O agronegócio brasileiro está cada vez mais aberto à inovação – mas ainda não pode errar. Em um setor onde decisões são tomadas dentro do ciclo da safra, testar uma nova tecnologia pode significar ganhos de eficiência ou prejuízos diretos na produtividade e no planejamento.
Esse risco não é apenas técnico, mas estrutural. O Brasil ainda enfrenta baixo investimento em inovação agropecuária e dificuldades no acesso ao crédito, especialmente para pequenos produtores, que muitas vezes recorrem a linhas privadas com juros mais altos. Na prática, isso faz com que o custo do erro continue concentrado no produtor.
Além disso, testar inovação no campo não é neutro. Estudos mostram que a experimentação pode gerar perdas econômicas temporárias até que a solução seja validada, expondo o produtor a resultados piores antes de encontrar o melhor modelo produtivo. Fatores como falta de infraestrutura, baixa capacitação técnica e dificuldade de integração de dados também aumentam a incerteza.
A situação se torna ainda mais complexa diante de desafios como falta de infraestrutura – incluindo conectividade e acesso à energia – e baixa capacitação técnica em algumas regiões, o que dificulta a avaliação do custo-benefício das tecnologias, como levantou o Ministério da Agricultura e Pecuária em 2025. Soma-se a isso a fragmentação tecnológica: produtores chegam a operar múltiplas plataformas que não se integram, dificultando a análise de resultados e a tomada de decisão.
Diante desse cenário, começam a ganhar força iniciativas que buscam estruturar melhor o processo de experimentação no agro, reduzindo riscos e distribuindo responsabilidades entre diferentes atores do ecossistema.
Mas inovar não é bom?
“Diferente de outros setores, o agro não consegue testar, ajustar e validar soluções em ciclos curtos. O teste de soluções acontece na safra, sob condições reais de clima, solo e manejo, o que limita o número de tentativas ao longo do ano e torna o erro mais caro. Uma decisão equivocada pode impactar diretamente produtividade, custo e planejamento da safra”, afirma Dirceu Ferreira Junior, sócio da PwC Brasil e líder do PwC Agtech Innovation.

“Uma decisão equivocada pode impactar diretamente produtividade, custo e planejamento da safra.” – DIRCEU FERREIRA JUNIOR, SÓCIO DA PWC BRASIL E LÍDER DO PWC AGTECH INNOVATION
Nesse contexto, modelos que organizam a jornada de inovação têm se mostrado mais eficientes do que iniciativas isoladas. “Ao participar de um ecossistema de inovação, o produtor deixa de aprender sozinho. Ele passa a trocar experiências com startups, empresas, pesquisadores, investidores e outros produtores, o que ajuda na tomada de decisões mais bem informadas e evita testes desalinhados com a realidade da fazenda”.
Na prática, isso significa criar etapas intermediárias entre a ideia e a adoção em larga escala. “Nos estágios iniciais, testes em ambientes controlados e áreas experimentais são fundamentais para validar o funcionamento técnico, ajustar parâmetros e reduzir incertezas antes da exposição ao campo produtivo. De todas as formas, testar pequeno é importante antes de evoluir para a escala”.
Do teste isolado ao processo estruturado
Essa lógica também tem sido aplicada por hubs de inovação conectados ao agro, que atuam como ponte entre tecnologia e campo. É o caso do Cocriagro, hub ligado à Sociedade Rural do Paraná, com atuação próxima a cooperativas, empresas e produtores.
“No Cocriagro, a decisão de levar uma tecnologia ao campo é baseada em critérios técnicos já consolidados na nossa operação”, afirma Tatiana Fiuza, diretora de inovação da Sociedade Rural do Paraná e CEO do Cocriagro.
“Esse nível de organização reduz incertezas e transforma a experimentação em um processo técnico, e não em uma aposta.” – TATIANA FIUZA, CEO DA COCRIAGRO

A proposta é evitar que o produtor assuma sozinho o risco inicial da inovação. “De forma prática, trabalhamos com soluções que já superaram a fase conceitual e apresentam validações anteriores, seja em ambiente controlado ou em aplicações iniciais. Isso evita que o produtor assuma um papel de experimentação primária”.
O modelo também reforça o papel do cooperativismo na difusão de tecnologia, ao conectar diferentes atores em torno de testes mais organizados e alinhados à realidade produtiva.
Segundo Tatiana, o produtor está mais aberto à inovação – mas com maior nível de exigência. “O produtor está disposto a testar, desde que exista método, clareza e retorno esperado”.
Cooperativas como ambiente de teste estruturado
Na prática, parte desse avanço na organização da inovação passa pelo fortalecimento da relação entre hubs e cooperativas. Um exemplo é a atuação do Cocriagro, hub de inovação ligado à Sociedade Rural do Paraná, que tem se consolidado como ponto de conexão entre produtores, empresas e startups.
“Antes de qualquer validação, são definidos os objetivos do teste, os indicadores que serão acompanhados e os critérios que determinam sucesso ou não. Esse nível de organização reduz incertezas e transforma a experimentação em um processo técnico, e não em uma aposta”, afirma Tatiana Fiuza.
A experiência da Integrada Cooperativa Agroindustrial ilustra esse movimento. Ao integrar o hub por meio do programa Conexão Integrada, a cooperativa passou a testar soluções de startups em um ambiente estruturado, com acesso a parceiros, projetos colaborativos e suporte técnico ao longo da implementação. A conexão permitiu ampliar o acesso a tecnologias e acelerar a adoção de inovação no campo, com foco em produtividade, eficiência e geração de valor para o cooperado.
O risco de não testar
Se errar custa caro, não testar pode custar ainda mais. Com a pressão global por aumento da produção – estimada em cerca de 70% até 2050, segundo a PwC com base na Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura –, a inovação deixou de ser opcional.
“O maior risco, hoje, não está na experimentação controlada de novas tecnologias, mas na ausência de movimento diante das transformações que já estão em curso”, afirma Tatiana.
Nesse cenário, a tendência é que o risco da inovação deixe de ser individual e passe a ser compartilhado – seja por meio de cooperativas, hubs, empresas ou outros modelos colaborativos.
“A dificuldade de validação comercial das agtechs raramente se deve a um único fator. Na prática, a validação comercial acontece com mais consistência quando existe um caminho estruturado de experimentação, confiança e troca entre os diferentes atores do ecossistema”, conclui Dirceu.
Mais do que uma questão tecnológica, o avanço da inovação no agro passa, cada vez mais, pela forma como o risco é distribuído – e pelo quanto o produtor deixa de estar sozinho nesse processo.
Por Andrezza Hernandes, Redação MundoCoop

Matéria exclusiva publicada na edição 130 da Revista MundoCoop












