O Brasil está envelhecendo, e rápido. Segundo o Censo 2022 do IBGE, o país já conta com mais de 34 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, e as projeções indicam que até 2050 essa faixa etária representará quase um terço da população brasileira. Em paralelo, o sistema de previdência complementar acumulou, em junho de 2025, um patrimônio de R$ 3,1 trilhões, equivalente a 25% do PIB nacional, conforme o Relatório Gerencial de Previdência Complementar (RGPC) do Ministério da Previdência Social.
Por décadas, a previdência foi associada apenas a aposentadoria, mas hoje assume um papel mais amplo, como observa Kaciane Falcão Maciel, Superintendente de Investimentos da ZIIN, a Plataforma de Investimentos da Unicred. “Essa mudança é impulsionada pelo aumento da expectativa de vida, pelas discussões sobre a sustentabilidade da previdência pública e pela crescente conscientização sobre a importância do planejamento de longo prazo. Especialmente, após a Lei Complementar nº 109/2001, o segmento evoluiu significativamente, contribuindo para o fortalecimento da confiança dos participantes e para a expansão no país.”
O dado mais revelador sobre a urgência desse reposicionamento vem do próprio sistema público. Atualmente, cerca de 70% dos aposentados brasileiros recebem até um salário-mínimo, o que torna a construção de uma reserva complementar cada vez necessária. E é esse contexto que o cooperativismo pode e deve explorar.
Glauco Balthar, Diretor de Tecnologia e Operações da Quanta Previdência, enxerga essa transição de forma estrutural. Para ele, a previdência complementar fechada, administrada pelas EFPCs, entidades sem fins lucrativos com características próximas ao cooperativismo, “começa a ocupar um papel muito mais amplo, o de uma plataforma de segurança, autonomia e planejamento de vida. Uma Plataforma de Proteção da família e também da Cooperativa.”
O novo perfil do cooperado
Atualmente, a chamada economia prateada movimenta cerca de R$ 2 trilhões por ano no Brasil, segundo levantamento da consultoria Data8, e reúne mais de 4,5 milhões de empreendedores com mais de 60 anos.
Para Kaciane, esse fenômeno impõe a responsabilidade estratégica às cooperativas de reposicionar sua proposta de valor. “Estamos vivenciando uma inversão da pirâmide etária. A longevidade está redefinindo a forma como as pessoas enxergam o futuro e transformando a aposentadoria de um evento em uma nova fase da vida.”

”As cooperativas terão um papel cada vez mais estratégico na democratização do planejamento financeiro no Brasil” – KACIANE FALCÃO MACIEL, SUPERINTENDENTE DA ZIIN
Os números confirmam a magnitude da mudança. Segundo o IBGE, a população com mais de 65 anos deve triplicar até 2060. “A aposentadoria deixa de ser um destino e passa a ser uma jornada. Isso inclui acumulação, renda, proteção, educação financeira, planejamento sucessório, orientação para transições de carreira, apoio em decisões de vida e integração com soluções de bem-estar”, reforça Balthar.
Tecnologia a serviço do cooperado
O cooperado do futuro é digital, mas não quer lidar com dificuldades. Por isso, o desafio das cooperativas agora é usar dados, IA e Open Finance de forma mais inteligente e personalizada. “O segredo é não levar a complexidade do sistema para o cooperado. Para o usuário, a experiência deve ser simples, orientada e muito conectada à vida real, à necessidade e ao contexto de cada pessoa e cada família”, acrescenta Glauco Balthar.
“No cooperativismo, a evolução é ainda mais poderosa. Porque previdência não é só investimento. É cuidado coletivo e construção de futuro” – GLAUCO BALTHAR, DIRETOR DA QUANTA PREVIDÊNCIA

Com fintechs expandindo para o segmento previdenciário e grandes players de mercado disputando participação, a questão que se coloca ao cooperativismo é: qual o seu diferencial real? Os números ajudam a responder. A rentabilidade acumulada das EFPCs no período de 2016 a junho de 2025 foi de 171,5%, enquanto o segmento aberto alcançou retorno médio de 128,7% no mesmo período, segundo o RGPC.
Para Balthar, esse desempenho financeiro superior é apenas parte do diferencial. “As fintechs são muito boas em experiência digital. As entidades abertas são fortes em distribuição, marca e velocidade comercial. Mas as EFPCs têm algo que é difícil de copiar: vínculo institucional, ausência de lógica puramente transacional, proteção jornada do cooperado, da família e da cooperativa.”
Mostrar valor no presente
Um dos maiores obstáculos históricos da previdência complementar é o baixo engajamento. Para reverter esse quadro, Balthar defende uma ruptura na comunicação e na experiência do produto. “O primeiro ponto é reconhecer que previdência sempre sofreu por parecer distante. Para muita gente, ela está associada a um futuro abstrato. E tudo que é abstrato perde prioridade diante das urgências do presente. Para mudar isso, precisamos mostrar valor agora.”
Na prática, isso implica substituir o discurso técnico pelo da vida real. Mensagens como segurança financeira, liberdade de escolha, proteção da família e continuidade de renda comunicam com mais eficácia do que rentabilidade ou benefício fiscal. ”O cooperado precisa perceber que previdência não serve apenas para daqui a 30 anos. Ela serve para organizar escolhas hoje, reduzir ansiedade financeira hoje e criar disciplina de poupança hoje”, acrescenta o diretor.
Ao fim desse panorama, o futuro da previdência não será construído por quem tiver a plataforma mais sofisticada ou a taxa mais competitiva. “A velocidade com que o mundo muda torna o planejamento ainda mais necessário. O cooperativismo possui uma vantagem importante nesse processo. Sua proposta sempre esteve baseada nas relações duradouras, na geração de valor sustentável e no alinhamento de interesses entre a instituição e seus cooperados. Esses atributos continuam extremamente atuais.”, enfatiza a Superintendente.
Para o cooperativismo esse cenário representa novas oportunidades. “A previdência complementar fechada está se transformando em uma plataforma de vida financeira e longevidade para o cooperado. Uma solução que conecta presente e futuro. Que ajuda a pessoa a poupar, proteger, planejar, decidir e viver melhor. Esse é um território em que o cooperativismo está sendo protagonista”, conclui Glauco.
Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop

Matéria exclusiva publicada na edição 132 da Revista MundoCoop












