A presença feminina vem avançando em diferentes frentes do agronegócio brasileiro. Contudo, esse movimento ainda encontra um descompasso quando chega aos espaços de decisão. De acordo com dados apresentados pelo AnuárioCoop 2026, as mulheres representam 18,83% dos dirigentes no cooperativismo agropecuário brasileiro. O percentual apresentado no estudo aparece abaixo da participação já registrada entre os empregados do ramo, de 37,41%, e distante do cenário observado na formação profissional ligada ao setor.
O Censo da Educação Superior do Ministério da Educação (MEC), elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) aponta que, nos cursos superiores de agricultura, silvicultura, pesca e veterinária, elas já representam 50,9% dos concluintes. O avanço também aparece no mercado de trabalho: em 2025, o contingente feminino ocupado no agronegócio cresceu 2,6%, com aproximadamente 278 mil mulheres a mais, acima da expansão de 1,9% registrada entre os homens.
O contraste ganha relevância neste Dia Internacional das Mulheres Rurais, celebrado nesta quinta-feira (15), e ajuda a dimensionar uma transformação que ainda ocorre em velocidades diferentes. Enquanto qualificação e inserção profissional avançam, propriedade, participação societária e liderança continuam sendo espaços em que a presença feminina é proporcionalmente menor.
Gargalos da desigualdade
O cenário brasileiro acompanha uma transformação mais ampla. As mulheres representam 42% da força de trabalho mundial dos sistemas agroalimentares, atuando da produção e processamento à distribuição e comercialização. Ainda assim, a FAO identifica desigualdades persistentes em acesso a recursos, tecnologia, educação, renda e oportunidades. Mesmo em propriedades de tamanho semelhante, a produtividade da terra administrada por mulheres apresenta diferença de 24% , associada a restrições estruturais.
O custo dessa distância também pode ser medido economicamente. Segundo a organização, eliminar as diferenças de produtividade agrícola e remuneração entre homens e mulheres poderia acrescentar US$1 trilhão ao PIB mundial e reduzir a insegurança alimentar para aproximadamente 45 milhões de pessoas.
A discussão já vinha sendo acompanhada pelo cooperativismo internacional. Hodong Kang, presidente da Organização Cooperativa Agrícola Internacional (OACI), destacou o Ano Internacional da Agricultura como uma oportunidade para ampliar o apoio às mulheres no campo. A entidade incluiu o fortalecimento de jovens e mulheres agricultoras entre seus compromissos e vem avaliando ações para favorecer projetos e organizações liderados por elas.
No Brasil, o aumento da qualificação ainda encontra uma estrutura fundiária bastante desigual. Estudo da Fundação IDH indica que mulheres estão à frente da produção em aproximadamente 19% das propriedades rurais, o equivalente a cerca de duas em cada dez, porém administram somente 8,5% da área explorada no campo, aproximadamente 30 milhões de hectares. A presença é maior nas propriedades menores e ligadas à agricultura familiar.
A diferença também chega à renda. Apenas 17,4% das mulheres do setor recebem acima de três salários mínimos, diante de 29,8% dos homens. A situação varia entre as cadeias: elas lideram 33% das propriedades pecuárias analisadas, 22% no cacau e 18% nos citros, enquanto a participação cai para 13,2% no café e 5,4% nas posições de liderança da cana-de-açúcar.
Cooperativismo ainda tem espaço para avançar
Dentro do cooperativismo, o tamanho do ramo Agropecuário amplia a relevância dessa discussão. As 1.254 cooperativas do segmento reúnem 1,13 milhão de associados, 277,2 mil empregados e R$487,3 bilhões em ingressos, segundo o Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2026.
A participação feminina, entretanto, assume proporções diferentes conforme a posição ocupada. Mulheres já correspondem a 37,41% dos empregados das cooperativas agropecuárias, quase o dobro dos 18,71% registrados no quadro social. Entre os dirigentes, o percentual permanece semelhante, em 18,83%.
A distância ganha outra dimensão diante do perfil dos associados. Atualmente, 71,2% do quadro social das cooperativas agropecuárias é formado por agricultores familiares, grupo para o qual organização coletiva, assistência técnica, acesso a mercados e sucessão das propriedades têm impacto direto sobre a continuidade da produção.
Nesse contexto, ampliar a participação das mulheres não envolve apenas aumentar sua presença nas equipes profissionais. O desafio alcança o ingresso no quadro social, a participação nas decisões econômicas da propriedade e a criação de caminhos que levem cooperadas até conselhos, diretorias e presidências.
Liderança de peso
Alguns movimentos começam a aparecer nos indicadores estaduais. No Rio Grande do Sul, o número de mulheres na presidência de cooperativas passou de 34 em 2025 para 43 em 2026, alcançando 12% das presidências das organizações registradas no estado.
O Sistema Ocergs também estruturou o Elas pelo Coop RS, que atua na formação e conexão de lideranças femininas. Para o ciclo iniciado em 2026, a proposta inclui desenvolvimento de projetos, fortalecimento de redes e compartilhamento de práticas entre as cooperativas. A agenda estadual vem incorporando ainda indicadores, governança e criação de espaços permanentes de participação.
Por Redação MundoCoop












