O cooperativismo nasceu em 1844, na cidade de Rochdale-Manchester, no interior da Inglaterra, a partir de uma ideia simples e, ao mesmo tempo, profundamente atual: pessoas podem unir esforços para construir soluções que, individualmente, seriam mais difíceis de alcançar. Em um mundo marcado por transformações aceleradas, essa lógica permanece relevante, mas precisa ser continuamente renovada. E essa renovação passa, necessariamente, pela capacidade de formar pessoas preparadas para os desafios do presente e do futuro.
E por falar em futuro, não há dúvidas que os próximos anos do cooperativismo estarão profundamente associados à capacidade de preservar seus princípios e, simultaneamente, desenvolver competências para responder às novas demandas econômicas, sociais, tecnológicas e ambientais. Nesse contexto, o conhecimento deixa de ser apenas um recurso de desenvolvimento e passa a ser um elemento estratégico para a sustentabilidade do movimento cooperativista.
Vale lembrar que a educação sempre guiou o cooperativismo, se retomarmos os pilares do movimento, a encontraremos lá, descrita entre eles. As cooperativas possuem um compromisso de promover a formação dos seus membros, dos representantes eleitos e dos trabalhadores, de forma que estes possam contribuir para o desenvolvimento dessas organizações e comunidades.
A transformação digital, a inteligência artificial, as mudanças nas relações de trabalho, as novas expectativas dos consumidores e a crescente complexidade da gestão das cooperativas, exigem dirigentes, cooperados e profissionais capazes de interpretar cenários, tomar decisões e lidar com ambientes cada vez mais dinâmicos. Mais do que acompanhar essas transformações, será necessário entender seus impactos e antecipar seus desdobramentos.
Não basta incorporar novas tecnologias. É preciso compreender o que elas representam, avaliar riscos e oportunidades, fazer escolhas responsáveis e garantir que a inovação esteja alinhada aos valores que sustentam o cooperativismo. Essa talvez seja uma das grandes questões para o futuro: como inovar sem perder a essência? A resposta passa pela educação.
Uma formação alinhada às necessidades do cooperativismo precisa combinar conhecimento técnico, capacidade de gestão, visão estratégica e compreensão dos princípios que fundamentam esse modelo e da importância da cooperação. Deve desenvolver lideranças capazes de dialogar, construir consensos, trabalhar de forma colaborativa e mobilizar diferentes pessoas em torno de objetivos comuns.
O cooperativismo possui uma característica especialmente relevante nesse cenário: sua centralidade nas pessoas. Os números reforçam essa percepção, o movimento reúne atualmente cerca de 3 milhões de cooperativas, 1 bilhão de cooperados e gera 280 milhões de empregos, segundo o AnuárioCoop 2026. Enquanto diferentes modelos de negócio buscam encontrar formas de humanizar relações em uma economia cada vez mais tecnológica, as cooperativas carregam em sua própria essência valores como participação, colaboração, solidariedade e desenvolvimento coletivo.
Mas princípios não se mantêm apenas pela tradição. Precisam ser conhecidos, compreendidos e vivenciados. É por isso que a formação das novas gerações de lideranças cooperativistas será decisiva. Será preciso criar experiências de aprendizagem que permitam aos novos profissionais compreender o cooperativismo como um modelo capaz de combinar eficiência econômica, participação e impacto social.
Esse processo exige uma mudança importante na forma de pensar a educação. Aprender não pode ser entendido como uma etapa que termina com a conclusão de um curso. Em um ambiente de mudanças permanentes, a aprendizagem precisa acompanhar toda a trajetória profissional. É necessário criar uma cultura em que dirigentes, cooperados e equipes estejam continuamente desenvolvendo novas competências e compartilhando conhecimento.
O desafio da próxima década será transformar conhecimento em capacidade de ação. Isso significa aproximar educação e estratégia, conectar a formação às necessidades concretas das cooperativas e criar ambientes permanentes de aprendizagem. Significa também preparar profissionais para compreender dados, tecnologia e novos modelos de gestão sem perder de vista aquilo que torna o cooperativismo singular: a cooperação entre pessoas.
O futuro não será construído apenas por aqueles que dominarem as tecnologias mais avançadas. Será construído por aqueles que souberem utilizá-las para resolver problemas reais, gerar valor e melhorar a vida das pessoas. É nesse ponto que educação e cooperativismo se encontram: ambos partem da compreensão de que desenvolvimento não acontece de forma isolada, mas por meio de pessoas capazes de colaborar e transformar realidades.
O cooperativismo continuará sendo uma força de desenvolvimento se seguir com o propósito que está em sua própria origem: colocar pessoas no centro. Para isso, precisará de pessoas preparadas para liderar, inovar, cooperar e tomar decisões diante de cenários cada vez mais complexos. Investir em conhecimento, inovação, e cuidado com as pessoas é investir na longevidade do movimento e, sobretudo, na capacidade das novas gerações preservarem seus princípios enquanto constroem novas respostas para um mundo em constantes mudanças.
Fábio Gastal é diretor acadêmico da Faculdade Unimed












