Saúde mental virou tema de governança: o que dirigentes e conselhos precisam entender sobre riscos psicossociais – Tais Di Giorno é Jornalista e Fundadora da Sálvia Soluções

Durante muito tempo, falar de saúde mental nas organizações foi visto como um tema periférico, associado a iniciativas de qualidade de vida ou ações pontuais de recursos humanos. Esse cenário mudou e mudou de forma definitiva.

A atualização da NR-1 passou a incluir os riscos psicossociais relacionados ao trabalho no escopo da gestão de riscos ocupacionais, exigindo das organizações algo concreto: identificação, avaliação e controle desses fatores. Em outras palavras, saúde mental deixou de ser apenas uma pauta de cuidado. Passou a ser tema de governança.

Para as cooperativas, essa mudança exige atenção imediata. O cooperativismo nasceu sustentado por valores como solidariedade, respeito e desenvolvimento humano. No entanto, no ambiente de trabalho contemporâneo, marcado por pressão por resultados, conflitos interpessoais e sobrecarga emocional, esses valores precisam se traduzir em práticas estruturadas de gestão.


A norma estabelece que as organizações devem identificar e gerenciar riscos ocupacionais dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Quando falamos de riscos psicossociais, estamos tratando de fatores como ambientes de trabalho com despreparo de lideranças, excesso de demandas, falhas de comunicação, insegurança nas relações profissionais e ausência de apoio organizacional.

Esses elementos não são abstratos. Eles impactam diretamente a saúde das pessoas e a sustentabilidade das organizações.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, riscos psicossociais mal gerenciados estão associados ao aumento de adoecimento, absenteísmo, presenteísmo e queda de produtividade. Ou seja, o tema deixou de ser apenas humano ou social. Tornou-se também estratégico.


É aqui que entra o papel da governança.

Dirigentes e conselhos devem compreender que a gestão de riscos psicossociais não é responsabilidade isolada de um departamento. Ela envolve liderança, cultura organizacional e decisões institucionais.

Quando a norma exige evidências de gestão, está falando de algo muito objetivo: demonstrar que a organização conhece seus riscos, monitora seus impactos e implementa medidas de prevenção.

A pergunta que começa a surgir para muitas cooperativas é simples, mas decisiva:

Se hoje houver uma fiscalização, sua organização consegue demonstrar como identifica e gerencia os riscos psicossociais relacionados ao trabalho?

O prazo regulatório não deve ser visto apenas como obrigação. Ele é um chamado para que as cooperativas fortaleçam ambientes de trabalho coerentes com seus próprios princípios.


Ignorar essa agenda não significa apenas correr risco regulatório. Significa também deixar de cuidar de um dos ativos mais importantes de qualquer organização: as pessoas.


Taís Di Giorno, jornalista com 24 anos de experiência no cooperativismo financeiro, criadora e apresentadora do Programa Café Cooperativo e autora do livro com o mesmo nome.

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