O cooperativismo de crédito brasileiro vive um momento de transformação e esse movimento também se reflete no crescimento expressivo do setor ao longo dos últimos anos. Segundo o Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC), do Banco Central do Brasil, o número de cooperados obteve um crescimento de 155% na última década, de 8,3 milhões, em 2016, para 21,2 milhões, ao final de 2025. Os ativos totais do segmento também mostram força, ao ultrapassarem a marca de R$1 trilhão. Esses números se traduzem em estrutura: o Brasil conta, atualmente, com 753 cooperativas singulares, 26 centrais, três confederações e dois bancos cooperativos, distribuídos em uma rede que já supera 10 mil pontos de atendimento em todo o país. Com o crescimento, as exigências regulatórias aumentam, a tecnologia avança, os custos operacionais se tornam mais complexos e os cooperados esperam instituições cada vez mais acessíveis, ágeis, seguras e capazes de oferecer soluções para diferentes necessidades.
Nesse cenário, uma pergunta ganha importância. Até que ponto uma cooperativa consegue enfrentar, sozinha, os desafios que se tornam cada vez maiores? Minha convicção, construída ao longo de 24 anos de atuação no cooperativismo de crédito, é que crescer em conjunto não significa abrir mão da identidade. Ao contrário, integrar-se a um sistema pode ser justamente o caminho para preservar a proximidade, enquanto se conquista escala, estrutura e capacidade de evolução. Precisamos pensar no cooperado, em como gerar estrutura para garantir os melhores produtos sem deixar de ser competitivo.
A própria regulamentação do cooperativismo nos ajuda a compreender essa realidade. As normas do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional, instituídas nos últimos anos, reconhecem estruturas organizadas em dois e três níveis, atribuindo, às cooperativas centrais e às confederações, responsabilidades relacionadas à governança, supervisão, controles, gestão de riscos e atuação sistêmica. A legislação também estabelece que as cooperativas singulares podem constituir centrais para organizar, em maior escala, serviços de interesse das filiadas e integrar suas atividades. Não se trata apenas de uma escolha administrativa, existe uma arquitetura regulatória que reconhece a importância da organização sistêmica para a solidez e o funcionamento do cooperativismo de crédito.
Mas, a discussão mais importante começa além da regulamentação. Uma cooperativa independente pode ter sua autonomia, conhecer profundamente a comunidade onde está inserida e manter uma relação próxima com seus cooperados. A questão é saber quanto custa sustentar sozinha toda a estrutura necessária para continuar competitiva em um mercado financeiro que exige investimentos em tecnologia, segurança, governança, gestão de riscos, de marca, produtos, pessoas e conformidade.
É nesse ponto que a intercooperação deixa de ser apenas um princípio e passa a ser uma estratégia de futuro. Quando uma cooperativa singular ingressa em um sistema, ela pode compartilhar estruturas, conhecimentos, tecnologias e competências que seriam muito mais difíceis de construir isoladamente. Pode acessar soluções desenvolvidas em escala, diluir custos, ampliar sua capacidade operacional e contar com uma estrutura de apoio para enfrentar desafios que ultrapassam a realidade de uma única instituição. Ao mesmo tempo, continua próxima de quem conhece pelo nome, dos cooperados às empresas, dos produtores à própria comunidade.
É essa combinação que considero especialmente poderosa. É possível ganhar escala sem criar distância, usar a tecnologia para ampliar a capacidade de estar perto e a estrutura compartilhada pode dar, às cooperativas, mais força sem apagar suas identidades próprias, que as tornam únicas. Quando bem construída, a atuação sistêmica permite que cada cooperativa preserve aquilo que a torna única e relevante em seu território, enquanto utiliza a força coletiva para fazer aquilo que, sozinha, seria mais difícil.
No Sistema CrediSIS, temos experimentado essa lógica à medida que ampliamos nossa presença e reunimos diferentes realidades cooperativas. Somos o primeiro e único sistema de cooperativismo de crédito nascido no Norte do Brasil, e nossa trajetória também mostra que um sistema pode crescer, sem perder de vista suas raízes. Começamos há 26 anos, com a união de quatro cooperativas de Rondônia e, nos últimos dez anos, ampliamos o sistema para 14 singulares. A chegada da nossa 15ª cooperativa confirma, na prática, essa visão de crescer como sistema para tornar nossas cooperativas cada vez mais competitivas. A constituição da CrediSIS Copacol, em agosto de 2026, é um exemplo dessa capacidade de unir diferentes competências em torno de um projeto cooperativo. Com 1.430 sócios fundadores, a nova cooperativa passa a integrar o Sistema CrediSIS e leva essa proposta para a região Oeste do Paraná, uma das mais importantes do agronegócio brasileiro.
Essa discussão também esteve presente no 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito, realizado em Goiânia, entre os dias 26 e 28 de agosto de 2026, onde tive a oportunidade de participar do talk show “Além do Crédito: As forças que vão moldar o cooperativismo financeiro até 2030”, ao lado dos presidentes dos sistemas Cresol, Sicredi e Sicoob.
Olhando para os próximos anos, vejo um cooperativismo financeiro ainda mais integrado, não apenas entre cooperativas de crédito, mas também em diálogo com outros ramos. Cooperativas de produção, de saúde, de trabalho e de crédito têm algo em comum. Todas existem para gerar valor para pessoas e comunidades e aproximar essas experiências pode ampliar nossa capacidade de encontrar respostas para desafios, que são cada vez mais interdependentes.
Também acredito que a tecnologia e a inteligência artificial terão papel decisivo nessa transformação. Precisamos usar a tecnologia para reduzir a burocracia, automatizar processos, ganhar inteligência com dados e, principalmente, ampliar o tempo destinado ao relacionamento com o cooperado, para que nossos times se dediquem cada vez mais a um atendimento próximo, humano e personalizado, capaz de compreender e atender às necessidades do cooperado de norte a sul do País.
Construir sistemas suficientemente fortes para competir em um mercado de grande escala, mas próximos o bastante para continuar entendendo as particularidades de cada região talvez esse seja um dos grandes desafios para os próximos anos. Para isso, não precisamos de cooperativas iguais, mas de cooperativas conectadas, fortes e capazes de preservar sua identidade e, ao mesmo tempo, reconhecer que determinados desafios são grandes demais para serem enfrentados individualmente.
No cooperativismo, a autonomia nunca deveria ser confundida com isolamento. Uma cooperativa pode ser dona de sua história, de suas decisões e de sua relação com os cooperados e, ainda assim, escolher caminhar ao lado de outras. É justamente essa capacidade de unir forças, sem apagar diferenças, que pode fazer da intercooperação uma das grandes forças do cooperativismo financeiro brasileiro. Afinal, cooperar não é deixar de ser próximo. É criar condições para continuar próximo, mesmo quando os desafios ficam maiores.
Por Otelo Castellani Filho, presidente do Sistema CrediSIS












