Lei de Incentivo amplia perspectivas para cooperativas de reciclagem

A entrada em execução de novos projetos apoiados pela Lei de Incentivo à Reciclagem começa a ampliar as perspectivas para cooperativas que atuam na coleta, triagem e comercialização de resíduos. Em São Paulo, a Cooperativa Crescer lançou, no início de junho, o projeto “Parceria que Recicla o Futuro”, iniciativa voltada à modernização de sua estrutura operacional e administrativa.

Com duração prevista de 15 meses, o projeto está entre os primeiros autorizados a entrar em execução por meio da legislação, segundo informações divulgadas pela cooperativa. A iniciativa conta com patrocínio de empresas privadas e prevê a aquisição de equipamentos para movimentação, transporte e processamento de materiais, além de recursos destinados à gestão e à comunicação institucional.

O investimento ocorre em um setor que presta serviços ambientais essenciais às cidades, mas ainda enfrenta limitações de infraestrutura, capacitação e organização administrativa. Ao mesmo tempo, as cooperativas oferecem oportunidades de trabalho e renda para pessoas em situação de vulnerabilidade e ocupam uma posição estratégica na economia circular.

Investimento amplia capacidade

Fundada em 2006, a Cooperativa Crescer atua na região noroeste da capital paulista e reúne atualmente 62 cooperados. Com a nova estrutura, a organização pretende ampliar sua capacidade de coleta seletiva, triagem e processamento de resíduos, além de aumentar em 20% o número de integrantes.

Os equipamentos também devem melhorar a movimentação interna dos materiais e permitir a expansão dos serviços oferecidos a condomínios, empresas e estabelecimentos comerciais. A expectativa é reduzir gargalos operacionais que afetam a produtividade e as condições de trabalho dentro da cooperativa. “Com a nova estrutura, será possível ampliar nossa capacidade produtiva, gerar novos postos de trabalho e elevar a renda média dos cooperados”, afirmou Jair do Amaral, presidente da Cooperativa Crescer.

O projeto mostra como a Lei de Incentivo à Reciclagem pode aproximar recursos privados de organizações que historicamente encontram dificuldades para financiar a modernização de suas atividades. No entanto, a realidade de outras cooperativas demonstra que os desafios do setor não se limitam à aquisição de máquinas e veículos.

Desafios de infraestrutura

Na Cooperativa Viver Bem, também localizada em São Paulo, chegam mensalmente entre 250 e 300 toneladas de resíduos. Desse total, cerca de 160 toneladas são efetivamente aproveitadas. O restante segue para descarte, principalmente em decorrência da contaminação dos materiais e da separação inadequada antes da coleta.

Embalagens misturadas a restos de alimentos, resíduos sanitários e materiais cortantes aumentam o tempo de triagem, reduzem a quantidade comercializada e expõem os trabalhadores a riscos. O cenário evidencia que a ampliação da reciclagem depende tanto de investimentos nas cooperativas quanto da participação da população na separação correta dos resíduos.

Além das dificuldades operacionais, a sustentabilidade dessas organizações exige formação continuada em gestão, negociação, liderança e planejamento financeiro. Para a presidente da Viver Bem, Tereza Montenegro, a ausência de apoio técnico compromete a permanência de muitas cooperativas no mercado. “Deveria haver assessoria técnica desde o berço das cooperativas. Nem todas contam com pessoas que têm formação ou informação para gerir o negócio, liderar equipes, negociar vendas ou lidar com a operação do dia a dia. Muitas surgem, mas não conseguem sobreviver”, avaliou.

Apesar das limitações, a Viver Bem participa de projetos de logística reversa com grandes empresas e desenvolve iniciativas ligadas à rastreabilidade dos resíduos, aos créditos de reciclagem e à certificação de carbono. Essas atividades mostram que as cooperativas podem assumir funções cada vez mais qualificadas dentro da cadeia, desde que tenham estrutura e conhecimento para acompanhar as novas demandas do mercado.

Parte desses desafios foi observada durante a Jornada Desafio Pimp, promovida pelo Sebrae em São Paulo. A iniciativa levou consultores, gestores e agentes de desenvolvimento de diferentes estados para conhecer a rotina de cooperativas e identificar soluções que possam ser adaptadas a outras regiões do país.

Inclusão e reconhecimento

A função das cooperativas também ultrapassa a destinação ambientalmente adequada dos resíduos. Na Cooperativa Rainha da Reciclagem, localizada na Zona Leste de São Paulo, 45 mulheres atuam diariamente na triagem e comercialização de materiais recicláveis.

Entre elas, 15 são atendidas pelo Centro de Acolhimento Guerreiros de Deus. Além da geração de renda, o trabalho oferece condições para que reconstruam sua autonomia e retomem projetos pessoais e profissionais interrompidos por situações de vulnerabilidade.

Experiência semelhante é relatada por Geane Fonseca de Souza, que trabalha há mais de dois anos na Cooperativa Viver Bem. Antes de ingressar na organização, ela atuava como auxiliar de serviços gerais. A nova atividade permitiu conciliar melhor o trabalho com os cuidados familiares. “Hoje consigo acompanhar mais a minha família e organizar melhor minha rotina com meus filhos. Gosto do que faço porque sei que estou contribuindo para o meio ambiente”, contou.

Embora produzam benefícios ambientais, econômicos e sociais, os trabalhadores da reciclagem ainda dependem, em grande parte, da venda dos materiais coletados. A oscilação dos preços, a baixa qualidade dos resíduos recebidos e os custos da operação afetam diretamente a renda distribuída pelas cooperativas. Para Marilane Poeckel, coordenadora financeira da Coomcat, é necessário reconhecer que o trabalho dos catadores gera resultados para toda a sociedade e reduz custos relacionados à limpeza urbana e à destinação de resíduos. “O catador não pode ser remunerado apenas pela venda do material. O resíduo tem valor social, econômico e ambiental. É preciso reconhecer e remunerar o serviço ambiental prestado por esses trabalhadores”, defendeu.

O fortalecimento das cooperativas depende de uma combinação de fatores. Investimentos incentivados podem ajudar a modernizar a operação, mas precisam estar acompanhados de capacitação, contratos, políticas públicas e maior participação da população.


Elaborado pela MundoCoop com insformações de Recicla Sampa, Agência Sebrae e Envolverde

Relacionado Posts

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

plugins premium WordPress