Assembleias em cooperativas – Márcio Port é Presidente da Central Sicredi Sul/Sudeste

Todos os anos, as cooperativas vivem um dos momentos mais importantes de sua vida institucional: o período de realização das assembleias. É nesse momento que os associados são chamados a participar das decisões que definem os rumos do empreendimento coletivo do qual são donos.

Ainda assim, não é raro ouvir frases como: “não participei porque não tive tempo”, “isso é coisa para quem entende” ou “alguém decide por mim”. O problema é que, em uma cooperativa, não existe decisão neutra. Toda deliberação afeta a todos — inclusive aqueles que optaram por não participar.

A cooperativa funciona como um condomínio

Uma analogia simples ajuda a entender a importância da assembleia: pense no condomínio em que você mora.

Pense em uma cooperativa como um condomínio residencial. Todos os integrantes são donos de uma pequena parte e têm direito ao uso das instalações. Assim como no condomínio, onde apenas condôminos podem usar a piscina ou áreas comuns, nas cooperativas de crédito somente os associados podem utilizar produtos e serviços.

É na assembleia de condomínio que se decide:

  • o valor da taxa condominial;
  • investimentos e obras;
  • regras de convivência;
  • eleição do síndico e do conselho.

Se você não participa, as decisões continuam sendo tomadas. E você continuará pagando, convivendo e se submetendo às regras, mesmo sem ter opinado.

Na cooperativa, a lógica é semelhante. É na assembleia que se decide sobre:

  • prestação de contas;
  • destinação das sobras ou cobertura de perdas;
  • eleição de conselheiros;
  • investimentos estratégicos;
  • alterações estatutárias;
  • prioridades para o futuro.

Assembleia em cooperativa não é uma formalidade. É um exercício de propriedade

A Assembleia Geral é o órgão máximo da cooperativa. Suas decisões são soberanas e devem ser acatadas por todos os associados, inclusive os ausentes ou discordantes, sempre em favor do interesse coletivo.

Isso significa que abrir mão de participar não elimina os efeitos da decisão — apenas elimina a sua voz no processo.

Participar da assembleia é:

  • exercer o direito de dono;
  • cumprir um dever cooperativista;
  • fortalecer a governança;
  • garantir transparência;
  • contribuir para decisões mais equilibradas e representativas.

Cooperativas fortes não surgem por acaso. Elas são construídas por pessoas que participam, questionam, escolhem e assumem responsabilidades.

Participar não significa gerir o dia a dia da cooperativa

Aqui é importante fazer uma distinção essencial.

Participar da cooperativa não significa acompanhar ou decidir o seu dia a dia operacional. Não seria viável — nem eficiente — que milhares de associados discutissem diariamente temas técnicos, regulatórios, operacionais e comerciais de uma instituição financeira.

Assim como em um condomínio os moradores não negociam contratos, gerenciam equipes ou acompanham a rotina administrativa, nas cooperativas o envolvimento dos associados ocorre por meio de um modelo de delegação responsável.

A lógica da representação: escolher quem decide em nome de todos

Por esse motivo, os associados, reunidos em assembleia, elegem dentre eles os seus representantes, chamados de conselheiros de administração. Esses conselheiros passam a ter a responsabilidade de conduzir a direção estratégica da cooperativa em nome de todo o quadro social.

O papel do conselheiro não é executar. Seu papel é:

  • definir a estratégia;
  • zelar pela perenidade da cooperativa;
  • acompanhar riscos e resultados;
  • representar os interesses coletivos;
  • prestar contas, de forma transparente, aos associados.

Ou seja, o associado não deixa de ser dono. Ele delegou a condução estratégica, mas manteve o direito — e o dever — de acompanhar, avaliar e decidir novamente nas assembleias.

Profissionalização da gestão: executivos para executar

Para a condução do dia a dia, o Conselho de Administração contrata diretores executivos, profissionais especializados na gestão de instituições financeiras. São eles que cuidam da operação, dos negócios, das pessoas, do crédito, do cumprimento regulatório e da estratégia aprovada.

Essa separação entre:

  • quem decide a estratégia (conselho)
  • quem executa (diretoria)

é uma das bases da boa governança.

Mas há um ponto central que nunca pode ser esquecido: a responsabilidade última continua sendo dos representantes eleitos pelos associados. Executivos executam. Conselheiros respondem. E os associados avaliam.

A assembleia fecha o ciclo da confiança

Ao longo do ano, os associados delegam.

Na assembleia, eles avaliam, confirmam ou corrigem o rumo.

É na assembleia que:

  • as contas são aprovadas ou rejeitadas;
  • os resultados são compreendidos e destinados / distribuídos;
  • as decisões estratégicas são validadas;
  • os representantes são reconduzidos ou renovados.

Por isso, a assembleia não é um evento protocolar. Ela é o momento em que o associado reassume plenamente o papel de dono, mesmo sem estar envolvido no dia a dia da gestão.

Delegar sem acompanhar enfraquece a governança.

Participar sem compreender os papéis gera frustração.

Mas delegar com critério e participar das assembleias é o que sustenta cooperativas sólidas, democráticas e perenes.

Neste período assemblear, o convite é simples e direto:

participe, informe-se, vote, manifeste-se.

A cooperativa precisa da sua presença para continuar sendo, de fato, um empreendimento das pessoas, pelas pessoas e para as pessoas.


Por Márcio Port é presidente do conselho de administração da Central Sicredi Sul/Sudeste e autor do livro “Cooperativismo Financeiro, uma história com propósito“

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