Educação deve ser a maior aposta do cooperativismo moderno

Por que as cooperativas brasileiras estão colocando a educação no centro da estratégia e o que está em jogo quando esse investimento não acontece

O cooperativismo brasileiro nunca esteve tão forte em números e tão diante de um desafio iminente. Segundo o Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025, divulgado pelo Sistema OCB, o país alcançou 25,8 milhões de cooperados em 2024, crescimento de 66% em apenas cinco anos. As mais de 4 mil cooperativas registradas geraram mais de 578 mil empregos diretos e movimentaram R$757,9 bilhões em ingressos, expansão quase três vezes superior ao crescimento do PIB nacional no mesmo período. Por trás desses indicadores, no entanto, há uma questão que o setor sabe que não pode adiar, a de quem vai conduzir esse movimento nas próximas décadas.

A resposta para esse desafio, por sua vez, direciona o olhar para a educação, não como ação pontual, mas como estratégia central de desenvolvimento. Cursos customizados, parcerias com instituições federais, programas de formação de jovens lideranças e trilhas de qualificação para conselheiros são iniciativas que têm ganhado tração em todo o país, com um objetivo de preparar pessoas que saibam gerir, participar, decidir e cooperar.

DA UNIVERSIDADE PARA A COOPERATIVA

No Rio Grande do Sul, uma dessas iniciativas ganhou forma concreta na parceria entre a Sicredi Botucaraí e o Projeto +Coop, vinculado ao Colégio Politécnico da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O curso de Formação para o Cooperativismo, em andamento desde o início deste ano, já chegou à sua quinta aula com uma turma formada por colaboradores e coordenadores de núcleo, profissionais que ocupam posição estratégica na conexão entre a cooperativa e seus associados. Ao longo dos encontros, os participantes têm trabalhado temas como gestão e planejamento, ESG em cooperativas, empreendedorismo e marketing, com foco na aplicação prática dos conteúdos no dia a dia da cooperativa. O curso segue até novembro.

O professor Jaime Peixoto Stecca, coordenador do Projeto +Coop na UFSM, explica como nasceu essa articulação. A cooperativa não foi apenas contratante, mas parceira no desenho do curso. “A cooperativa nos procura, nós conversamos, fazemos um processo de co-criação e implantamos o curso”, explica. Esse modelo, que ele chama de customizado, é aplicado para públicos variados sempre com metodologias ativas que convidam os participantes a trazer sua própria realidade para dentro da formação.

CAPA JAIME
Professor Jaime Peixoto Stecca (UFSM)

Para Stecca, o movimento de aproximação entre academia e cooperativas produz benefícios para ambas as partes. “Nós levamos o nosso saber e enriquecemos o nosso fazer docente com a presença deles. Com isso, aumentamos a nossa rede de relacionamentos. Nós divulgamos as nossas ações, eles trabalham conosco em eventos e buscam colaboradores. Então, é realmente um trabalho cooperado e de mão dupla. Isso nos ajuda a entender a realidade empresarial e, obviamente, também a entender o que está acontecendo nas

cooperativas.”

Um ponto importante que o professor destaca é a receptividade da iniciativa. “Nosso índice de evasão é muito baixo. Aumenta bastante o número de pessoas que se colocam à disposição para atuar em outros ramos, aumenta o engajamento das pessoas na cooperativa. Eu diria que um dos grandes indicadores é a procura. Os nossos cursos nunca ficam sem turma, quase todos concluem o curso.”

IMPACTO DA FORMAÇÃO

A Universidade Federal de Viçosa (UFV) é uma das referências históricas na formação para o cooperativismo no Brasil. Seu curso de Cooperativismo, iniciado em 1975, tem se reinventado continuamente para responder às demandas de um setor em permanente transformação. O professor Pablo Murta, que integra o Departamento de Economia Rural da UFV, acompanha de perto o efeito concreto que a formação estruturada produz nas cooperativas.

Para ele, o maior benefício para as cooperativas que investem continuamente em educação vai além da capacitação técnica. “O principal ganho estratégico é transformar o cooperativismo em uma competência organizacional permanente, e não apenas em um discurso institucional. A educação é o que permite equilibrar essas dimensões.”

No dia a dia das cooperativas, as mudanças aparecem de formas bem práticas. Equipes e lideranças qualificadas passam a trabalhar com diagnóstico, indicadores, metas e visão de longo prazo. A governança se clarifica. Os conselhos ganham qualidade de decisão. Murta observa que há uma transformação concreta na comunicação com o quadro social. “Uma cooperativa bem formada comunica melhor, presta contas melhor e cria mais canais de participação. Isso aumenta a confiança, fortalece a fidelização dos cooperados, gera valor e melhora a capacidade de mobilização para assembleias, núcleos, comitês e processos de planejamento participativo. O envolvimento ativo do quadro social fortalece a posição da cooperativa no mercado, assim, ‘Todos ganham!'”

Uma informação citada pelo professor Murta revela uma assimetria que merece atenção: os dados disponíveis no Anuário do Cooperativismo indicam que os colaboradores das cooperativas já estão tecnicamente mais qualificados do que os dirigentes. Esse desequilíbrio compromete a governança, justamente o espaço onde as decisões mais estratégicas são tomadas. “Um conselheiro bem formado entende demonstrações financeiras, riscos, indicadores de desempenho, regras de governança, princípios cooperativistas e responsabilidades legais. Mas, além disso, compreende que a decisão cooperativa não pode ser avaliada somente pelo resultado econômico imediato. Ela precisa considerar os impactos sobre o quadro social, a comunidade, a sustentabilidade da cooperativa e a coerência com sua identidade.”

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Professor Pablo Murta, (UFV)

Profissionalizar uma cooperativa sem educar cooperativamente é um risco real, e o professor Murta é direto em relação a isso. “O maior risco é a perda de identidade combinada com perda de competitividade. Essa é uma combinação perigosa. Se a cooperativa não se profissionalizar, ela fica vulnerável em mercados cada vez mais complexos. Mas, se ela fizer isso sem educação cooperativista, pode se distanciar de sua base social e passar a operar como uma empresa convencional que luta para sobreviver no mercado sem nenhum tipo de diferenciação.”

É exatamente essa distinção que a formação estruturada em cooperativismo busca cultivar no indivíduo. No entendimento do professor da UFV, “a principal diferença é a capacidade de compreender a cooperativa como uma organização de dupla natureza: econômica e social. Um profissional sem formação específica pode até dominar ferramentas de gestão, finanças, marketing ou operações, mas corre o risco de aplicar modelos empresariais convencionais sem considerar a lógica associativa e democrática da cooperativa.”

BUSCANDO A NOVA GERAÇÃO

A Escola Superior do Cooperativismo (Escoop), vinculada ao Sistema OCB, ocupa um lugar singular nesse ecossistema de formação, ao mesmo tempo em que desenvolve programas educacionais, utiliza os diagnósticos do próprio sistema para observar os impactos reais da capacitação nas cooperativas. Paola Richter Londero, coordenadora de Ensino, Pesquisa e Extensão da Escoop, é precisa ao descrever o que os dados revelam: cooperativas que investem na qualificação de dirigentes, conselheiros e gestores tendem a apresentar melhores indicadores de gestão e governança, processos mais organizados, maior clareza estratégica e melhor tomada de decisão. Esse reflexo aparece também no desempenho econômico e financeiro.

Entretanto, Paola faz questão de destacar o que ainda falta ser alcançado. “As principais lacunas na formação para o cooperativismo no Brasil ficam evidentes a partir dos diagnósticos de gestão e governança. Um dos principais é a própria educação cooperativista.”

Outra demanda identificada diz respeito aos conselhos. “Ainda percebemos dificuldade de consolidação de trilhas de capacitação para conselheiros de administração, embora esse cenário esteja começando a evoluir.” Ainda, há um desafio metodológico que vai além do conteúdo. “No campo da estratégia e operacionalização dos treinamentos, a maior lacuna está em estabelecer indicadores claros para medir os resultados dessas formações. Precisamos avançar na mensuração do ROI dos treinamentos, indo além das pesquisas de satisfação e medindo efetivamente a transformação e o impacto no negócio.”

O impacto, no entanto, nem sempre se manifesta no curto prazo. “Talvez uma das maiores evidências deste impacto seja justamente observar a trajetória dessas pessoas: jovens que iniciaram em programas de formação e, anos depois, assumem posições de liderança ou cargos em conselhos. Isso demonstra que a formação contribui diretamente para a sucessão, a profissionalização e a continuidade do modelo cooperativo”, acrescenta a coordenadora.

Essa geração que chega tem características próprias, e Paola, que trabalha diretamente com jovens no Comitê Geração C do Rio Grande do Sul, enxerga com otimismo o perfil que se apresenta. “Atuando diretamente com jovens, percebo características muito positivas nessa nova geração. Uma delas é a forte disposição para aprender e se desenvolver. Diferentemente do que muitas vezes se imagina, eles têm grande interesse em ouvir e trocar com pessoas mais experientes dentro das cooperativas, buscando compreender trajetórias e se preparar melhor para o futuro.” Conectados e abertos à inovação, esses jovens respondem bem a metodologias dinâmicas, como gamificação e ferramentas digitais, que tornam o aprendizado mais engajador.

O QUINTO PRINCÍPIO COMO BÚSSOLA

O quinto princípio, que trata de educação, formação e informação não é por acaso, é parte constitutiva do que faz o modelo cooperativo ser o que é. Como lembra o professor Murta, “educar não é algo acessório ao cooperativismo; é parte de sua identidade.”

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Paola Richter Londero (Escoop)

Para o professor Stecca, o desafio que se coloca ao movimento hoje é tão simples quanto complexo. “Eu acredito que o grande desafio do cooperativismo é tornar-se conhecido. E nada mais desafiador, então, do que fazer a educação cooperativa, mas fazer a educação cooperativa também em parceria com as cooperativas, não apenas no espaço acadêmico. Nós temos curso de graduação e curso técnico em cooperativismo, mas também essas formações em que já disse e repito, aprendemos com eles e eles conosco. São espaços bem importantes de fortalecimento do cooperativismo.”

Paola vai na mesma direção ao projetar o que precisa mudar na estratégia das cooperativas. “A educação precisa ocupar um papel central. Em um cenário cada vez mais dinâmico, competitivo e marcado por rápidas transformações, investir em formação é essencial para garantir adaptação, inovação e eficiência.”

O professor Murta finaliza reforçando que para que o cooperativismo brasileiro se mantenha relevante nas próximas décadas, três públicos precisam ser formados de maneira integrada. “Cooperados conscientes, dirigentes preparados e equipes técnicas, todos precisam ser capazes de inovar sem descaracterizar o modelo cooperativo. Quando esses três públicos aprendem juntos, a cooperativa ganha densidade institucional, capacidade de adaptação e legitimidade social.”


O cooperativismo e sua base jovem

  • Mais de 3,2 milhões de cooperados brasileiros têm entre 18 e 30 anos, segundo o BureauCoop, uma geração que chega ao movimento alinhada a valores como participação democrática, sustentabilidade e colaboração.
  • Estudo realizado pelo Sescoop/RS, em parceria com a empresa ComTexto, ouviu mais de 400 jovens cooperativistas entre 16 e 34 anos e revelou que a maioria se mostra otimista com o futuro, acredita no potencial do cooperativismo e deseja atuar de forma ativa na governança das cooperativas.

Desenvolvimento de lideranças como prioridade

  • Na distribuição dos orçamentos de treinamento, líderes recebem 51% dos investimentos e não líderes, 49%, proporção que se mantém estável há uma década, segundo a pesquisa da ABTD. Para o cooperativismo, essa equação é especialmente relevante: conselhos de administração qualificados tomam decisões mais transparentes, reduzem riscos e fortalecem a confiança dos cooperados.

A nova geração precisa de espaço

  • No Rio Grande do Sul, o Relatório de Gestão 2024 do Geração C registrou seis comitês de jovens formalizados no estado, representando 826,1 mil cooperados. A idade média das cooperativas que indicaram jovens ao comitê é de 45 anos, um dado que revela tanto a maturidade das instituições quanto a urgência de renovar suas lideranças.

Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop

*Matéria exclusiva da Revista MundoCoop ed 132



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