Cidades inteligentes exigem gestão inteligente: os caminhos até 2030

A construção de cidades inteligentes no Brasil vai além da simples digitalização de serviços e passa por uma transformação estrutural da gestão pública, com foco em dados, eficiência e impacto real na vida da população. Mais do que tecnologia, o avanço está na capacidade de integrar planejamento, governança e tomada de decisão baseada em evidências.

Para entender melhor esse processo e como o Brasil caminha nesse sentido, a MundoCoop conversou com a Dra. Grazi Carvalho, Head de Inovação na LICI GovTech. Na conversa, ela explora caminhos práticos para esse avanço, destacando o papel da geoinformação, da governança orientada por dados e das novas lideranças na construção de territórios mais sustentáveis e eficientes.

ENTREVISTA Grazi
Dra. Grazi Carvalho, Head de Inovação na LICI GovTech

1. O conceito de cidades inteligentes evoluiu muito além da tecnologia. Na sua visão, qual será o principal diferencial entre cidades que apenas digitalizam serviços e aquelas que realmente se tornarão inteligentes até 2026?

A ideia de que uma cidade pode simplesmente “se tornar inteligente” em um curto prazo é um equívoco bastante comum. A transformação de uma cidade em um território mais eficiente, sustentável e orientado a dados é um processo estrutural, que envolve mudanças institucionais, capacidade técnica e maturidade na gestão pública. Portanto, nenhuma cidade se tornará plenamente inteligente até 2026 — o que veremos são cidades em diferentes estágios desse processo.

O principal diferencial entre municípios que apenas digitalizam serviços e aqueles que realmente caminham para se tornar cidades inteligentes está na forma como utilizam a tecnologia para resolver problemas públicos de maneira estruturada. Digitalizar um serviço pode melhorar a interface com o cidadão, mas não necessariamente transforma a capacidade do governo de planejar e executar políticas públicas.

Cidades que avançam são aquelas que investem em capacitação dos servidores, qualificam seus processos e adotam uma gestão orientada por dados. Quando tecnologia, capacidade institucional e governança caminham juntas, a cidade passa a antecipar soluções e aplicar melhor os recursos públicos, gerando impactos reais como melhores serviços e maior transparência.

2. Você defende a geoinformação como base para decisões urbanas. Como os municípios brasileiros, especialmente os de pequeno porte, podem estruturar uma infraestrutura de dados eficiente mesmo com limitações orçamentárias?

A geoinformação é uma base fundamental para qualificar a tomada de decisão na gestão pública. Quando o território passa a ser analisado com dados estruturados, o gestor deixa de atuar de forma reativa e passa a planejar com maior precisão.

Mesmo com limitações, municípios de pequeno porte podem estruturar uma infraestrutura de dados eficiente. Um caminho viável é o fortalecimento de consórcios intermunicipais, que permitem compartilhar tecnologia e custos. Também há acesso a linhas de financiamento voltadas à modernização da gestão, com alto potencial de retorno ao município, especialmente na melhoria da arrecadação e do planejamento territorial.

Outro ponto importante é começar organizando dados já disponíveis de bases públicas. A partir disso, o município pode evoluir gradualmente. Mais do que tecnologia, trata-se de estruturar informações estratégicas que fortalecem a gestão e ampliam a eficiência do uso dos recursos públicos.

3. Com a crescente pressão por resultados e indicadores na gestão pública, como a governança orientada por dados deve transformar a relação administrativa nas cidades, nos próximos anos?

A pressão por resultados na gestão pública tem aumentado, impulsionando a necessidade de demonstrar o impacto real das políticas públicas. Nesse contexto, a governança orientada por dados tende a transformar como as administrações municipais planejam, executam e monitoram suas ações.

Nos próximos anos, a gestão pública será cada vez mais baseada em evidências. Decisões sobre investimentos e políticas precisarão estar apoiadas em indicadores e diagnósticos, além de sistemas de monitoramento que acompanhem resultados ao longo do tempo.

Essa transformação também promove maior integração entre áreas da administração, permitindo atuação mais coordenada. Quando bem estruturada, fortalece a capacidade de decisão, melhora o uso de recursos públicos e aproxima a gestão dos resultados que impactam a população.

4. A Agenda 2030 e as diretrizes nacionais vêm exigindo maior integração entre planejamento urbano, sustentabilidade e inovação. Onde você enxerga hoje o maior gargalo para que as cidades brasileiras avancem de forma sistêmica? Como caminhar para uma solução efetiva?

O maior gargalo para que as cidades brasileiras avancem de forma sistêmica não está na falta de diretrizes, mas na capacidade de integração e execução dessas agendas dentro da gestão pública.

Na prática, muitos municípios possuem planos elaborados de forma isolada, sem conexão entre si e sem mecanismos claros de monitoramento, o que gera fragmentação das políticas públicas. Além disso, há limitações na capacidade institucional, com equipes reduzidas e pouca estrutura técnica.

Avançar exige organizar informações estratégicas, definir prioridades e estabelecer monitoramento. Também é fundamental investir em governança e capacitação. Inovação urbana, nesse contexto, significa melhorar a capacidade de planejar e executar políticas públicas de forma integrada.

5. Olhando para o horizonte de 2026 a 2030, e considerando que estamos caminhando para um novo ciclo na administração pública, quais competências e perfis de liderança serão indispensáveis para conduzir projetos de cidades inteligentes com impacto real na vida da população?

Entre 2026 e 2030, os projetos de cidades inteligentes exigirão lideranças mais estratégicas, capazes de articular visão de longo prazo, capacidade técnica e coordenação entre diferentes áreas da gestão pública.

Uma das competências centrais será a capacidade de usar dados para orientar decisões. Líderes precisarão compreender diagnósticos territoriais, indicadores e sistemas de monitoramento para priorizar investimentos e avaliar resultados.

Também será essencial integrar políticas públicas e estruturar projetos de forma técnica, além de mobilizar diferentes atores. Líderes que combinarem visão sistêmica, gestão orientada por dados e capacidade de articulação terão maior impacto real na vida da população.


Por Leonardo César, Redação MundoCoop

DESTAQUE ED. 129

Entrevista exclusiva publicada na edição 129 da Revista MundoCoop

Relacionado Posts

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

plugins premium WordPress