Indicações geográficas: o branding que cresce junto com as cooperativas – Levi Carneiro é Brand Advisor da Loggia e Flávio Pina é CEO da Loggia Group

Como uma configuração estendida do branding contemporâneo, as indicações geográficas caracterizam-se por um selo de qualidade, concedido no Brasil pelo INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), reconhecendo a identidade de um produto ou serviço como próprio de uma determinada região. O café do Cerrado Mineiro (MG), os vinhos do Vale do Vinhedo(RS), as uvas e mangas do Vale Submédio do São Francisco(PE) e o artesanato do Jalapão (TO) são alguns dos exemplos de IGs pioneiras no país.

Ao lado das cooperativas, as indicações geográficas fazem parte de um grupo que podemos chamar de marcas cooperadas ou compartilhadas. Porque, ao estabelecerem e sustentarem a identidade simbólica de determinados produtos ou serviços, elas fazem isso como um projeto coletivo e não individual, com um objetivo maior que é compartilhar os benefícios desse reconhecimento com toda a comunidade de uma determinada cidade ou região. 

Conquistada a IG para uma região, todos ali terão acesso aos seus múltiplos e comprovados resultados: agregação de valor aos produtos, geração de renda e oportunidade, estímulo à organização de produtores, reforço do senso de pertencimento na região, aumento da divulgação e do awareness local, atração de turismo e negócios, dentre outros.

Sem dúvida, é um enorme potencial que ainda tem muito para expandir entre nós: o Brasil tem hoje em torno de 154 indicações geográficas registradas, enquanto a França, que é menor que Minas Gerais, já ultrapassa as 700 IGs das mais de 3.500 reconhecidas pela Comunidade Europeia. E, na Europa, esses produtos com IGs, dentre outros diferenciais, são vendidos por preços duas vezes maiores que os produtos comuns e respondem por mais de 15% da pauta de exportações de alimentos e bebidas.

De uns anos para cá, o Brasil vem se movimentando e registra um crescimento dinâmico e progressivo das indicações.  O Sebrae tem um papel fundamental nesse processo. Desde 2003, o Sebrae colocou-se como apoiador das associações e entidades envolvidas no reconhecimento das indicações geográficas, tanto mapeando potencialidades das regiões quanto dando suporte desde a preparação dos protocolos de reconhecimento até a efetiva implantação das IGs com todos os desafios aí envolvidos.

O cooperativismo também se movimentou e, pela convergência dos objetivos comunitários, partiu de fato para uma parceria mais efetiva na estruturação das IGs em diferentes cidades e regiões, a partir da iniciativa de cooperativas de crédito singulares ou locais. É o caso, por exemplo, de São Tiago em Minas Gerais, onde a atuação do Sicoob Credivertentes foi definitiva para o reconhecimento do biscoito produzido na cidade e para a transformação desse produto em pilar econômico e projeção turística da cidade como Terra do Café com Biscoito. A participação do Sicoob merece menção em outras regiões produtoras de café, queijo e outros alimentos e bebidas. Há registros também de apoio do Sicredi, Cresol e Ailos em diferentes cidades e regiões, notadamente no sul do Brasil, para obtenção da indicação geográfica nessas localidades.

No Sicoob, essas experiências de parcerias locais estimularam o Sistema a criar uma aliança que produzisse avanços mais expressivos. Assim, em 2024, o Sicoob e Sebrae decidiram firmar uma parceria inédita para tornar mais estruturado o apoio às novas indicações geográficas pelo país afora. O compromisso do Sicoob com o desenvolvimento das comunidades, sua capilaridade com milhares de agências e sua vocação na viabilização de créditos para empreendimentos locais passaram a somar com toda experiência e capacidade organizativa e técnica do Sebrae para dar suporte à expansão das IGs como uma nova modalidade de marca de cooperação.

Nas palavras de Ênio Meinen, diretor de Coordenação Sistêmica, Sustentabilidade e Relações Institucionais do Sicoob, os efeitos dessa parceria são crescentemente visíveis: “Nosso papel tem sido o de articulação, identificando cooperativas nas regiões das IGs, promovendo a aproximação com as entidades gestoras e apoiando o desenvolvimento dessas indicações com suporte técnico do Sebrae. Já avançamos concretamente na cadeia da cafeicultura, sobretudo em Minas Gerais e em Rondônia. A expectativa é que, ao longo do tempo, essas IGs avancem em maturidade, ampliem o número de produtores atendidos e ganhem mais consistência na geração de valor para os territórios”.

O aprofundamento das experiências tem trazido justamente essa maior geração de valor. Um bom exemplo é  o  Sicoob Sarom, que tem longa tradição de atuação cooperativa nas localidades próximas da Serra da Canastra/MG, inclusive com o reconhecimento da IG do Queijo daquela região,  e vem ampliando o alcance de sua presença para o Alto Paranaíba, Sudoeste de Minas e Vale da Ribeira, buscando constituir “territórios de cooperação”, onde se conjugam cooperativismo, identidade geográfica e fortalecimento da cultura e do desenvolvimento locais.

Na Europa, essas indicações geográficas já são efetivamente tratadas como marcas, um formato de branding compartilhado,  merecendo tanto um radar que registra todas as IGs da União Europeia (https://www.tmdn.org/giview/) como a proteção legal e apoio comercial que elas necessitam.

No Brasil,  ainda existe uma estrada a ser trilhada e a aproximação entre as cooperativas e as indicações geográficas só tem a ajudar nessa caminhada. Um radar para visualizar o que temos hoje de IGs no país, uma plataforma de comunicação que divulgue o potencial dessas novas marcas cooperadas e vários outros suportes podem ser pensados e concretizados. Sempre com esse sentimento que faz a diferença: impulsionar uma indicação geográfica numa cidade ou região é fortalecer o branding cooperativo e o propósito maior do cooperativismo de unir as pessoas e comunidades para criar valores, compartilhar resultados e tornar a vida melhor para todos.


Levi Carneiro é Brand Advisor da Loggia e Flávio Pina é CEO da Loggia Group

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