“A gente finge que não usa, eles fingem que não veem”. A frase é de um estudante do ensino médio sobre a relação entre alunos e professores quando o assunto é a utilização de Inteligência Artificial (IA) no ambiente escolar. O relato integra a pesquisa “Inteligência Artificial na Educação: usos, oportunidades e riscos no cenário brasileiro”, que evidencia o processo acelerado de disseminação do uso de IA nas escolas e os desafios que a tecnologia impõe quando não é introduzida de forma planejada e intencional.
Atenta a essa realidade, uma instituição de ensino de Santa Maria de Jetibá, no interior do Espírito Santo, decidiu incorporar a IA em sua rotina pedagógica. Desde 2025, a Cooperativa Educacional Centro-Serrana (Cooperação) estrutura o seu método pedagógico com a ajuda da plataforma de educação Geekie One. Ela é a primeira cooperativa do segmento a adotar essa funcionalidade no estado.
A novidade aprimorou a forma como os alunos aprendem, os professores ensinam e as famílias acompanham o desempenho de seus filhos. Até então, a supervisão da aprendizagem dos 264 estudantes da Cooperação era fundamentada na percepção dos professores e, portanto, mais intuitiva. Com a ajuda da IA, a evolução dos alunos começou a ser gerida com dados rastreáveis.
A plataforma escolhida para fazer esse trabalho mede a curva de aprendizado de cada estudante de maneira personalizada, a partir de um teste de mensuração baseado na Teoria de Resposta ao Item, a mesma metodologia adotada pelo Inep em provas objetivas do Enem. Diferente das IAs abertas, que exibem um chat para interações livres, a ferramenta é exclusivamente focada na educação escolar e adaptada aos parâmetros da Cooperação.
A interface é alimentada por professores, que lançam atividades, e alunos, que interagem com o conteúdo postado. No contraturno, sempre em dias letivos, os discentes respondem atividades relacionadas aos conteúdos abordados em sala de aula, organizados por disciplinas e áreas do conhecimento. Além da quantidade de acertos, a IA contabiliza o tempo de estudo. Com isso, os professores e a diretoria pedagógica conseguem ver o desempenho de cada estudante a curto, médio e longo prazo, além de identificar temas que podem ser reforçados.
O diretor da Cooperação, Charles Moura Netto, conta que a gestão educacional orientada por inteligência de dados está presente da pré-escola ao ensino médio, com diferentes níveis de profundidade. “Da educação infantil e até o 5º ano, o monitoramento é contínuo e voltado ao conteúdo e ao desenvolvimento do processo de aprendizagem, com ênfase no desempenho dos professores e, por consequência, no dos alunos”, informa.
Conforme o aluno avança nas séries, a utilização da IA aumenta. “As avaliações estruturadas começam já no 1º ano e se intensificam do 3º ao 5º, dando à coordenação um retrato mais nítido de como o trabalho em sala se converte em aprendizagem. Do 6º ano ao ensino médio, a coleta de dados é recorrente”, explica Netto.
Essas últimas séries citadas pelo diretor acessam a interface diariamente, em Chromebooks cedidos gratuitamente para cada estudante, graças a uma parceria que a Cooperação realizou com a Google. Entre as informações exibidas à direção pedagógica estão o desempenho nas atividades e tempo de estudo, seja individual ou em relação à turma, trabalhos e atividades não entregues e notas.
Os resultados já apareceram. Na devolutiva mais recente recebida pela Cooperação, a escola ficou 10,4% acima da média nacional em desempenho, com todas as séries avaliadas acima da média de referência e 19,3% acima na média de engajamento. “Todas as séries avaliadas ficaram acima dessa média. Portanto, sabemos que a escola não tem nenhuma série abaixo da média de referência”, explica Netto.
Famílias acompanham desempenho dos alunos
Na infância e adolescência, o processo de aprendizagem extrapola as salas de aula. Envolver os pais ou responsáveis dos alunos é fundamental para criar uma rotina saudável de estudos. Por isso, os dados coletados pela Cooperação não chegam apenas até a equipe pedagógica, mas também são compartilhados com as famílias, que são cooperadas e donas do negócio.
Todas as semanas, elas recebem um relatório individual dos filhos em um aplicativo chamado ClassApp, personalizado de acordo com a faixa etária dos alunos. O relatório avalia o rendimento e a participação de estudantes do 6° ano do ensino fundamental ao ensino médio. As mensagens ainda possuem confirmação de leitura, o que permite rastrear a entrega das comunicações enviadas.
Fredy Holz, gerente de TI e Inovação da Nater Coop e cooperado da Cooperação, aprova o estreitamento da comunicação entre escola e família. Ele é pai de Gusttavo, de 14 anos e aluno do 8º ano do ensino fundamental, e de Elena, com 9 anos e cursando o 3° ano do ensino fundamental. Ambos estudam na cooperativa educacional desde que começaram a frequentar a escola.
Holz lembra que, antes do envio dos relatórios semanais, acompanhava o desempenho de seus filhos de forma pontual, com foco na entrega de trabalhos, nas notas das provas e nas reuniões dos plantões pedagógicos. “A gente acabava sabendo do resultado apenas quando o ciclo já tinha fechado”, recorda.
O acompanhamento em tempo real evita justamente esse tipo de problema, permitindo que os pais intervenham em uma situação antes de ela se tornar mais complexa. “O Gusttavo sempre foi muito dedicado aos estudos, mas, em uma semana específica, o relatório me alertou que ele não havia feito todas as atividades propostas. Isso me permitiu intervir rapidamente, entender o que estava acontecendo e, junto com ele, realinhar a rotina para garantir a entrega das tarefas antes que virasse uma bola de neve”, exemplifica o pai do aluno.
Agora, ele estabeleceu uma rotina com seu filho. Todas as sextas-feiras, analisa os relatórios recebidos. Caso haja algo fora do padão, utiliza os dados para ter uma conversa embasada. “Consigo sugerir que ele faça atividades complementares ou que busque apoio com o professor na semana seguinte, transformando o relatório em uma ferramenta de diálogo, e não apenas de cobrança”, observa.
O nível de profundidade dos relatórios possibilita que os pais até mesmo desafiem seus filhos para evoluir nos estudos, respeitando o tempo de aprendizagem de cada um. Com base nos índices estabelecidos pela escola, é possível identificar quais alunos precisam de intervenção, quais devem ser orientados e quais podem ser motivados a ir além. “O próprio sistema identifica o perfil do aluno e gera novos desafios. Isso me permite ver não só se meu filho cumpre o básico, mas se está se desafiando”, ressalta Holz.
Além de ver o desempenho dos alunos, o aplicativo permite que os pais se comuniquem de forma estruturada e segura com a cooperativa. É nessa ferramenta que os cooperados realizam a matrícula e a rematrícula dos estudantes, acompanham notas e enviam mensagens para professores, coordenadores e até para a direção.
Na opinião de Holz, é compreensível que algumas famílias ainda desconfiem da IA no contexto da educação, mas considera que quando ela é inserida com responsabilidade e estratégia, se torna uma aliada, e não um risco para a aprendizagem. “A tecnologia não veio substituir o lado humano ou o professor, mas potencializá-los. O receio é natural, mas quando usamos a IA de forma guiada e com propósito pedagógico, preparamos nossos filhos para o mundo real, ensinando-os a utilizar a tecnologia de forma inteligente e produtiva, e não apenas como consumidores passivos de telas”, reflete.
O ponto de vista do educador
Será que a IA substitui ou tira o protagonismo do professor? Na visão da diretora pedagógica da Cooperação, Sandra Maria Guisso, não. “O conhecimento do professor tende a deixar a IA mais eficiente. Na Cooperação, incentivamos que o professor alimente a tecnologia com informações que vêm de sua prática pedagógica. Assim, o uso dessa ferramenta se torna um recurso para o docente, e não um substitutivo”, esclarece.
Fonte: Sistema OCB com adaptações da MundoCoop












