O avanço do agronegócio brasileiro nas cadeias globais colocou um novo desafio para o setor: transformar capacidade produtiva em uma estratégia capaz de sustentar essa posição em um ambiente de maior instabilidade. O tema atravessou os debates do 25º Congresso Brasileiro do Agronegócio, realizado nesta segunda-feira (10), em São Paulo, pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) em parceria com a B3.
A programação reuniu lideranças empresariais, especialistas e autoridades para discutir os efeitos da reorganização geopolítica, o avanço de novas tecnologias, a capacidade industrial do país e as alternativas para financiar um setor cada vez mais exposto a riscos econômicos e climáticos.
Na abertura, representantes do agronegócio e do poder público, entre eles o presidente da ABAG, Ingo Plöger, e o vice-presidente Geraldo Alckmin, abordaram os desafios para criar condições de desenvolvimento de longo prazo. Alckmin destacou a transformação da agricultura brasileira nas últimas décadas e lembrou que, há cerca de 50 anos, o país ainda era importador de alimentos. “É um salto extraordinário, mas temos desafios pela frente, desafios ainda maiores neste momento, de duas guerras, fora os conflitos regionais”, afirmou.
Ao abrir oficialmente a 25ª edição, Ingo Plöger destacou o papel do Congresso na discussão dos movimentos que devem orientar o futuro do setor e do país. “Mais do que acompanhar os acontecimentos, este Congresso sempre procurou antecipar tendências, compreender os grandes movimentos globais e contribuir para a construção de uma visão estratégica de longo prazo para o Brasil”, afirmou o presidente da ABAG.
Participação política do Agronegóciobrasileiro
A posição do Brasil diante das transformações internacionais ganhou espaço na mesa-redonda O Agro na Geopolítica. O diplomata Braz Baracuhy apontou três mudanças estruturais: a passagem de um ambiente internacional centrado nos Estados Unidos para uma competição mais direta entre norte-americanos e chineses; a perda de força da ordem multilateral consolidada nas últimas décadas; e a substituição da globalização baseada principalmente na integração econômica por uma lógica na qual segurança nacional, cadeias de suprimento e rivalidade geopolítica ganham peso.
Esse movimento afeta diretamente um país que mantém os Estados Unidos como ator estratégico no continente e tem a China como principal polo de suas relações comerciais. Para o agronegócio, a reorganização amplia a importância de temas como segurança alimentar e energética, diversificação de mercados e coordenação entre diplomacia e iniciativa privada.
Alexandre Parola, embaixador e participante da mesa, avaliou que a disputa entre grandes potências é estrutural e tende a exigir maior pragmatismo do Brasil. O país, segundo ele, possui importância estratégica tanto para os Estados Unidos quanto para a China, especialmente por sua capacidade de fornecimento de alimentos. Essa condição abre espaço para uma atuação equilibrada, mas também aumenta a necessidade de definir prioridades. “No momento em que todos os países vão para uma lógica de geopolítica de segurança nacional, deixar de planejar o futuro é uma coisa que nós não podemos permitir”, destacou.
Tecnologia amplia capacidade do agro
A disputa por competitividade também passa pela incorporação da inteligência artificial e pelo uso estratégico de dados. Mariana Vasconcelos, CEO da AgroSmart, destacou aplicações em pesquisa, bioinsumos, monitoramento climático e automação no campo. A plataforma reúne informações de mais de 100 mil produtores e 48 milhões de hectares. “A inteligência artificial não é um produto, ela é uma infraestrutura. E, a partir de agora, vai estar em todas as camadas do agro”, afirmou.


A discussão tecnológica avançou para a capacidade de desenvolver soluções dentro do próprio país. No painel A indústria que revoluciona o Agro, Gastón Díaz Pérez, presidente e CEO da Bosch América Latina, defendeu que Brasil e América Latina não se limitem à produção e exportação de commodities. A companhia instalou no país um centro de tecnologia voltado ao agro global, com projetos relacionados a plantadeiras inteligentes e sistemas de pulverização que utilizam câmeras e inteligência artificial para diferenciar plantas durante a operação. “Nós não podemos aceitar ser simplesmente o produtor do grão”, afirmou Díaz Pérez ao defender a geração local das tecnologias utilizadas por um dos principais mercados agrícolas do mundo.
Indústria e regulação
O avanço tecnológico, entretanto, não depende apenas da capacidade de desenvolver novas soluções. A chegada dessas inovações ao campo também passa por um ambiente regulatório capaz de acompanhar as particularidades da agricultura tropical. Ana Repazza, presidente da CropLife Brasil, destacou que novas tecnologias precisam responder a condições climáticas e fitossanitárias distintas das encontradas em outras regiões do mundo.
Nesse cenário, o debate abordou a regulamentação dos marcos de bioinsumos e defensivos, além da proteção de cultivares, patentes e propriedade intelectual. Segundo Repazza, algumas moléculas demandam entre dez e 11 anos de pesquisa antes de chegar ao mercado, o que aumenta a importância de regras capazes de acompanhar o desenvolvimento tecnológico sem comprometer os critérios de segurança. As 52 empresas representadas pela CropLife atuam em quatro frentes tecnológicas e faturaram, juntas, R$ 114 bilhões em 2024.
A discussão também relacionou inovação à capacidade industrial e à geração de valor dentro do país. No segmento de biocombustíveis, os participantes destacaram o uso de matérias-primas como milho e sorgo, a automação dos processos produtivos e a substituição de fontes fósseis em máquinas agrícolas como caminhos para ampliar a competitividade e reduzir emissões. Segundo dados apresentados no painel, cada emprego direto gerado pela atividade corresponde a outros 11 postos indiretos.
Capital e gestão de riscos
Entre os temas apresentados no painel Investimento e Financiamento em Tempos Voláteis esteve a necessidade de ampliar e diversificar as fontes de recursos disponíveis ao agronegócio. Nesse contexto, os especialistas destacaram a evolução de instrumentos como CRA, Fiagro e CPR e seu papel na aproximação entre investidores e agentes do setor.
Para Flávia Palacios, diretora da ANBIMA, um dos desafios está justamente em reduzir a distância entre quem busca crédito e quem oferece os recursos. “É necessário capacitar o produtor para compreender a análise de crédito e, ao mesmo tempo, fazer com que os agentes do mercado financeiro conheçam melhor a dinâmica da atividade dentro e fora da porteira, inclusive para identificar quais instrumentos de seguro são mais adequados para cada risco”, afirmou.
Governança e transparência também apareceram nas discussões como fatores relacionados ao acesso a diferentes fontes de recursos. Julyana Yokota, managing director e especialista setorial da S&P Global Ratings, ressaltou que a volatilidade faz parte da atividade agropecuária e exige planejamento financeiro e estruturas de gestão capazes de oferecer mais informações ao mercado.
O seguro rural completou o debate sobre financiamento e gestão de riscos. Monique Cardoso, superintendente de Sustentabilidade da CNseg, chamou atenção para a baixa adesão ao instrumento no país e para sua importância diante de eventos climáticos mais frequentes e intensos. Além da proteção ao produtor, o seguro foi apresentado como ferramenta capaz de qualificar a avaliação de riscos e apoiar a concessão de crédito.
Por João Victor – Redação MundoCoop












