Encontro entre Sistema OCB e BC marca novo avanço do crédito cooperativo no país

Evento reuniu lideranças do setor para debater supervisão, capital, riscos e desafios do SNCC em cenário de maior complexidade operacional

O seminário “SNCC em transformação”, promovido pelo Sistema OCB em parceria com o Banco Central, reuniu lideranças do cooperativismo de crédito e do regulador para discutir os avanços recentes do setor e os desafios associados à evolução da supervisão e da regulação.

O encontro, realizado nos dias 16 e 17 de abril, ocorreu em um momento de expansão do cooperativismo no país, que já ultrapassa a marca de R$ 1 trilhão em ativos totais e amplia sua presença em diferentes regiões.

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Tânia Zanella, presidente-executiva do Sistema OCB

Nesse contexto, o seminário foi estruturado como um espaço de alinhamento institucional e aprofundamento técnico, com foco na adaptação do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC) a um novo ambiente regulatório. Tânia Zanella, presidente-executiva do Sistema OCB, destacou que o momento representa uma etapa importante na evolução do setor. “É um momento importante pela maturidade institucional do nosso sistema cooperativo, mas também nesse alinhamento e nesse diálogo constante com o nosso órgão regulador. Esse encontro será fundamental para pensar o futuro da supervisão”, afirmou.

Diálogo institucional

A realização do evento reforçou o papel do diálogo entre o cooperativismo e o Banco Central como base para a evolução do sistema. Ao longo dos últimos anos, a ampliação da relevância do setor passou a exigir maior proximidade com o regulador, não apenas para acompanhamento normativo, mas para construção conjunta de soluções.

Na avaliação de Zanella, esse movimento reflete um novo estágio institucional do cooperativismo, que passa a demandar maior protagonismo nas discussões regulatórias. Para a executiva, o amadurecimento do sistema está diretamente ligado à capacidade de articulação com o Banco Central e à construção de um ambiente mais alinhado às especificidades do modelo cooperativo.

Crescimento do sistema

Esse avanço institucional está diretamente relacionado à expansão do cooperativismo de crédito, que ampliou sua atuação e passou a ocupar posição mais relevante dentro do sistema financeiro nacional. O crescimento do setor não apenas reforça sua importância econômica, mas também evidencia seu papel na ampliação do acesso a serviços financeiros em regiões menos atendidas por instituições tradicionais.

Ao analisar esse cenário, Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, destacou que o cooperativismo tem contribuído para a construção de um sistema mais equilibrado. Para ele, a expansão do modelo está associada à sua capacidade de combinar inclusão financeira com sustentabilidade. “O cooperativismo tem sido fundamental para ampliar o acesso ao crédito e fortalecer a inclusão financeira no país”, afirmou.

Esse crescimento, por outro lado, trouxe novos desafios para o funcionamento do sistema, especialmente no que diz respeito à governança, à supervisão e à capacidade de absorver riscos em um ambiente mais dinâmico.

Supervisão e estrutura sistêmica

As apresentações do primeiro dia permearam a evolução das estruturas de supervisão e o amadurecimento institucional do cooperativismo de crédito, destacando o papel dos mecanismos de controle na sustentação do crescimento do sistema. Nesse contexto, os debates concentraram-se na capacidade das cooperativas de operar em um ambiente mais complexo sem perder eficiência e segurança.

A partir dessa perspectiva, os desafios ganharam contornos mais claros ao longo do primeiro dia do seminário, que concentrou as discussões nos mecanismos de supervisão e na evolução das estruturas de controle do sistema. A supervisão auxiliar foi apontada como um dos principais instrumentos para garantir a sustentabilidade do cooperativismo em um ambiente mais complexo.

No painel sobre autorização auxiliar, Karoline Gesser, Diretora de Riscos da Cresol, destacou que o avanço dessas estruturas está diretamente ligado ao amadurecimento do cooperativismo. A executiva explicou que o modelo representa uma evolução natural dos sistemas cooperativos, ao ampliar a capacidade de acompanhamento e atuação preventiva.

A representante também ressaltou que a consolidação desse modelo está associada a uma trajetória de construção institucional. “Para demonstrar esse nível de maturidade, é importante olhar a trajetória. No caso da Cresol, houve um movimento de padronização dos estatutos que foi fundamental para a construção do modelo de governança atual”, explicou.

Além da supervisão auxiliar, os debates abordaram mecanismos de integração sistêmica, como estruturas compartilhadas de monitoramento e gestão de risco, que ampliam a capacidade de identificação de vulnerabilidades e fortalecem a atuação coordenada entre as cooperativas.

Esse conjunto de discussões estabeleceu a base para o aprofundamento técnico realizado no segundo dia do seminário. Se o primeiro momento esteve concentrado na evolução das estruturas de supervisão e no amadurecimento institucional do sistema, a etapa seguinte avançou na análise dos instrumentos regulatórios e das exigências de capital necessárias para sustentar esse novo patamar de operação.

Avanço regulatório

A partir desse contexto, o segundo dia do seminário aprofundou as discussões sobre a evolução das regras que sustentam o funcionamento do sistema, especialmente no campo do capital e da regulação prudencial. O tema ganhou centralidade diante da necessidade de alinhar o crescimento do cooperativismo a padrões mais rigorosos de segurança e estabilidade.

Nesse cenário, Uverlan Rodrigues, analista do Banco Central, explicou que a Resolução Conjunta 14 foi construída para modernizar regras que já não acompanhavam a evolução do setor. “A resolução foi elaborada ao longo de um ano de trabalho para atualizar normas que estavam defasadas há mais de 30 anos, justamente porque os modelos de negócio evoluíram”, afirmou.

A principal mudança está na forma como o capital passa a ser exigido das instituições. Segundo Rodrigues, o novo modelo considera as atividades exercidas pelas cooperativas, e não apenas sua estrutura institucional. “A nova abordagem passa a definir o capital mínimo com base na atividade exercida, criando um ambiente mais coerente com a realidade das operações”, destacou.

Capital e resiliência

Essa mudança regulatória também altera a forma como o risco é tratado dentro do sistema. Ao vincular o capital às atividades realizadas, o modelo aproxima a regulação da operação prática das cooperativas e amplia sua capacidade de resposta a cenários adversos.

Nesse sentido, o capital deixou de ser apenas uma exigência normativa e passou a ser compreendido como um elemento estratégico de sustentação do sistema. Durante os debates, foi destacado que estruturas mais robustas de capital permitem não apenas absorver perdas em momentos de crise, mas também ampliar a capacidade de crescimento e viabilizar novos negócios.

Consolidação do sistema

A combinação entre maior exigência regulatória e evolução das estruturas de supervisão também tem provocado mudanças na configuração do cooperativismo de crédito. A necessidade de adaptação a um ambiente mais complexo tem impulsionado movimentos de fusão e incorporação, especialmente entre cooperativas de menor porte.

Esses processos foram apresentados como parte da evolução natural do sistema, que busca ganhar escala, eficiência e capacidade de atendimento diante de um cenário mais exigente.

Governança e representatividade

Ao mesmo tempo em que avança em termos técnicos, o cooperativismo também enfrenta desafios relacionados à governança e à representatividade. O tema surgiu nos debates como uma dimensão complementar da maturidade institucional do setor, indicando que o desenvolvimento do sistema não se limita aos aspectos regulatórios.

Ênio Meinen, Diretor de coordenação sistêmica e relações institucionais do Sicoob , chamou atenção para o descompasso entre a participação feminina na base das cooperativas e sua presença nos níveis mais altos de decisão. “A gente tem hoje cerca de 45% de mulheres compondo o quadro social das cooperativas de crédito, mas essa representatividade não se reflete nos níveis superiores de governança”, afirmou. Para o executivo, o tema representa um desafio relevante, mas também uma oportunidade de evolução institucional para o cooperativismo.

Riscos, tecnologia e fraudes

Se o avanço regulatório e institucional aponta para um sistema mais estruturado, o ambiente tecnológico impõe novos desafios, especialmente no campo da segurança cibernética. O segundo dia do seminário evidenciou o aumento da complexidade dos riscos enfrentados pelas cooperativas.

Dados apresentados indicam que foram registrados 76 incidentes cibernéticos em 2025, ao mesmo tempo em que uma parcela significativa das instituições ainda apresenta fragilidades em seus processos de monitoramento, o que amplia a exposição a ataques e falhas operacionais.

Ao tratar do tema, Aristides Andrade, Chefe do Departamento de Gestão Estratégico e Supervisão Especializada, destacou que a evolução do sistema financeiro foi acompanhada pela sofisticação das ameaças. “O sistema mudou com o avanço do PIX e do Open Finance, e o crime organizado mudou junto. Hoje, o foco dos ataques está na infraestrutura digital das instituições”, afirmou.

Além dos ataques externos, o especialista explicou que fragilidades internas continuam sendo um ponto crítico para o setor. Segundo ele, a ausência de controles básicos, como revisões periódicas de acesso, contribui diretamente para a ocorrência de incidentes que poderiam ser evitados com práticas mais estruturadas de governança tecnológica.

O avanço das fraudes também foi tratado como um fenômeno sistêmico. Valdemir Fortes de Sousa, Chefe-Adjunto do Departamento de Supervisão de Conduta (Decon/Bacen), destacou que os golpes passaram a operar de forma integrada com outros crimes financeiros. “Hoje existe uma indústria estruturada de fraudes, com integração entre golpes e lavagem de dinheiro, o que exige uma atuação coordenada das instituições”, afirmou.

Resposta do sistema

Diante desse cenário, o seminário também destacou iniciativas voltadas à prevenção e ao fortalecimento do sistema. Entre elas, o programa BC Protege Mais foi apresentado como um exemplo de resposta prática aos riscos crescentes.

A ferramenta já conta com mais de 1 milhão de usuários e acumula cerca de 140 milhões de consultas, indicando sua relevância no monitoramento de operações e na prevenção de fraudes.

Sistema em transformação

A combinação entre crescimento, evolução regulatória e aumento da complexidade operacional aponta para um momento de transformação no cooperativismo de crédito brasileiro.

Ao longo dos dois dias de seminário, ficou evidente que o avanço do setor está diretamente ligado à sua capacidade de adaptação a um ambiente mais exigente, sem perder as características que definem o modelo cooperativo. Nesse cenário, o fortalecimento da supervisão, a modernização das regras de capital e o enfrentamento dos riscos tecnológicos se consolidam como eixos centrais para a sustentabilidade do sistema nos próximos anos.


Por João Victor, Redação MundoCoop

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