O avanço da bancarização no Brasil já não é suficiente para garantir estabilidade econômica às famílias. A avaliação predominou entre representantes do Banco Central, cooperativismo, sistema bancário e especialistas em educação financeira reunidos nesta terça-feira (20), em São Paulo, durante o Fórum Bem-Estar Financeiro, promovido pelo Sicredi. O debate apontou que o principal desafio do sistema financeiro brasileiro agora passa pela capacidade da população de transformar acesso ao crédito e aos serviços financeiros em segurança, planejamento e qualidade de vida.
O cenário apresentado durante o encontro reforçou a preocupação com a vulnerabilidade financeira das famílias brasileiras. Dados compartilhados pelo Sicredi indicam que 67% dos brasileiros não se sentem seguros em relação ao futuro financeiro, enquanto menos de 40% possuem algum tipo de reserva financeira, seja poupança ou fundo de emergência. Além disso, apenas 35% afirmam que a gestão financeira impacta positivamente sua qualidade de vida.
Durante o evento, a MundoCoop acompanhou lideranças do cooperativismo, representantes do Banco Central e especialistas do sistema financeiro defendendo que o país precisa avançar da inclusão bancária para uma agenda mais ampla de bem-estar financeiro.
Inclusão e bem-estar financeiro
A transformação da agenda financeira brasileira esteve no centro da palestra de abertura conduzida por Luis Mansur, Chefe do Departamento de Promoção da Cidadania Financeira (Depef) do Banco Central do Brasil (BCB). Durante a apresentação, o representante do BC afirmou que o país vive uma nova etapa da inclusão financeira, marcada menos pelo desafio do acesso bancário e mais pela necessidade de garantir estabilidade econômica, capacidade de planejamento e segurança financeira às famílias brasileiras.
Segundo Mansur, o avanço da bancarização ocorrido nos últimos anos ampliou o acesso da população ao sistema financeiro, mas não eliminou problemas relacionados ao endividamento, à ausência de reservas financeiras e à dificuldade de utilização consciente do crédito. Para ele, o debate sobre bem-estar financeiro passa a ocupar posição estratégica dentro das políticas públicas e das discussões conduzidas por organismos internacionais. “O problema agora não é mais ter conta. O que a gente tem que observar é a qualidade dessa inclusão financeira e o bem-estar financeiro. É preciso que esse acesso ao sistema financeiro se transforme em bem-estar para a população”, afirmou.
O executivo também destacou que o tema passou a ganhar relevância em instituições multilaterais e fóruns globais ligados ao sistema financeiro. Segundo ele, organismos como OCDE, Banco Mundial e o G20 começaram a desenvolver métricas voltadas à capacidade das pessoas de administrar despesas cotidianas, lidar com imprevistos, planejar objetivos de longo prazo e manter sensação de segurança financeira.
Mansur ressaltou ainda que a fragilidade financeira das famílias produz impactos que ultrapassam o orçamento doméstico e passam a afetar o desempenho da própria economia. “Quando uma grande parcela da população está endividada ou vive sem reserva de emergência, a economia como um todo se torna mais vulnerável”, afirmou.
Proximidade
A relação entre cooperativismo e bem-estar financeiro também ganhou destaque durante o painel “Além do dinheiro: o que influencia o bem-estar financeiro?”, que reuniu a presidente do Sistema OCB, Tânia Zanella, Dirlene Silva, economista e fundadora da DS Estratégias de Educação & Inteligência Financeira, Vivian Rodrigues, planejadora financeira e Fundadora da Papo de Valor, e César Gioda Bochi, presidente do Sicredi.
Durante a discussão, Tânia afirmou que a educação financeira já integra os princípios estruturais do cooperativismo e precisa ganhar ainda mais relevância diante do atual cenário de endividamento das famílias brasileiras. “O cooperativismo tem isso no seu DNA. O cooperado chega à cooperativa em busca de condições mais justas e de participação nas decisões. Hoje, mais de 17 milhões de brasileiros estão nas cooperativas de crédito e existe uma grande responsabilidade de ampliar essa cultura de educação e gestão financeira”, destacou.
A dirigente também ressaltou a capilaridade do cooperativismo financeiro no país. Segundo Tânia, as cooperativas de crédito estão presentes em mais de 600 municípios como única instituição financeira disponível à população, o que amplia o papel do setor na democratização do acesso ao crédito e na orientação financeira dos cooperados.



A relação de confiança construída entre cooperativas e associados apareceu como outro ponto central do debate. Para César, credibilidade e proximidade seguem como elementos decisivos para fortalecer a relação entre instituições financeiras e consumidores em meio ao avanço da digitalização do setor. “Confiança e credibilidade no sistema financeiro é tudo. O cliente precisa sentir que está lidando com um parceiro que vai proporcionar bem-estar financeiro. Essa relação mais próxima e humana é um diferencial que o cooperativismo construiu ao longo do tempo”, afirmou.
Qualidade do endividamento preocupa
O avanço do endividamento e o uso crescente de modalidades de crédito de alto custo concentraram parte importante das discussões do fórum. Durante os painéis, a deterioração da qualidade das dívidas assumidas pelas famílias brasileiras preocupa, especialmente diante do aumento da utilização de crédito rotativo, cheque especial e empréstimos de curto prazo.
César Gioda Bochi afirmou que o país vive um cenário diferente de ciclos anteriores de endividamento, principalmente pelo perfil das dívidas contratadas atualmente. Segundo ele, parte relevante da população passou a recorrer a linhas de crédito caras e com baixa capacidade de geração de renda futura. “O endividamento pelo endividamento não é necessariamente ruim quando está ligado à aquisição de patrimônio, educação ou geração de renda. O problema está no crédito caro e de curto prazo, que aumenta a vulnerabilidade financeira das famílias”, afirmou.
A discussão também apareceu no painel “Inovação a serviço de uma vida financeira sustentável”. Para Ana Carla Abrão, CEO Open Finance Brasil, a dificuldade de acesso da população a soluções financeiras mais vantajosas ainda passa por problemas relacionados à comunicação, ao letramento financeiro e à confiança no ambiente digital. “As pessoas ainda têm dificuldade ou receio de aderirem aos benefícios disponíveis no Open Finance. Isso passa por informação, comunicação, educação e letramento financeiro”, afirmou.
Dados apresentados durante o painel “Resultados que transformam: estratégias para potencializar o bem-estar financeiro” apontaram que uma pessoa passa a ser considerada em situação de endividamento de risco quando apresenta comprometimento excessivo de renda, inadimplência prolongada e exposição recorrente a modalidades de crédito de juros elevados.
Educação financeira como estratégia do setor
Ao longo do fórum, especialistas defenderam que a educação financeira passou a ocupar posição estratégica dentro das instituições financeiras e regulatórias. Além da ampliação do acesso ao crédito e dos serviços digitais, os participantes afirmaram que o setor precisa ampliar investimentos em orientação financeira, comunicação acessível e construção de confiança para reduzir a vulnerabilidade econômica da população.
Durante o debate, Vivian Rodrigues afirmou que a construção do bem-estar financeiro depende da capacidade de transformar experiências individuais em processos contínuos de educação financeira e desenvolvimento coletivo.
O evento também contou com a palestra de encerramento “Comportamento, emoções e escolhas: a ciência por trás das finanças”, conduzida pelo palestrante Michael Norton, Professor de Administração de Empresas na Harvard Business School. O especialista apresentou reflexões sobre comportamento financeiro, emoções e tomada de decisão, reforçando a avaliação de que o debate sobre bem-estar financeiro deixou de envolver apenas renda e acesso ao crédito e passou a considerar fatores ligados à confiança, comportamento e segurança econômica das famílias.
O Fórum defendeu que a agenda de bem-estar financeiro deve ganhar espaço nos próximos anos como parte das estratégias de sustentabilidade econômica e inclusão financeira do país. A expectativa apresentada durante o encontro é que novas métricas e pesquisas sobre o tema avancem a partir de 2026, ampliando a capacidade de mensuração da saúde financeira da população brasileira.
Por João Victor – Redação MundoCoop












