicos de Lutero acabaram por dividir o cristianismo ocidental, dando origem a várias denominações protestantes, a começar pelos luteranos, calvinistas e anglicanos. Em 1522, o reformador traduziu o Novo Testamento para o alemão. A primeira edição completa de sua Bíblia surgiu em 1534 e, diferentemente do cânone católico, a variante luterana não incluía sete livros, os quais ele considerava úteis, mas não divinamente inspirados.
Até meados do século 15, os livros eram escritos manualmente pelo próprio autor ou por um monge copista. Na década de 1440, Johannes Gutenberg revolucionou esse cenário ao imprimir os primeiros folhetos com uma técnica inovadora: a prensa de tipos móveis. Ele adaptou um maquinário usado na fabricação de vinho e criou moldes metálicos para cada letra do alfabeto. Isso permitia a montagem dos textos e sua aplicação em folhas de papel soltas, que eram posteriormente reunidas para a composição do volume. Em 1455, Gutenberg imprimiu a Bíblia, considerada o primeiro livro europeu produzido em massa. A partir de então, tornou-se possível reproduzir inúmeras cópias da mesma obra em um tempo infinitamente menor. Esse sistema logo se popularizou e permaneceu quase inalterado pelos séculos seguintes. O processo tipográfico sofreu mudanças significativas somente no final do século 19, com o avanço da Revolução Industrial, aplicada aos jornais e livros. Ainda assim, o método manual se manteve vivo até meados do século 20.
Um século depois da Reforma Luterana, o duque Ernesto I de Saxe-Gota e Saxe-Altenburgo, o Piedoso, encomendou a Wolfgang Endter, um renomado impressor bávaro, o projeto de uma Bíblia nos moldes protestantes. Surgiu, assim, a “Bíblia do Príncipe Eleitor”, que deu origem a uma linhagem de edições conhecidas como “Bíblias Ernestinas”. É um desses raros exemplares que se encontra hoje em Rolante, em exposição no Memorial Anneken. Chamada de Bíblia de 1747, ela ainda inclui os sete livros catalogados à parte por Lutero, os quais seriam excluídos definitivamente das edições protestantes mais tardias. Além de um prefácio escrito pelo teólogo Michael Dilherr, o volume traz retratos e breves biografias de Lutero e dos duques de Saxe-Gota, bem como a Confissão de Augsburgo — o texto confessional adotado pela maioria das igrejas evangélicas luteranas. Quanto à sua fabricação, a matéria-prima utilizada no século 18 era o papel de trapo (uma mistura resistente de linho e algodão), o que garantiu a conservação da obra contra a ação do tempo.
As ilustrações da Bíblia de 1747 merecem destaque especial, tendo sido gravadas por meio de duas técnicas distintas. As imagens menores, inseridas diretamente no texto, foram produzidas em xilogravura. Nesse método, as figuras eram entalhadas em um bloco de madeira — funcionando como um carimbo —, o qual podia ser montado na mesma bandeja dos tipos metálicos. Já a técnica empregada nas gravuras maiores, de página inteira, foi a calcografia. Nesse caso, os desenhos eram feitos por um artista em uma chapa de cobre com o auxílio do buril, uma ferramenta de aço com ponta afiada. Enquanto a xilogravura apresenta traços mais grossos, a calcografia, que se popularizou a partir do século 17, permitia linhas extremamente finas, criando imagens realistas e detalhadas. Depois de impressas e secas, as folhas do volume eram costuradas à mão e encadernadas em uma capa de couro de porco curtido, colada sobre tabuletas de madeira. A superfície era decorada com ornamentos criados por rolos metálicos aquecidos. Fechos e cantoneiras de latão completavam o acabamento. Além da função estética, esses elementos metálicos serviam para proteger as quinas do desgaste e manter o livro firmemente fechado, impedindo que as páginas enrugassem com a umidade. A confecção completa da obra podia levar até dois anos.
Por ser uma versão protestante e estar em exibição em um espaço cujo nome homenageia um padre católico — Jorge Anneken, fundador da cooperativa em 1923 —, a Bíblia de 1747 também exemplifica como cooperativas podem ajudar a preservar patrimônios culturais, mantendo o interesse pela comunidade, desenvolvendo ações educacionais e estimulando os valores universais e comunitários do cooperativismo.


Por Rodrigo Trespach | historiador | @rodrigo.trespach












