O risco de um novo ciclo de El Niño entre 2026 e 2027 já começa a acender alertas além do agronegócio. Em relatório divulgado nesta segunda-feira, 18, o Bank of America (BofA) afirma que um possível “Super El Niño” pode pressionar bancos e seguradoras brasileiras expostos ao setor rural, aumentando inadimplência, necessidade de provisões e sinistralidade em seguros ligados ao campo e a eventos climáticos extremos.
A avaliação do banco leva em conta um aumento das chances de formação do fenômeno climático. Segundo previsões da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), a probabilidade de desenvolvimento de um novo El Niño em 2026 já supera 90% a partir da primavera do Hemisfério Sul, embora especialistas ressaltem que ainda há elevada incerteza sobre a intensidade do evento.
No relatório, os analistas do BofA destacam que os episódios de El Niño historicamente provocam excesso de chuvas no Sul do Brasil e condições mais secas e quentes no Centro-Oeste, afetando principalmente a produção de soja e milho, culturas que representam cerca de 85% da produção de grãos do país.
“Caso um Super El Niño se concretize, esperamos mais pressão sobre o fluxo de caixa dos produtores rurais, atrasando a recuperação do setor e aumentando as necessidades de provisões dos bancos”, afirma o documento.
Além da redução de produtividade agrícola, o banco também aponta que os custos elevados de fertilizantes e insumos, agravados por tensões geopolíticas globais, como a guerra no Oriente Médio, devem continuar comprimindo as margens dos produtores na safra 2026/27.
Segundo o BofA, a deterioração da qualidade de crédito no campo já vem sendo impulsionada por uma combinação de margens mais apertadas, alavancagem elevada e juros altos. O relatório afirma que esses fatores “provavelmente não melhorarão de forma significativa antes do segundo semestre de 2026”.
Com isso, o banco espera aumento das renegociações de empréstimos e dos índices de inadimplência no crédito rural, o que pode exigir reforço de provisões por parte das instituições financeiras.
“Programas extraordinários de renegociação podem proporcionar alívio temporário aos índices de inadimplência, mas as pressões estruturais persistem e podem levar a uma deterioração ainda maior em 2027/2028”, diz o relatório.
Quais são os bancos e seguradoras que podem ser afetadas
Entre os bancos listados na B3, o Banco do Brasil aparece como a instituição mais vulnerável ao cenário, devido à forte exposição ao agronegócio. Segundo o levantamento, cerca de 33% da carteira de crédito expandida do banco está ligada ao setor rural.
Na sequência aparecem ABC Brasil, com exposição de 24%, e Banrisul, com 21%. O BofA mantém recomendação “Underperform”, de desempenho abaixo do esperado e inferior à referência, para os três papéis, indicando expectativa de desempenho abaixo da média do mercado.
Outros grandes bancos também aparecem no levantamento, embora com menor exposição. É o caso de Itaú (9%), Bradesco (8%), BTG Pactual (5%) e Santander (3%).
O impacto potencial do El Niño, porém, não se limita aos bancos. O BofA também vê risco relevante para seguradoras, principalmente nos segmentos rural, residencial e automotivo, diante da possibilidade de aumento da frequência de eventos climáticos extremos.
De acordo com o relatório, os índices de sinistralidade nos seguros residenciais e rurais aumentaram entre 2 e 3 pontos percentuais nos ciclos de El Niño registrados na última década. “Chuvas acima da média também podem aumentar a frequência de sinistros nos seguros residenciais, rurais e automotivos”, afirma o banco.
A Porto Seguro aparece como a seguradora mais exposta ao risco climático, já que 48% de suas receitas vêm desses segmentos considerados mais sensíveis aos efeitos do fenômeno. Em seguida aparecem BB Seguridade, com exposição de 34%, e Caixa Seguridade, com 11%.
O relatório estima que cada aumento de 100 pontos-base no índice de sinistralidade pode reduzir em cerca de 1% os lucros das seguradoras. Ainda assim, o BofA pondera que mecanismos de resseguro e diversificação de operações devem ajudar a amortecer parte dos impactos financeiros sobre as companhias.
Previsões extremas ainda são consideradas especulativas
Apesar do avanço das previsões climáticas, especialistas ressaltam que ainda é cedo para estimar com precisão os efeitos do próximo El Niño sobre o Brasil. O Instituto Internacional de Pesquisa em Clima e Sociedade (IRI) destaca que as projeções feitas nesta época do ano ainda carregam alto grau de incerteza, especialmente em relação à intensidade do fenômeno.
Meteorologistas também alertam que o El Niño não provoca desastres climáticos diretamente, mas altera as probabilidades de ocorrência de eventos extremos, como secas, ondas de calor e chuvas intensas.
Nos episódios recentes de 2015 e 2016 e 2023 e 2024, classificados como Super El Niño, o Brasil registrou impactos relevantes sobre a agricultura e eventos climáticos severos, especialmente no Sul do país e na Amazônia.
Fonte: Exame












